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SpaceX, Anthropic e OpenAI procuram fazer história na bolsa

SpaceX, Anthropic e OpenAI procuram fazer história na bolsa

SpaceX, OpenAI e Anthropic estão posicionadas para fazerem história quando oficializarem as respetivas entradas em bolsa (IPO). No caso da SpaceX, a sua entrada nos mercados deve acontecer a 12 de junho. A Anthropic entregou junto do regulador norte-americano (SEC), na segunda-feira, de forma confidencial, a sua proposta para entrada em bolsa, “dependente das condições de mercado e de outros fatores”. A OpenAI estará em vias de entregar a documentação, de forma confidencial, para entrar em bolsa esta semana, como avançado, pela CNBC.
Quanto à SpaceX, a sua entrada em bolsa deve ocorrer a 12 de junho, com a integração no índice norte-americano Nasdaq. Um IPO que, tudo indica, será histórico. Se tudo ocorrer conforme planeado, a avaliação da empresa de foguetões, satélites, e de inteligência artificial, de Elon Musk, que deve ser o primeiro trilionário da história, deve subir para pelo menos 1,75 biliões de dólares (1,51 biliões de euros), o que a tornaria atualmente a nona cotada mais valiosa do mundo, e pelo meio angariar 80 mil milhões de dólares (68,8 mil milhões de euros), superando por larga margem os 25,5 mil milhões de dólares (21,9 mil milhões de euros) da Saudi Aramco em 2019.
Só 14 cotadas têm atualmente estatuto de bilionárias no mundo (Nvidia, Alphabet (proprietária da Google), Apple, Microsoft, Amazon, TSMC, Broadcom, Saudi Aramco, Tesla, Samsung, Meta, Micron Technology, SK Hynix, Berkshire Hathaway). A ameaçar entrar neste clube estão a Eli Lilly e a Walmart com avaliações de 965 mil milhões de dólares (828,7 mil milhões de euros) e 911 mil milhões de dólares (782,3 mil milhões de euros).
Quanto à Anthropic e à OpenAI, as suas mais recentes rondas de financiamento colocam estas empresas com avaliações de 965 mil milhões de dólares e 852 mil milhões de dólares (827,9 mil milhões de euros e 731 mil milhões de euros ), o que as colocavam como a 16ª e a 18ª cotadas mais valiosas do mundo. Com a nova ronda de financiamento a Anthropic passou a ser a segunda não cotada mais valioso do mundo, ultrapassando a OpenAI, numa tabela liderada pela SpaceX.
Mas estarão as avaliações destas três empresas alinhadas com a realidade? De acordo com os analistas consultados pelo Jornal Económico (JE) tal não se verifica. Contudo, sublinham que estas avaliações também revelam o poderio que estas três empresas possuem face às atuais cotadas e a enorme expetativa depositada pelo respetivos investidores de que consigam níveis de crescimento impressionantes. E a capacidade que possuem de reconfigurar os atuais índices norte-americanos.
O analista da XTB, Vítor Madeira, considera “fascinante” analisar o atual momento protagonizado por estas três empresas. “Estamos a assistir a um fenómeno sem precedentes nos mercados financeiros, onde o capital privado conseguiu escalar empresas até dimensões de mega-capitalização antes mesmo de abrirem o capital ao público (IPO)”, afirma.
Contudo Vítor Madeira considera que ao nível puramente fundamental as avaliações atribuídas a qualquer uma destas empresas “não refletem” o valor presente das suas operações. “Refletem, sim, expetativas extremas, o prémio de escassez e o potencial de oligopólio em duas das maiores mudanças de paradigma do século: a inteligência artificial e a exploração espacial”, explica o analista.
Vítor Madeira salienta que os múltiplos atribuídos a estas empresas “desafiam a gravidade” por várias razões.
“Primeiro, existe um contraste evidente entre estes múltiplos inéditos e a economia real. Uma empresa cotada sólida e madura como a Apple negoceia historicamente a cerca de 9x/10x as suas receitas, enquanto a SpaceX procura um IPO a um múltiplo de até 125x sobre as receitas industriais e logísticas, algo sem qualquer paralelo no histórico de IPO’s. O mercado está a avaliar a empresa não pelas receitas da Starlink hoje, mas pelo monopólio logístico espacial e pela recente, e controversa, absorção da subsidiária xAI”, elenca o analista da XTB.
Para Vítor Madeira o que “desculpa” os rácios da OpenAI e da Anthropic é o “crescimento das suas métricas financeiras a alta velocidade”. No caso da Anthropic é sustentada pelo “forte domínio” no mercado empresarial com o Claude Code, que “alcançou recentemente um ritmo de faturação anual (run rate) de 30 mil milhões de dólares (25,8 mil milhões de euros), um marco que a Salesforce, para efeitos de comparação, demorou duas décadas a atingir”.
E a isto junta-se o prémio da falta de concorrência, que leva os investidores a precificarem estas empresas como “empresas monopolistas, com vantagens comparativas (MOAT) e com elevadas barreiras” à entrada por novos players. “No entanto, o verdadeiro valor destas entidades encontra-se refém da infraestrutura física. A dependência de chips personalizados (Nvidia, Broadcom) e de energia elétrica em larga escala para alimentar os novos data centers (ou centros de dados) significa que muito do capital que justifica estas avaliações terá de ser investido em infraestruturas (capex) nos próximos anos”, refere Vítor Madeira.
No respeitante à avaliação financeira, o analista da XTB diz que estas avaliações “são claramente uma mão cheia de perspetivas futuras pagas a peso de ouro” ao momento atual.
“A SpaceX submeteu, a 1 de Abril de 2026, um S‑1 confidencial à SEC, visando uma avaliação entre 1,75 biliões e dois biliões de dólares (1,51 biliões de euros e 1,7 biliões de euros) e uma operação de cerca de 75 mil milhões de dólares (64,5 mil milhões de euros) — quase o triplo do recorde anterior, detido pela Saudi Aramco em 2019. A companhia terá registado, em 2025, um prejuízo aproximado de cinco mil milhões de dólares (4,3 mil milhões de euros) sobre uma receita superior a 18,5 mil milhões  de dólares (15,9 mil milhões de euros), o que implica múltiplos preço/vendas dificilmente comparáveis com qualquer congénere cotado. No caso da OpenAI, o derradeiro financiamento privado fechou em 852 mil milhões (732,9 mil milhões de euros), com receitas de 13 mil milhões de dólares (11,1 mil milhões de euros) em 2025 e ausência de lucros prevista até 2030; quanto à Anthropic, decorrem conversações para uma ronda próxima dos 900 mil milhões de dólares (774,2 mil milhões de euros) de avaliação “pré‑money”, sustentada por uma corrida da receita anualizada que terá passado de nove mil milhões de dólares (7,7 mil milhões de euros) em finais de 2025 para valores estimados entre 30 e 44 mil milhões de dólares (25,8 mil milhões de euros e 37,8 mil milhões de euros) em maio de 2026, com margens brutas reportadas acima de 70%”, começa por referir João Queiroz.
Para João Queiroz a escala dos números apresentados pela SpaceX, OpenAI, e Anthropic, no que concerne às suas avaliações, quando transportadas para o índice norte-americano Nasdaq, faz com que apenas seis emitentes (Nvidia, Alphabet, Apple, Microsoft, Amazon e Broadcom) — apresentem capitalização superior à que a SpaceX procura no momento da admissão.
“A questão analítica deixa, portanto, de ser de natureza qualitativa — “são empresas valiosas?” — e passa a ser de natureza quantitativa: que crescimento, que margem “terminal” e que custo de capital terá o mercado de assumir para validar tais avaliações?”, explica João Queiroz.
Referindo-se à SpaceX, João Queiroz adianta que o argumento está “assente na monetização da Starlink (com base instalada superior a nove milhões de utilizadores) e na convergência computacional resultante da integração com a xAI; nas duas casas de inteligência artificial generativa, no pressuposto de que a atual taxa de crescimento da receita comprime o múltiplo num horizonte de três a cinco anos”.
Para João Queiroz nenhuma destas hipóteses é, em si, “irracional ou tonta”, acrescentando que “todas elas são, contudo, condicionais e incorporam uma relativa dose de generosidade” nos desempenhos.
Quanto ao investidor, João Queiroz adianta que para aqueles que atualmente analisam o universo espacial cotado já se observa um sector cujo preço já “reflete muito do otimismo derivado”.
Para os investidores que estão a aguardar a entrada em bolsa da SpaceX, da OpenAI e da Anthropic, João Queiroz vê três empresas cuja relevância económica “é difícil de contestar, mas cujas avaliações exigem uma impecável e imaculada trajetória de execução que, sendo plausível, não se encontra ainda demonstrada nas demonstrações financeiras conhecidas”.
Para João Queiroz entre uma exposição ao tema através dos veículos cotados — diretos ou através dos ETF temáticos da ProcureAM, Van Eck e Tema Global — e a participação direta nas próximas operações, “a diferença não reside na qualidade dos ativos subjacentes, mas no preço a que cada uma delas está disponível e no grau de tolerância do investidor face à dispersão de cenários possíveis”.
O analista da ActivTrades Europe, Henrique Valente, considera que as avaliações atribuídas à SpaceX, OpenAI, e Anthropic “parecem generosas” à luz dos resultados atuais, tendo em conta a exigência de capital e de investimento destas empresas.
“A SpaceX é um caso à parte. Apesar de a Starlink já gerar retorno e ser o principal motor de receitas, a SpaceX como um todo ainda é muito intensiva em capital e terá de provar que consegue transformar escala operacional em rentabilidade sustentável”, defende Henrique Valente.
“A OpenAI e a Anthropic estão no centro da corrida à inteligência artificial, e o interesse dos investidores vai depender da sua capacidade de se manterem competitivas. São empresas com custos enormes em infraestrutura e computação. No curto prazo, podem negociar com base nas expectativas futuras, mas eventualmente terão de enfrentar a realidade dos números”, acrescenta o analista da ActivTrades Europe.
Empresas à procura de história
O analista da XTB, Vítor Madeira, salienta que se SpaceX, OpenAI, e Anthropic, concretizarem a sua entrada em bolsa será “claramente um momento histórico” para as bolsas norte-americanas e “poderá ter vários impactos estruturais profundos”.
Um dos principais impactos, salienta o analista, será a “reestruturação e concentração” dos índices. “Quando entrarem no S&P 500 e no Nasdaq 100, irão absorver de imediato uma ponderação significativa”, refere Vítor Madeira.
“O mercado, que já sofre da falta de amplitude por estar muito focado nas “Sete Magníficos” (Apple, Microsoft, Nvidia, Alphabet, Tesla, Amazon e Meta), ficará ainda mais enviesado, e a saúde de todo o índice passará a estar dependente do ciclo de vida da tecnologia aeroespacial e da inteligência artificial (IA), aumentando significativamente o risco sistémico”, refere Vítor Madeira.
O analista da XTB salienta que em simultâneo ocorrerá uma drenagem de liquidez que provocará um “forte efeito” de rotação. “Para absorver IPO’s da dimensão de triliões ou biliões de dólares, o capital tem de vir de algum lado, resultando provavelmente na retirada de capital de outros setores, tais como, software e tecnologia “tradicionais”. Os gestores de fundos institucionais terão de liquidar posições consolidadas noutras empresas para poderem libertar o capital necessário para entrar nestas novas gigantes”, acrescenta.
“A par disto, assistiremos a um efeito de contágio nas infraestruturas. A entrada de triliões em capitalização nestas três empresas injetará um nível extremo de otimismo, confiança e novos contratos nos seus fornecedores, o que poderá gerar movimentos agressivos e autênticas bolhas nos preços de componentes e energia”, considera Vítor Madeira.
O analista da ActivTrades Europe, Henrique Valente, considera que a entrada em bolsa destas três empresas “representariam uma grande expansão” da oferta de ações num mercado que, durante vários anos, beneficiou da escassez de novas cotadas. “O número de empresas domésticas cotadas nos Estados Unidos caiu de 4.317 em 2023 para 4.010 em 2024, e continua muito abaixo dos níveis do final dos anos 90. Ao mesmo tempo, a atividade de IPOs (oferta pública inicial) permanece longe do pico de 2021, quando houve mais de mil entradas em bolsa nos Estados Unidos”, explica.
“A entrada de SpaceX, OpenAI e Anthropic daria aos investidores acesso a três das histórias de crescimento mais relevantes do momento, mas também obrigaria o mercado a absorver uma quantidade elevada de nova oferta. Isso pode aumentar a profundidade do mercado, mas também pressionar avaliações existentes, sobretudo se parte do capital for deslocada de outras grandes tecnológicas”, alerta o analista da ActivTrades Europe.
João Queiroz aponta ainda para um vetor mecânico que “dificilmente pode ser ignorado” por quem gere carteiras de investimento e poupanças. “A probabilidade de inclusão acelerada em índices de referência, em particular no Nasdaq 100 e, eventualmente, no S&P 500, gera uma procura passiva forçada que tende a sustentar os preços nas semanas seguintes ao início da negociação”, salienta.
“Este fator — independente da análise fundamental — pode contribuir para descolar, no curto prazo, cotação e valor intrínseco. Convém, no entanto, lembrar o histórico das maiores admissões à cotação alguma vez registadas. Das cinco maiores OPV’s (ofertas públicas de venda) dos últimos vinte e cinco anos, apenas a Visa superou claramente o mercado, quando a Saudi Aramco continua abaixo do preço de estreia em bolsa e três outras falharam o objetivo de acompanhar o índice. A leitura prudencial é a de que entrar no primeiro dia de negociação não é, historicamente, a estratégia mais favorável ao investidor de longo prazo, sobretudo quando o preço inicial já incorpora execução próxima da perfeição”, alerta João Queiroz.
Caso concreto da SpaceX
Indo ao caso concreto da SpaceX, João Queiroz refere que no sector espacial cotado em bolsa, é atualmente um exercício de heterogeneidade. “Numa primeira linha estão os fabricantes e operadores de hardware — Rocket Lab, MDA Space, Firefly Aerospace, Intuitive Machines ou BlackSky — onde a dispersão de rentabilidades em 2026 é notável, com retornos no período entre cerca de +12% e +123%”, explica.
“Numa segunda linha encontra‑se a galáxia de operadores de satélite e telecomunicações orbitais — Iridium, Viasat, EchoStar, Globalstar, AST SpaceMobile —, em que coabitam balanços com alavancagem significativa (Debt/Equity superior a 380% no caso da Iridium e a 530% na EchoStar) e múltiplos de mercado muito desiguais”, continua a sublinhar João Queiroz.
“Numa terceira linha surge a oferta indirecta, materializada nos veículos de gestão coletiva patrocinados por casas como a ProcureAM, a Van Eck ou a Tema Global, que permitem ao investidor de retalho aceder ao tema espacial sem se expor à dispersão idiossincrática de cada emitente”, adianta João Queiroz.
Face a isto, João Queiroz refere que existem duas leituras imediatas. “A primeira é a de que o setor espacial cotado, no seu conjunto, já incorporou um prémio considerável: rentabilidades a um ano superiores a 200% em vários nomes, múltiplos EV/EBITDA elevados (81x na Globalstar, 24x na Filtronic) e rendibilidades acumuladas no ano que, em mais de meia dúzia de emitentes, ultrapassam os 100%”, sublinha.
“A segunda leitura, porém, é menos óbvia e mais relevante: o que está cotado é apenas uma fração, e talvez a menor, daquilo que constitui hoje a economia espacial e adjacente. Os principais ativos — em ordem de magnitude, em receita e em capacidade de execução — permanecem com privados. É precisamente este desequilíbrio entre o universo “investível” e o universo económico que confere significado à agenda de admissões à cotação prevista para o segundo semestre de 2026″, acrescenta João Queiroz.

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