Brasil quer criar “cluster conjunto” da economia azul com Portugal
Leandro Almeida, fundador do fundo Jataí Blue, anunciou no Oeiras Bluetech Ocean Forum 2026 organizado pelo Fórum Oceano, no IPMA, em Algés, a intenção de desenvolver um “cluster conjunto” entre Portugal e o Brasil, recusando a lógica tradicional de expansão unilateral. A proposta passa antes por criar um fluxo bidirecional de conhecimento, capital e inovação, numa tentativa de ultrapassar um dos maiores entraves do setor: a dificuldade em transformar investigação científica em negócio sustentável.
O fundo, recentemente lançado, posiciona-se como o primeiro veículo brasileiro de capital privado focado exclusivamente na economia azul. Com uma primeira ronda de captação de 60 milhões de euros já concluída, encontra-se agora em roadshow para atingir um total de 260 milhões. Trata-se de uma dimensão relevante, sobretudo num setor onde o financiamento tem sido dominado por incentivos públicos e instituições multilaterais.
A estratégia distingue-se precisamente por esse carácter privado e orientado para o lucro. Ao contrário de muitos projetos apoiados por fundos públicos — frequentemente focados na investigação e desenvolvimento — o Jataí Blue aposta na viabilidade económica desde o início. “Não é uma possibilidade, é uma premissa”, sublinha Almeida, apontando a comercialização como o verdadeiro desafio da economia azul.
O fundo investe transversalmente em áreas como biotecnologia marinha, aquacultura, produção de algas, inovação alimentar baseada em recursos marinhos, reflorestação oceânica, hidrogénio e robótica. A lógica é abrangente e sem restrições setoriais, desde que os projetos estejam inseridos no universo da economia azul.
O modelo de investimento segue a lógica do capital de risco: seleção rigorosa de projetos, financiamento e posterior cogestão. “A expetativa de retorno ronda os 20% ao ano, refletindo tanto o risco como o potencial de crescimento num mercado ainda emergente como é o caso do Brasil”, explica.
Um dos conceitos centrais defendidos por Almeida é o de “internalização do capital”. Na prática, procura evitar que o financiamento seja um elemento externo ao modelo de negócio — o que, segundo explica, frequentemente conduz à negligência da sustentabilidade económica dos projetos. Ao integrar o capital na própria cadeia produtiva, o fundo pretende garantir que a rentabilidade e a longevidade são parte integrante da operação.
Apesar de, para já, os investimentos estarem concentrados no Brasil, a abertura a Portugal é clara. “A ambição passa por construir um cluster verdadeiramente partilhado, onde não haja uma simples exportação de modelos ou empresas, mas sim uma integração efetiva entre os dois ecossistemas”, ambiciona.
A iniciativa surge num momento em que a economia azul ganha relevância estratégica, mas continua a enfrentar dificuldades na passagem do laboratório para o mercado. A proposta brasileira pode, assim, representar um teste relevante à capacidade de transformar inovação científica em valor económico sustentável — em ambos os lados do Atlântico.
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