Fórum de São Petersburgo: Putin tenta provar superioridade da economia russa
A corrida pela soberania global está a ganhar impulso, afirmou o presidente russo Vladimir Putin na sessão plenária do Fórum Económico Internacional de São Petersburgo (SPIEF-2026). E destacou que o nível da dívida soberana da Rússia é de 16,4% do PIB, o que é significativamente menor do que na Zona Euro – num quadro em que, observou, o Ocidente perdeu o interesse nas regras comerciais quando começou a perder essa competição global.
“Não se trata apenas da capacidade de resistir à pressão externa e proteger os interesses nacionais.” A capacidade de um Estado de “garantir a sua própria soberania” é um fator-chave que determina sua posição no sistema económico global e a sua liderança. “Soberania significa ser mais forte e, gostaria de enfatizar, mais inteligente, o que significa gerir os recursos com mais precisão e investir de forma mais eficiente, inclusive no desenvolvimento tecnológico. A verdadeira soberania exige eficiência”, disse Putin, citado pela agência TASS.
É neste quadro que as sanções e o roubo das reservas internacionais da Rússia pelo Ocidente “afetaram irreversivelmente a situação das moedas globais, o dólar e o euro”. Chamando a atenção para o facto de qualquer país poder a qualquer momento perder o acesso aos seus ativos lícitos em dólares e euros, Putin quis dizer que a apropriação é ilícita. Os motivos para a apreensão de bens estrangeiros no Ocidente podem ser variados, desde conflitos a questões LGBT.
Neste contexto, o mundo precisa de uma arquitetura financeira moderna e flexível, livre de proibições e barreiras, que ofereça incentivos ao desenvolvimento soberano: “os seus instrumentos devem reduzir custos, acelerar liquidações, ampliar o acesso ao financiamento e, claro, combater adequadamente a evasão fiscal, a fraude e a lavagem de dinheiro — questões que exigem sempre atenção.”
Para viabilizar este ‘novo’ estado de coisas, a Rússia está aberta a quem estiver interessado em cooperar e pronta para uma parceria em igualdade: “Estamos sempre abertos a quem estiver interessado em trabalhar com o nosso país, prontos para uma cooperação igualitária e mutuamente benéfica.” E não deixou de enfatizar que a pressão sobre a Rússia continua, mas a sua “margem de manobra” aumentou: surgiram novos parceiros, soluções financeiras e abordagens tecnológicas.
As políticas “burocráticas agressivas da Europa são míopes” e “não só levam a uma maior perda da posição da Europa” na economia global, como também prejudicam “a segurança regional e global”. “As elites europeias estão a provocar o caos”, para onde tentam arrastar cada vez mais países: “Esses processos não surgiram por si só; são resultado da maior transformação estrutural que o mundo está a viver em décadas.”
Mas a Rússia aguenta. “O PIB da Rússia cresceu 1,3% em abril e de janeiro a abril aumentou mais 0,2%.” A dívida soberana da Rússia está em 16,4% do PIB, muito abaixo da Zona Euro: “A dívida da Zona Euro em 2025 atingiu 81,7% do PIB. “A Rússia ocupa posições elevadas na adoção de plataformas digitais, marketplaces de comércio eletrónico, soluções financeiras, serviços urbanos, saúde e educação. Elas melhoram a qualidade de vida na Rússia e em dezenas de países onde competem com sucesso com os seus concorrentes estrangeiros.”
E ‘atirou’ mais números: “O défice da UE em 2025 será de 3,1% do PIB. Os maiores défices são em países como Polónia (3,7%), Bélgica (5,2%), França (5,1%) e Estados Unidos (5,9%). Na Rússia, será de 2,6%.” Ao mesmo tempo, enfatizou, o crescimento do investimento é indicador da eficácia das autoridades económicas russas – num quadro em que a inflação continua a diminuir e, segundo as previsões, deverá aproximar-se dos 5,2% este ano. E os salários reais na Rússia aumentaram 30% em cinco anos. “A participação do rublo em nossas transações de exportação hoje é de 65%.” A Rússia lidera em energia nuclear: “mais de 80% dos projetos de construção de complexos nucleares em todo o mundo envolvem a Rosatom”, a empresa estatal.
Ao mesmo tempo, a Rússia está entre os líderes globais no crescimento do comércio eletrónico, com uma margem de 30%.
O modelo de desenvolvimento global promovido pelo Ocidente durante décadas “como universal, supostamente adequado para todos e supostamente neutro” era, na verdade, um sistema concebido para extrair recursos e criar dependência, assinalou. A contribuição do G7 para o crescimento económico global é menor que a do BRICS: “Analisando o crescimento do PIB global nos últimos cinco anos, quase metade do aumento anual, 49%, foi proveniente dos países do BRICS, enquanto o chamado G7 contribuiu com 18%.”
Ao mesmo tempo, o sistema de comércio global “está a deixar de ser centrado no Ocidente”, como demonstra a crescente participação dos BRICS nas exportações: “No ano passado, a nossa união representou quase um quarto das exportações globais, e esse número continua a crescer de forma constante.” “O comércio interno dos BRICS já ultrapassa 1 bilião de dólares por ano.”
Putin adiantou ainda que solicitou ao governo que elabore estratégias nacionais para sistemas autónomos e plataformas digitais, que suportem “taxas de crescimento económico interno sustentáveis a partir do próximo ano”. É preciso garantir uma “transição perfeita” para empresas que passam de pequenas para grandes escalas, com o desenvolvimento de uma estrutura adequada, salientou. E o Ministério dos Transportes foi incumbido de tomar medidas “para aumentar a atratividade da bandeira comercial nacional”.
O presidente russo ousou ainda o fórum para afirmou que não vê sentido em realizar um encontro pessoal com Vladimir Zelensky, seu homólogo ucraniano. Ao ser questionado sobre a recente carta de Zelensky não se dirigiu aos “autores do género epistolar”, preferindo exortar aos soldados russos na linha de frente: “Todo o país se orgulha de vocês e conta com vocês. Continuem o bom trabalho, irmãos!”
O SPIEF-2026 encerrou portas esta tarde, com a Arábia Saudita como país convidado.
Share this content:



Publicar comentário