Irão: Costa Silva avisa que acordo é frágil e lamenta que Europa seja reativa em vez de protagonista
O ex-ministro da Economia português António Costa Silva considerou hoje, em Luanda, que o acordo EUA-Irão é “frágil”, estando por negociar questões cruciais, alertando para a “errática” liderança americana e iraniana e criticando o papel passivo da Europa.
Costa Silva falava hoje à Lusa, em Luanda, à margem da apresentação do estudo “Banca em Análise”, da Deloitte, numa altura em que Washington e Teerão assinaram um memorando de entendimento que estabelece o cessar-fogo, a reabertura do Estreito de Ormuz e prevê negociações sobre um acordo final nos próximos 60 dias.
“É evidente que o acordo é sempre um alívio, mas o acordo não é mais do que um memorando de entendimento — as questões cruciais têm de ser negociadas nos próximos 60 dias”, sublinhou o académico, acrescentando que “o foco do acordo, como o Presidente americano tem explicado, é a reabertura do Estreito de Ormuz”.
Para o ex-governante, este é precisamente o ponto mais frágil do entendimento, lembrando que o Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de um quinto do petróleo consumido no mundo, estava aberto no dia em que os Estados Unidos e Israel desencadearam o ataque ao Irão.
“Nós regressamos a uma espécie de ponto zero, o que põe em causa porque é que esta guerra foi feita e quais foram os seus objetivos”, questionou, apontando a “situação terrível para a economia mundial” induzida pelo conflito.
O memorando de entendimento assinado prevê que o Irão tome medidas para garantir a retoma da circulação de navios mercantes no estreito no prazo de 30 dias, mas a reposição da normalidade não deverá ser imediata, devido à danificação de infraestruturas energéticas durante a guerra.
O autor da Visão Estratégica para o Plano de Recuperação Económica de Portugal 2020-2030 — que serviu de base ao Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) português — apontou ainda uma contradição no resultado do conflito.
“No fundo, a guerra era para prevenir que o Irão tivesse uma arma de destruição maciça e acaba por conferir ao Irão outra arma de destruição maciça”, afirmou, referindo-se ao poder de estrangulamento do Estreito de Ormuz — uma capacidade que Teerão nunca tinha utilizado até ao início do conflito, mas que a guerra demonstrou que pode ser “muito letal para a economia mundial”.
Costa Silva alertou ainda para a fratura crescente no Médio Oriente, com os Emirados Árabes Unidos e a Arábia Saudita em posições divergentes, e para o receio generalizado de que o Irão volte a recorrer ao bloqueio do estreito.
“Temos duas lideranças erráticas — a americana e a iraniana, que é cada vez mais radical, com lutas dentro do regime — e tudo isto parece muito frágil”, vincou, admitindo que os mercados vão “respirar de alívio” no imediato, mas que a situação exige monitorização permanente.
O ex-ministro dirigiu críticas igualmente à Europa, cuja liderança é também “infelizmente muito errática” e “no modo reativo”.
“A Europa reage aos acontecimentos, nunca é protagonista, está sempre à espera que os Estados Unidos se movam, e eu acho que isso é um erro estratégico”, defendeu, num momento em que a luta entre as grandes potências mundiais torna crucial que a União Europeia estabeleça alianças com várias partes do mundo.
“Quanto mais alianças existirem com a União Europeia, menos probabilidade há destas aventuras militaristas terem lugar”, argumentou.
Na sua leitura, a diplomacia norte-americana “praticamente não existe” — a equipa de negociação norte-americana, disse, é composta por “promotores imobiliários com pouca perceção das questões geopolíticas” —, razão pela qual estes acordos são “sempre muito frágeis”.
Apelou, por isso, a que a União Europeia, detentora de “uma máquina diplomática forte”, seja “muito mais proativa e menos reativa nos assuntos internacionais”.
Na sua intervenção, o professor do Instituto Superior Técnico criticou ainda a “política predatória das grandes potências mundiais”, lamentando que o mundo esteja a regressar ao imperialismo do século XIX e apontou o recuo do comércio internacional como um dos aspetos mais negativos desse retrocesso.
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