Novo projeto cultural vai levar ópera a todo o país
Mendelssohn, compositor, pianista e maestro alemão, não hesitou em afirmar que “a grande música exprime a voz interior do espírito humano, uma realidade simultaneamente próxima e distante. Com três acordes posso fazer-vos sentir muito mais do que com trezentas palavras. É uma chave para penetrar no interior do ser humano e conhecer melhor o seu mistério.”
Desconhecemos se Mendelssohn foi chamado à colação aquando da assinatura do protocolo de mecenato entre o OPART e o Novobanco, que serve de base ao projeto de dimensão nacional Eu na Ópera, do Teatro Nacional de São Carlos (TNSC). Mas sabemos que este é um programa que vai percorrer, em três anos, nove cidades do país, nas regiões Norte, Centro, Oeste e Alentejo. Com uma missão muito clara, como sublinham as entidades envolvidas: “democratizar o acesso à ópera, derrubar barreiras geográficas e sociais, ativar fortemente a participação local e afirmar a cultura como um direito de todos.”
Como frisa Paulo Tomé, diretor de Comunicação e do Programa Novobanco Cultura, “o aspeto inovador desta iniciativa é um mecenas conseguir criar as condições para que os músicos do São Carlos consigam manter-se ativos e numa dimensão territorial, levando obras de música erudita a salas onde é menos frequente ela ser apresentada.”
O Teatro Nacional de São Carlos encerrou para obras de modernização e requalificação em julho de 2024 e, desde então, tem ampliado a sua presença em todo o território, designadamente através de masterclasses e captação de talentos – a formação é outro pilar importante da vocação nacional do TNSC, que tem sido intensificado neste período.
“Nem só de festivais vivem as marcas na forma como se aproximam e relacionam, através da música, com os diversos públicos”, diz Paulo Tomé ao JE. “Eu na Ópera é um projeto de enorme impacto na área da Cultura, de dimensão nacional e regional, completamente alinhado com o propósito do Novobanco, potenciando projetos que geram valor real nas comunidades e promovem a inclusão e a democratização artística”, conclui.
Quebrar preconceitos
É sabido que uma ópera é um espetáculo complexo. Envolve centenas de pessoas, desde cantores e músicos a técnicos de som e iluminação, para citar apenas alguns dos intervenientes. No palco e nos bastidores, claro. “Estamos sempre a falar de 150, 170 pessoas”, explica ao JE Conceição Amaral, presidente do Opart. Com esta nova parceria, serão criados núcleos mais pequenos para, “ao longo dos próximos três anos, o processo criativo, os bastidores e as histórias das pessoas que moldam este projeto em cada cidade serem partilhados numa lógica contínua, aproximando de forma inédita os artistas e os cidadãos”, afirma Conceição Amaral, acrescentando que se pretende que “cada espetáculo seja um espaço de inclusão, onde a identidade cultural de cada região se cruza com a tradição operática.”
Estruturado em três fases, o programa arranca em 2026 com a circulação de uma obra contemporânea. Em 2027, será dedicado à recuperação de património lírico, e, em 2028, apresentará uma nova produção inspirada no Cante Alentejano, Património Cultural Imaterial da Humanidade. Mas não só. Um dos grandes objetivos deste projeto é, também, a captação de novos públicos para quebrar o preconceito de que a ópera é “uma expressão artística elitista”, diz a responsável.
As escolas de música, as bandas filarmónicas, estarão envolvidas neste projeto que visa cumprir a missão de serviço público e de promoção da coesão territorial do TNSC. “Diz-se que não há público fora de Lisboa e Porto” para o canto lírico, declara Conceição Amaral. “Isso é um erro. Há uma enorme apetência e interesse. E com o mecenato do Novobanco poderemos chegar a muita gente e recuperar património musical das várias regiões envolvidas.”
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