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A eternidade não tem tempo e a eternidade infantil ainda menos

A eternidade não tem tempo e a eternidade infantil ainda menos

Sem o esperar dei comigo a ser premiado por um texto que escrevi para afirmar que a eternidade infantil é uma outra forma de dizer liberdade.
Um “jovem velho”, como procuro ser, escreve para fazer de todos os que o leem uma espécie de gatos ouvintes à espera que uma das palavras, arrumadas como filas de peças de dominó, se desequilibre para que possam, como felinos distraidamente atentos, saltar sobre elas e descobrir a porta da parede intransponível que é o refrigério do deserto em que as nossas almas, se perderem a eternidade infantil, se podem tornar.
Gatos leitores, gatos ouvintes, a maioria a deixar-se colorir com um eventual pitoresco que se lê e ouve, de olhos fechados, entre sorrisos que afirmam coincidências e confidências.
Escrevo, atrevo-me a generalizar: escrevemos para homenagear as crianças que fomos e que não queriam saber da vida mais do que o prazer de cada instante, para vencer qualquer outono e a saber que fruir o tempo é cada vez mais o espaço de viver a eternidade infantil.
Deixem que vos fale dos Três Castelos. Escrevi-os na esperança de encontrar as peças do puzzle da eternidade infantil as quais não sabia onde se escondiam, e a desejar poder reconstruir, numa qualquer esquina, o caudal inesgotável da alegria de quem, mesmo sem nunca lhe saber o lugar, deseja a utopia, sempre a brincar com o tempo e não lutar contra ele.
Brincar e ler ou o contrário. Isso também pertence à eternidade infantil: a criança contra a máquina; as mãos contra os interruptores; a música da vida; a arte de construir novas durações nas quais, nos limites da melodia, se desprezam os segundos; descobrir que o passado pode estar aqui, sem ser lembrado, e o futuro ali, sem ser previsto, no momento oportuno, no acontecimento inesperado, no encontro determinado pelo acaso.
E depois… ser criança. Apenas ser criança: aceitar o novo e desejar tudo; aprender a existir, a ser amado, a pertencer a todos os lugares; acreditar que há futuro; ser aventura, desafio; perdoar antes ainda de acabar a briga; gostar de quem fala com os olhos, sem gritar; ser artista, conquistado e conquistador; ser feliz com pouco; ser inventor, poeta e escritor antes das palavras; ser impaciente e apressado sem ligar ao tempo; ser giganteira e miniatura conforme apetece e conseguir ser do tamanho de um brinquedo; adorar olhar as nuvens de barriga para o ar e inventar o faz-de-conta; gostar de fantasias e acreditar nelas; não ter medo dos amigos imaginários; gostar do aconchego de um colo; desafinar na melhor das afinações; colar o nariz nas janelas e desenhar nuvens para o céu azul; pedir e oferecer com os olhos; saber como embrulhar os desapontamentos e abrir as caixinhas das surpresas; nada saber e poder tudo; gostar do perfume quente da mão dos avós e amar o perfume fresco das mãos dos netos.
Sem o esperar dei comigo a ser premiado pelo Pingo Doce, por um texto que escrevi para afirmar que a eternidade infantil é uma outra forma de dizer liberdade.
Bem haja a quem me leu, a quem nos lê para preservar, pela literatura, a eternidade infantil.

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