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E Cuba?

A crise cubana não é apenas um problema político, é uma emergência humanitária silenciosa, apesar de as consequências serem devastadoras e até fatais. A ilha caribenha atravessa o pior colapso económico desde os anos 90, o que é elucidativo tendo em conta que Cuba vive em crise permanente. Alguns números confirmam o colapso. O PIB caiu cerca de 11% em 2020 e a recuperação que se seguiu não foi bem uma recuperação, foi uma ligeira melhoria anémica, quase inexistente, seguramente insuficiente para compensar uma economia há muito depauperada.
Em 2023, a inflação disparou para os 30% corroendo salários já residuais num país onde o rendimento médio mensal dificilmente ultrapassa os 30 a 40 dólares ao câmbio informal. Os sinais de falência do Estado são visíveis: cortes de eletricidade – até 12 horas diárias de apagão –, escassez crónica de medicamentos essenciais e um sistema de distribuição alimentar incapaz de garantir mínimos de subsistência. Segundo estimativas independentes, mais de meio milhão de cubanos imigraram desde 2022 – um êxodo sem precedentes numa população de onze milhões. Na realidade, não há grande alternativa: os cubanos ou fogem ou morrem à fome. Descrita a calamidade, se reduzirmos esta crise à falência interna do regime seria optarmos por uma leitura incompleta e muito conveniente para tentarmos justificar a inaceitável inação externa.
O embargo norte-americano, em vigor há mais de seis décadas, asfixia a economia cubana, só que agora o garrote ficou ainda mais apertado e, de certa forma, até desumano. A legislação Helms-Burton – que penaliza empresas e bancos de países terceiros, dificultando o acesso ao crédito, ao investimento e até ao fornecimento de bens essenciais – é um obstáculo quase intransponível. O resultado é um bloqueio financeiro que vai muito – muitíssimo mesmo – além de uma simples sanção bilateral que até se poderia justificar para que o anacronismo cubano, que tanto mal causa, acabasse para todo o sempre.
No entanto, entre 2019 e 2021, a administração Trump apertou violentamente o garrote ao incluir Cuba na lista de estados patrocinadores do terrorismo – uma classificação que limita severamente as transações internacionais. O impacto é multo concreto: instituições financeiras evitam qualquer exposição ao país, fornecedores exigem pré-pagamento e cadeias logísticas tornam-se erráticas ou inviáveis. Grupos hoteleiros pura e simplesmente desertaram.
Nada disto iliba o lamentável regime cubano. A centralização económica, a repressão política e a incapacidade crónica para mudar de vida, isto é, de regime, são escolhas cegas e indefensáveis. O regime cubano não tem desculpa: monopoliza setores estratégicos, reprime a iniciativa privada e converte qualquer tipo de protesto num ato de dissidência castigado sem qualquer vestígio de respeito pela lei. O arbítrio é grotesco. Ainda assim, o que vemos é um impasse prolongado, em que a pressão externa não produziu qualquer espécie de transição política – só agravou mais ainda as condições de vida. E é aqui que a comunidade internacional falha de forma chocante.
A União Europeia mantém a habitual ambiguidade, presa entre o diálogo político e a falta de instrumentos eficazes. Organizações multilaterais denunciam a situação, mas sem consequências práticas. Quanto à cobertura noticiosa, Cuba desapareceu do radar, substituída por crises mais estratégicas. O resultado é de partir o coração: um país encurralado entre um regime incompetente e incapaz e uma política externa punitiva que falha nos seus objetivos declarados. Persistir neste modelo não é apenas ineficaz – é contraproducente. A história recente demonstra que o isolamento raramente gera abertura política; pelo contrário, tende a reforçar estruturas ainda mais autoritárias. O mundo continua a andar para trás.

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