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“Obamalisk”a torre de 850 milhões de dólares

“Obamalisk”a torre de 850 milhões de dólares

No coração da zona sul de Chicago, entre o verde de Jackson Park e a dureza de um tecido urbano desigual, ergue-se um edifício que para alguns não passa de uma pedra instalada num parque. Estamos falar do futuro Obama Presidential Center. Este não é apenas uma biblioteca, é uma pergunta sobre o que fazer com a memória quando esta deixa de caber em arquivos. A verdade é que este projeto se transformou num dos mais controversos da memória política recente nos Estados Unidos.
O complexo ocupa cerca de 7,81 hectares de terreno público e promete muito mais do que preservar um legado. No centro, já se começa a vislumbrar uma torre de 68,5 metros de altura, – o monumento mais alto de sempre construído em homenagem à autoglorificação presidencial.
Mais do que um edifício, trata-se de um campus cívico e cultural. Um acordo de longo prazo entre a cidade e a fundação Obama trouxe para cima da mesa um dos debates urbanos mais sensíveis da atualidade: até que ponto o espaço público pode — ou deve — ser entregue a grandes projetos institucionais?
O custo ronda os 850 milhões de dólares, segundo o The New York Times (NYT), um valor que faz deste o centro presidencial mais caro da história dos Estados Unidos. A comparação ajuda a perceber a escala: “o Clinton Presidential Center, em Little Rock, custou cerca de 165 milhões de dólares, enquanto o George W. Bush Presidential Center, em Dallas, se situou entre 250 e 327 milhões.”
Há uma recusa clara da ideia de monumento fechado. Em vez de um bloco solene dedicado à memória, o projeto organiza-se em quatro volumes interligados, abertos ao parque e à cidade. A arquitetura, assinada pelo gabinete Tod Williams Billie Tsien Architects, aposta numa linguagem de pedra clara e volumes fragmentados, em diálogo com a paisagem.
O sonho de Obama
A intenção é afastar-se do mausoléu e aproximar-se da vida. O próprio Obama o descreveu ao jornal norte-americano como um espaço pensado para inspirar ação cívica. O programa é vasto: museu com exposições imersivas – a primeira começa com uma secção dedicada à democracia, biblioteca pública, espaços educativos, estúdios de gravação, auditório com 291 lugares e até um campo de basquetebol com dimensões oficiais da NBA.
No exterior, jardins, parques infantis, churraqueiras, mesas de piquenique e uma colina artificial pensada para o inverno reforçam a ideia de um espaço vivido. Há ainda uma cozinha, com uma horta e pomar.
Mas é o edifício principal que mais divide. Com oito pisos e uma presença impossível de ignorar, rapidamente ganhou a alcunha de “Obamalisk”. Uma fusão de “Obama” com “obelisco” e que tem circulado na imprensa norte-americana em tom descritivo e ligeiramente irónico.
Quanto ao desenho, os arquitetos falam de “quatro mãos que se unem em direção ao céu”, uma metáfora de colaboração. Mas a leitura pública raramente acompanha essa intenção de forma linear. No interior, a escala mantém-se: uma instalação de vidro de 25 metros da artista Julie Mehretu e obras de mais de 25 artistas. Segundo a Associated Press, a ambição é criar uma experiência imersiva onde política, arte e memória se cruzam num mesmo espaço — mais sensorial do que cronológico.
A expetativa é atrair entre 625 mil e 760 mil visitantes por ano, funcionando como motor económico para a zona. Contudo, organizações locais alertam para o risco de gentrificação em bairros como Woodlawn e South Shore, onde o aumento das rendas já se faz sentir. A utilização de terrenos públicos de Jackson Park — um espaço desenhado por Frederick Law Olmsted e Calvert Vaux — também tem sido contestada.
Há ainda uma rutura conceptual: como nota a Encyclopaedia Britannica, os arquivos oficiais da presidência de Obama não estarão aqui, permanecendo sob gestão do National Archives. Este centro será outra coisa — mais interpretativo, mais cultural, menos arquivo.
Previsto para abrir a 19 de junho de 2026, o Obama Presidential Center já existe num estado intermédio: entre o imaginado e o construído. Talvez seja isso que o torna tão fascinante. Como escreveu o “The Guardian”, o projeto oscila entre duas leituras: símbolo de esperança e educação cívica ou objeto arquitetónico massivo que impõe uma nova escala ao South Side.
Construído numa zona marcada por profundas desigualdades sociais, onde persistem necessidades básicas como habitação acessível, investimento em escolas públicas e criação de emprego, a escala deste investimento levanta a questão: como pode este projeto, na prática, responder a essas necessidades? Ninguém sabe. Porém, no último andar da torre, no Sky Room, o céu é mesmo o limite. “Uma espécie de metáfora espiritual para a democracia”, diz o NYT.

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