José Teixeira: “Com a arte chegamos a lugares impossíveis”
O caminho por vezes é o não-caminho. Ou não seguir o caminho e transcender a ideia de ordem, desenhando uma nova rota, seja ela ordenada ou não. Na mente vulcânica de José Teixeira, Presidente do Conselho de Administração do DST Group, em Braga, não há caminho, rota, o que lhe queiram chamar, sem arte, cultura, educação. Soa pomposo? Só aos mais distraídos, aos que não conhecem a força motriz de tudo o que este homem põe em prática. “Há uma necessidade diária de procurar o belo, como o bem e a verdade. É assim desde Homero. A arquitetura e a arte, como as disciplinas das humanidades e da filosofia, têm papeis instrumentais, nos serviços e produtos que as empresas produzem.”
Palavra de engenheiro. Palavra de quem ama a arte e o que ela nos dá. Sem idealismos, mas ciente de que “a arte não é para escavar, é para olhar mais – é para sentir mais”, realça José Teixeira. E para colocarmos ao serviço do bem. “Sempre”, diz ele. Porque a arte faz de nós pessoas melhores. Porque nos solta a criatividade. Porque, com ela, “chegamos a lugares jamais vistos. A lugares impossíveis.”
Subitamente, já estamos a falar no universo DST: mais de 3500 trabalhadores em mais de meia centena de empresas, a operar em diversas áreas de negócio, e uma faturação na ordem dos 700 milhões de euros, números de 2025. E na vontade inabalável de trazer os seus trabalhadores para o conhecimento e para “as virtudes das artes”. Não se pense que José Teixeira vive desfasado do mundo, da realidade que o cerca. Nada disso. Tem perfeita noção da dureza do trabalho na construção. Viveu-o. Sentiu-o nas mãos, no corpo, no cansaço. Por isso se revolta perante a banalização do mal e da ignorância, e espalha livros e obras de arte por todos os espaços de trabalho do grupo que lidera. Porque pode fazê-lo? Sim. Mas, acima de tudo, porque fazê-lo é um “dever social” que ele leva muito a sério. Porquê? “Porque o trabalho da educação cultural é um trabalho sem fim à vista, é um processo. E não é um papel apenas dos estados e das cidades. É um papel da economia”, sublinha, sorrindo.
Vontade de transformar
As práticas de Recursos Humanos do DST Group têm sido reconhecidas entre as melhores no país, ao cruzar benefícios aos trabalhadores com atividades culturais que promovem o pensamento crítico. Desde palestras de filósofos, como o francês Gilles Lipovetsky, a conversas em torno dos filósofos clássicos e não só, às sessões de Leitura Furiosa, às quintas-feiras. Tudo atividades realizadas durante o horário de trabalho, a somar aos livros e bilhetes para espetáculos no Theatro Circo de Braga. Mecenas da Companhia de Teatro de Braga e da Feira do Livro da cidade, o grupo é também responsável pela atribuição do Grande Prémio de Literatura DST – que distinguiu, nos últimos cinco anos, autores como Luísa Costa Gomes, Manuel Alegre, Mário Cláudio, Daniel Jonas e Lídia Jorge – e do Prémio Internacional de Fotografia “Emergentes DST”.
A avaliação dos trabalhadores também se mede em cultura. Aliás, para José Teixeira existe um grande interesse económico em que os seus trabalhadores sejam cultos. Por uma razão muito simples. “Trabalhadores cultos geram mais valor naquilo que fazem”. No lastro desta razão surge outra. Uma empresa que não valorize a aprendizagem não contribui para a sociedade em que está inserida. Diz-nos que acredita na confiança e na comunhão. “Vou todos os dias ao espaço de meditação que temos no campus. Vou lá fazer apenas uma coisa: ‘tens de ser uma boa pessoa’. É o meu lado ecuménico”, explica. “Sou católico, mas não tenho de impor a ninguém o que quer que seja.”
Agora, o seu novo ‘templo’ é o Muzeu – Pensamento e Arte Contemporânea dst. Sim, mas é um ‘templo’ aberto a todos. “Sabe uma coisa que só verbalizei muito recentemente?”, questiona José Teixeira no seu transbordante entusiasmo. “A maior parte destas obras estavam em minha casa. Foi uma alegria brutal trazer todas para aqui! Até me arrepia. Dar é receber e sabe tão bem!”, exclama.
O ‘efeito Bilbau’
José Teixeira fala em Bilbau e no exemplo do ‘antes e depois do Guggenheim’. Não se comparam museus, compara-se o efeito catalisador que aquele equipamento cultural imprimiu na cidade. “Nós desejamos ter e ser um efeito Bilbau”, salienta, referindo-se ao fator transformador que aquele museu trouxe à cidade do País Basco. Perto do Porto e de Guimarães, o Muzeu pretende afirmar-se no panorama cultural nacional e internacional. O objetivo é claro. “A partir da cultura podemos transformar o mundo num lugar mais belo”, diz Teixeira. E isso é um propósito deste museu. Não é arrogância, sublinha, quando fala em “efeito DST”, numa referência ao campus do grupo, que acolhe edifícios de três Pritzkers: Álvaro Siza Vieira, Souto de Moura e Norman Foster. “Tem de haver beleza em tudo, até no chão da fábrica.” O ‘desvio’ pelo campus passa ainda pela Escola Industrial e pela Escola de Pensamento DST. Que agora terá uma extensão no auditório do Muzeu, onde haverá conversas com curadoria de José Pacheco Pereira. E concertos, performances, dança… O programa é anunciado todos os meses no site e redes sociais do Muzeu, o primeiro, na cidade, dedicado à arte contemporânea. Um investimento de 40 milhões de euros, com projeto do arquiteto José Carvalho Araújo, que abriu portas no dia 25 de abril.
No primeiro mês, a exposição inaugural, “Sejamos realistas, exijamos o impossível” – que pode ser vista até outubro de 2027 –, recebeu mais de 16 mil visitantes. Não sabemos se esta tração tem como gatilho a entrada livre à quinta-feira. Para todos os visitantes, sem exceção. Mas sabemos que superou as expectativas iniciais e que há público que regressa.
Uma coleção orgânica
Numa coleção com cerca de 1500 obras de 240 artistas, 68 dos quais estrangeiros, como detalha Helena Mendes Pereira, diretora e curadora do museu, a seleção feita para este primeiro momento – uma centena – foi, antes de mais, eclética, refletindo também o gosto do colecionador, que “só compra o que sente”. É o caso das 18 pinturas de Pedro Cabrita Reis, “um namoro progressivo” de José Teixeira depois de ter vista a obra no ateliê do artista. Álvaro Lapa, Julião Sarmento, Fernanda Fragateiro, Helena Almeida, Lourdes Castro, Miguel Palma, Paula Rego e Rui Chafes são apenas alguns dos artistas portugueses aqui presentes. Artistas internacionais, como Alex Katz, Candida Höfer, Jeff Koons, Julian Opie ou Nan Goldin, entre outros, recebem o público antes de se aceder à sala dedicada ao artista alemão Anselm Kiefer, uma das paixões de José Teixeira. A coleção, garante, continuará a crescer de forma orgânica e transparente. “Vou ter 2,5 milhões de orçamento anual para o museu, entre custos fixos e acervo. Destes, 700, 800 mil euros são para comprar obras.” É um compromisso, assume. E um gesto político
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