MEMÓRIA: As saudades de Cascais e o choque de contrastes no Rali de Portugal em 1995
Já lá vão mais de três décadas. Corria o ano de 1995 e a primavera trazia consigo uma decisão ‘inevitável’ da história do Rali de Portugal. Com vista à redução dos custos, a FIA decretara o fim dos ralis mistos, pondo termo à etapa inicial em asfalto, que ligava o Estoril à Póvoa do Varzim e o carismático líder do Automóvel Club de Portugal, César Torres, teve que revolucionar o figurino da prova rainha, desenhando uma nova solução logística que passava por arrancar o Rali de Portugal da sua envolvência habitual, na requintada zona do Estoril e de Cascais, para transferir o centro nevrálgico para a Figueira da Foz.
Antes da prova de 1995, havia, por isso, uma enorme expectativa no ar para perceber até que ponto os pilotos, navegadores e restantes membros das equipas oficiais de fábrica se sentiriam bem com esta mudança radical de cenário.
E, na verdade, aconteceu exatamente o que os mais céticos temiam. O impacto foi imediato, sobretudo porque a caravana mundialista se viu subitamente obrigada a trocar o charme cosmopolita e o luxo discreto de Cascais por uma realidade profundamente distinta.Cascais jogava noutro campeonato: era a “Riviera Portuguesa”, um enclave de sofisticação natural e quase aristocrática que se sentia nas ruas da vila e no Estoril, onde os hotéis de cinco estrelas, os iates ancorados na marina e os extensos campos de golfe serviam de íman para um turismo internacional de alto rendimento.
Em suma, Cascais representava o verdadeiro glamour internacional. Em sentido inverso, a Figueira da Foz, carinhosamente apelidada de “Rainha das Praias”, oferecia um registo nostálgico, familiar e de matriz essencialmente nacional. Embora assente na mística do seu areal imenso, na herança do Casino e na cultura do surf, o novo quartel-general carecia da envolvência premium, da hotelaria de luxo e do dinamismo internacional que Cascais consolidara ao longo de décadas.Pese toda a inegável boa vontade dos seus responsáveis locais, na comparação com Cascais, a Figueira da Foz deixava muito a desejar em determinados setores estruturais, funcionando como um refúgio tradicional do centro do país, ideal para quem procurava espaço e tranquilidade, mas desprovido do brilho das grandes capitais mundiais.
A palavra de ordem e a revolta das cláusulas contratuaisPor culpa deste choque de realidades, e apesar de os concorrentes terem chegado à Figueira da Foz há poucas horas, a palavra de ordem que ecoava de forma unânime pelo parque de assistência era apenas uma: voltar a Cascais.A insatisfação era de tal ordem que, quando os jornalistas da época recordavam os contornos formais do negócio, referindo que o acordo assinado com a Figueira da Foz era válido por um período de três anos, os rostos do campeonato não vacilavam. Olhando para as amarras burocráticas, um elemento mais perspicaz do pelotão apressava-se a desmontar a validade do documento, disparando em discurso direto: — “Quase todos os contratos têm uma cláusula qualquer através da qual se consegue dar a volta à situação. Esperemos que esse seja um deles…”
A nostalgia do Estoril pairava de tal forma sobre o asfalto que houve mesmo quem, no seio das equipas, sugerisse alterações imediatas e detalhadas ao itinerário para desenhar um regresso rápido ao sul. Um dos intervenientes, demonstrando o nível de sacrifício a que o pelotão estava disposto a submeter-se, afirmava sem rodeios: — “Nenhum de nós se importaria de dormir menos duas ou três horas e partir do Estoril. Fazia-se Coruche em sentido contrário, Abrantes e depois estávamos em Arganil. O resto era fácil de fazer. Estamos dispostos a tudo para voltar ao Estoril e a Cascais…”
O calvário das malas num Rali de Portugal de três diasPara além da evidente perda de estatuto estético e hoteleiro, a reestruturação geográfica da prova trazia consigo críticas severas à própria dureza e falta de lógica da rotina logística imposta às equipas. Um outro piloto chamou ainda a atenção para uma questão puramente prática e desgastante, que afetava o descanso de quem tinha de enfrentar os troços cronometrados. Demonstrando a sua total incompreensão perante o novo formato itinerante, o piloto desabafava em discurso direto: — “O que me parece não fazer muito sentido é que num rali com apenas três dias se durma em três locais diferentes. Não seria preferível fazer tudo com base no Porto ou, no mínimo, na Póvoa, sem estarmos a andar de um lado para o outro com as malas?”
Aqueles momentos iniciais na Figueira da Foz ficariam registados nas páginas da história como as primeiras e atribuladas impressões de um pelotão que sentia uma enorme falta do ambiente do Estoril. No fecho daquela jornada que antecedia a partida, ficava a grande interrogação jornalística no ar: será que o descontentamento geral mudaria com o desenrolar dos próximos dias e com a adrenalina dos troços, ou teriam as saudades de Cascais vindo para ficar?
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