A carregar agora

Renminbi e competitividade chinesa relembram Paradoxo de Kaldor

Renminbi e competitividade chinesa relembram Paradoxo de Kaldor

A valorização recente do renminbi (RMB) está longe de ser um simples detalhe cambial. Desde 2025, a moeda chinesa tem reforçado a sua tendência de alta. Poderá uma moeda fortemente controlada por um governo, neste caso o chinês, tornar-se, num futuro próximo, uma das principais unidades de conta de uma eventual nova reorganização financeira mundial? Pelo menos geograficamente, no sudeste asiático, o RMB vai conquistando o seu espaço, ainda que de forma lenta, mas consistente. Desde janeiro de 2025, o RMB passou de 7,30 yuan por dólar para 6,76 yuan, uma valorização de 8% face à moeda americana. Contra o euro, e ao longo dos últimos 12 meses, passou de 8,45 yuan por euro para 7,85 yuan, uma apreciação de 7,7%.
Apesar das tensões geopolíticas, das tarifas e dos esforços de diversificação das cadeias de abastecimento pelo Ocidente, a ‘máquina exportadora’ chinesa continua extremamente competitiva. Quando empresas de todo o mundo compram produtos chineses, acabam por aumentar a procura de yuans, um suporte ‘natural’ para a moeda. A China lidera de longe as exportações mundiais de bens há vários anos. Em 2025, as suas exportações ultrapassaram os 3,5 biliões de dólares, muito acima dos restantes principais países exportadores, vendendo desde eletrónica, painéis solares, baterias, veículos elétricos, químicos, aos têxteis e bens manufaturados.
A diferença entre a China e os restantes países aumentou após 2020, alicerçada na enorme capacidade industrial, nas cadeias de abastecimento integradas, nos baixos custos de produção, no investimento acentuado em infraestruturas e na crescente especialização em tecnologia e indústria pesada. A China importou 2,6 biliões de dólares em bens durante 2025, o segundo maior importador mundial, atrás apenas dos EUA. Comprou sobretudo chips, petróleo, gás natural, ferro, cobre e produtos agrícolas (soja). Exporta muito mais do que importa, mantendo um considerável excedente comercial, o qual se reflete na força do renminbi. É precisamente esse confronto entre “fábrica do mundo”, a China, e “consumidor do mundo”, os EUA, que está no centro da atual disputa monetária entre o dólar e o renminbi.
A tendência de queda do dólar desde o início de 2025, impulsionada pela expectativa de aceleração do ciclo de descida das taxas de juro nos EUA, reduziu a atratividade relativa dos ativos denominados em dólares. Todavia, nos últimos meses, apesar de as taxas de juro na China manterem uma tendência de baixa e nos EUA de alta, com os juros americanos a aumentarem devido aos receios inflacionistas e às tensões no Médio Oriente, o renminbi continua a valorizar, evidenciando uma força estrutural que vai muito além do simples diferencial de taxas de juro.
Também a reentrada de investidores internacionais em ativos chineses, após vários anos difíceis para o mercado imobiliário e para as bolsas chinesas, reforça a valorização do RMB. Embora continue a existir cautela, os fluxos de capital voltaram a melhorar, impulsionando a procura de yuans. Existe igualmente uma estratégia chinesa de longo prazo e Pequim continua empenhada em aumentar o papel internacional do RMB. O uso da moeda chinesa em acordos comerciais bilaterais tem crescido, sobretudo com países da Ásia, Médio Oriente, África e América Latina. Paralelamente, a expansão do yuan digital e dos sistemas alternativos de pagamentos internacionais procura reduzir a dependência do sistema financeiro dominado pelo dólar.
Contudo, o PBoC não quer uma valorização acentuada da moeda que reduziria a competitividade das exportações chinesas, um dos pilares do crescimento económico do país. O cenário mais plausível continua a ser uma apreciação gradual e gerida pelas autoridades chinesas. À semelhança das moedas da Alemanha e do Japão no pós-Segunda Guerra, a combinação de excedentes comerciais, internacionalização gradual do RMB e enfraquecimento estrutural do dólar poderá prolongar a tendência de valorização da moeda, relembrando o Paradoxo de Kaldor.

Share this content:

Publicar comentário