Rally de Lisboa: prova competitiva na parte desportiva, mas alvo de duras críticas das equipas à logística e organização
O Rally de Lisboa confirmou-se como uma prova muito competitiva em estrada, marcada pela diversidade de pisos, pelas diferenças de aderência e pelo equilíbrio desportivo, mas deixou um rasto de forte descontentamento entre várias equipas quanto à organização, à logística e às condições oferecidas no terreno. Segundo os interlocutores ouvidos, os aspectos mais negativos da prova carecem de correcção urgente, num conjunto de problemas que, sustentam, afectou o trabalho de pilotos, engenheiros, mecânicos e estruturas de assistência.
As críticas concentram-se sobretudo na localização do parque de assistência, nas deslocações entre diferentes pontos nevrálgicos da prova, nos horários considerados desajustados e na ausência de condições adequadas para equipas, público e convidados. Apesar disso, entre os agentes envolvidos há também o reconhecimento de que, do ponto de vista competitivo, o rali apresentou características distintas e, em alguns momentos, até valorizadas.
Equipas apontam falhas na operação da provaA avaliação mais dura surgiu de Aloísio Monteiro, da The Racing Factory, que não escondeu o desagrado com o evento. “Não posso deixar de expressar o meu desagrado relativamente ao Rally de Lisboa. No que diz respeito à organização, à logística e às condições necessárias para que as equipas consigam colocar carros e pilotos na estrada, a minha avaliação não é apenas negativa, vai além disso”, afirmou.
O responsável considerou que houve “falta de consideração pelas equipas e por todos os elementos que trabalham incansavelmente nos bastidores” e criticou a instalação das equipas “num parque de assistência praticamente sem presença de público”, bem como as dificuldades acrescidas na montagem de pneus e as ligações que classificou como “inaceitáveis” entre parque de assistência, cerimónia de partida, parque fechado e locais de alojamento. Na sua perspectiva, trata-se de matéria que “merece uma reflexão profunda por parte da FPAK”.
Augusto Ramiro, da ARC Sport, disse ter encarado inicialmente a prova com expectativa positiva, precisamente por entender que um rali com esta designação poderia aproximar a modalidade do público. No entanto, sustenta que esse objectivo falhou. “Fui a favor do Rali de Lisboa, porque era um rali que iria ser apelativo para toda a gente, levar o rali onde há gente e etc. Mas o que se constatou foi tudo menos isso”, declarou.
O dirigente admitiu que “houve coisas que foram positivas”, mas considerou sem sentido a escolha do parque de assistência na Encarnação, longe do centro da dinâmica que o nome da prova fazia antecipar. “Um rali do Nacional que se quer chamar Rali de Lisboa não pode ter um parque de assistência na Encarnação”, afirmou, criticando ainda as deslocações entre Lisboa, Mafra e Cascais e a carga horária imposta às equipas. “Isto logisticamente não faz sentido nenhum” e “isto não é respeito por nada, nem por ninguém”, acrescentou, sublinhando que as equipas continuam a defender provas com horários mais racionais e encerramento mais cedo.
Horários, deslocações e desgaste no centro das queixasEntre os testemunhos mais detalhados está o de Ricardo Domingos, da Domingos Sport, que descreveu o impacto físico e operacional da prova sobre as estruturas. O responsável relatou noites de sono de “três, quatro horas”, após dias já exigentes de preparação, e apontou para a obrigatoriedade de estar no parque de assistência logo de madrugada para um shakedown marcado para as 7h30, antes de novas operações que se prolongaram até de madrugada.
Ricardo Domingos alertou ainda para o efeito em cadeia que estes horários poderiam ter tido em caso de incidente mecânico logo no shakedown. Segundo explicou, se algum carro sofresse um contratempo nessa sessão, “não tinha hipótese de arranjar o carro para estar à partida”, uma vez que o tempo disponível até à deslocação para Lisboa seria insuficiente. O dirigente criticou ainda a ida ao Padrão dos Descobrimentos para uma cerimónia que descreveu como pouco significativa em termos de público, entendendo que a operação serviu sobretudo para justificar a designação da prova.
Marina de Cascais e percurso merecem reparosOutra das frentes de contestação incidiu sobre a passagem pela Marina de Cascais. Ricardo Domingos classificou como “um autêntico pesadelo” a retirada dos carros de competição daquele local, descrevendo manobras constantes em espaço exíguo e alertando para o desgaste mecânico, sobretudo em viaturas Rally2. “Desengatei e engatei o carro (…) mais de 200 vezes, é surreal”, referiu, considerando a solução prejudicial para o material.
O mesmo responsável ressalvou, ainda assim, um aspecto positivo: os horários dos troços propriamente ditos agradaram-lhe, com excepção da passagem por Cascais. Ainda no plano desportivo, foi severo com parte do traçado, apontando classificativas de alcatrão polido e troços onde se andava “completamente a fundo”, num contexto que, na sua leitura, ajudou a explicar a quantidade de acidentes verificada. “A Domingos Sport tem feito todos os Ralis de Lisboa e a verdade é que, desde que me lembro, este foi o pior de todos”, afirmou.
Ricardo Domingos voltou a insistir, noutro momento, que o problema mais grave foi “a falta de respeito pelas equipas, engenheiros, mecânicos”, lembrando que sem esses profissionais “também não há rali”. E deixou um aviso sobre a crescente dificuldade em pedir este grau de entrega humana a quem trabalha no desporto motorizado: sem a paixão de quem está no terreno, sustentou, situações deste tipo seriam simplesmente incomportáveis.
Competitividade valorizada, mas insuficiente para apagar críticasA leitura de Manuel Castro, da Racing 4You, foi mais matizada, embora igualmente crítica no essencial. O responsável começou por salientar o lado desportivo da prova, considerando que as estradas especiais, diferentes do padrão habitual do Campeonato de Portugal de Ralis, trouxeram novidade e ajudaram a reforçar a competitividade. Na sua análise, a diversidade de pisos, afinações e níveis de aderência tornou o rali “muito diferente daquilo que tem sido o asfalto” no CPR, o que classificou como algo “de louvar” e “interessante”.
Ainda assim, Manuel Castro não deixou de apontar o que considerou terem sido as piores condições de parque de assistência das várias edições em que a sua estrutura participou. Falou de “um parque de assistência sem condições, deslocado das povoações e da população”, sem público e sem capacidade para receber convidados ou patrocinadores. Na sua opinião, um Rali de Lisboa deveria ter procurado soluções com maior centralidade e densidade populacional, apontando como exemplos Lisboa, Ericeira, Mafra ou Sintra.
O responsável da Racing 4You considerou também insuficiente a promoção da prova, dizendo não ter sentido uma divulgação compatível com um evento do Campeonato de Portugal de Ralis. Ao mesmo tempo, criticou a necessidade de deslocações de cerca de 65 quilómetros para sul e depois de regresso, apenas para cumprir uma partida simbólica em Lisboa, e censurou horários que obrigaram equipas a estar operacionais a partir das 5h30 ou 6h00 da manhã e a sair do parque de assistência já perto da 1h00. Para Manuel Castro, houve “muita hora seguida para fazer menos de 100 km” de competição na sexta-feira.
“Foi excelente no campo desportivo, mas não chega”Apesar de admitir que a meteorologia ajudou e de considerar que, “na parte do campo desportivo”, a prova foi “excelente”, Manuel Castro entende que isso está longe de resolver os problemas estruturais detectados. Na sua leitura, Federação e clubes organizadores “têm que ter cuidado com isto”, até porque se torna cada vez mais difícil explicar a pilotos e profissionais do sector por que razão continuam a repetir-se situações deste tipo.
O dirigente chamou ainda a atenção para a contradição entre o discurso da sustentabilidade e a realidade das deslocações impostas a carros, carrinhas, atrelados, camiões e reboques, sem necessidade evidente. E concluiu que, entre os anos recentes em que a Racing 4You participou com clientes na prova, este terá sido o pior em matéria de condições para equipas, pilotos e convidados. Embora reconheça interesse desportivo e alguma dificuldade eventual da organização em obter autorizações ou alternativas de percurso, resume o balanço com uma fórmula clara: foi “interessante num lado, e pobre no outro”, além de curto em quilometragem.
Reacções convergem na exigência de mudançasApesar de diferenças de tom, os vários testemunhos recolhidos convergem em pontos essenciais: a prova agradou pela competitividade e pela diferença face ao padrão habitual do campeonato, mas falhou, na óptica das equipas, em matérias basilares de operação. Parque de assistência sem centralidade nem condições, deslocações longas e repetidas, horários penalizadores e falta de atenção ao trabalho humano das estruturas surgem como críticas recorrentes.
No conjunto, as declarações deixam uma mensagem comum: o Rally de Lisboa pode ter oferecido um quadro competitivo interessante, mas o modelo adotado levantou dúvidas profundas entre quem trabalha diretamente no terreno. Para os responsáveis ouvidos, a continuidade da prova com ambição nacional e urbana exigirá, em futuras edições, correções concretas e uma maior atenção às necessidades reais das equipas. No artigo seguinte, está já publicada a reação do CPKA, entidade organizadora do Rally de Lisboa, através do seu presidente, Humberto Silva.
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