A carregar agora

Paulo Pereira da Silva: “Se um CEO apresentar agora um plano para os próximos 20 anos é despedido”

Paulo Pereira da Silva: “Se um CEO apresentar agora um plano para os próximos 20 anos é despedido”

De um momento para o outro a portuguesa Renova tornou-se viral nas redes sociais, em especial no mercado asiático. O lançamento de uma linha colecionável de Pokémons desenhados nas embalagens e folhas de rolos papel higiénico na Coreia do Sul fez disparar partilhas e posts no Instagram. E não só. Este “Almoço com” Paulo Pereira da Silva, o físico que há 31 anos preside à Renova, começou mesmo por essa espécie de fenómeno dos tempos modernos, que colocou a empresa de Torres Novas no topo das tendências nas redes sociais – e com repercussão na comunicação social – a espécie de maná de sucesso da atualidade. “Até foram publicadas notícias sobre a empresa ‘japonesa’ Renova”, comenta divertido. Mais sério, e enquanto nos sentamos numa mesa com vista para o Tejo no interior do Maat Café, em Lisboa, conta que não estava à espera do impacto, “correu muito bem, coincidiu com o aniversário dos pokémons e criou-se uma onda gigante em redor dos produtos”.
Conduzo a conversa para o início do seu percurso na Renova, que coincide com uma maior internacionalização da empresa, potenciada pela invenção do papel higiénico preto, que a marca apelidou de “o mais sexy do planeta”. Antes de recordar esse episódio, conta que o seu percurso começou na direção fabril da empresa, e ainda antes de ser presidente, ocupou-se da área comercial e de marketing. “Foi um desafio que gostei muito. Dá-me prazer trabalhar algo que toque na emoção das pessoas e que contrasta com a minha formação académica em física teórica e matemática. Aí percebi que preciso das duas áreas”. O gosto pelas ciências foi influenciado pela mãe, “sobretudo despertaram-me uma enorme curiosidade na forma como o mundo funciona. Aliás, há quem diga que os físicos, no fundo, procuram o absoluto e querem descobrir algo que explique tudo”.
Para estudar Física, Paulo Pereira da Silva deixou Abrantes, onde viveu até aos 17 anos, e foi estudar para a Suíça.
“Eu era um nerd, sempre a estudar, sempre com os livros debaixo do braço, com excelentes notas. Mas o primeiro ano na Suíça foi muito duro”. Por esta altura, a conversa é interrompida pelo empregado de mesa que insiste que façamos a escolha no menu pousado há vários minutos na mesa. Paulo confessa que muitas vezes começa os almoços ao contrário, pela sobremesa. Desta vez preferiu seguir a ordem “normal”. Rapidamente chegámos a acordo para partilhar uma entrada de burrata com tomate e manjericão, seguidos de uma salada Caeser e de um poke de salmão, como pratos principais, acompanhadas de um copo de vinho branco para o entrevistado.
Teoremas e infinitos
Pratos pedidos, regressamos à Suíça. “Foi muito difícil, muito exigente, com muito trabalho e um ambiente pesado. Eu tinha sido um bom aluno em Portugal, estudava muito e tudo me parecia fácil, e ali deixou de o ser. Foi dos momentos mais difíceis que passei, marcou-me muito”. Todavia, diz que a experiência o ajudou a ganhar resiliência e capacidade de adaptação, e a ter uma grande dose de humildade. Os anos seguintes na universidade, cinco no total, foram mais fáceis, apesar da intensidade das aulas e dos estudos.
Várias décadas depois, essa passagem ainda influencia o seu dia a dia. “Sou muito pontual, lido mal com a ansiedade de chegar atrasado”. Acrescenta que o ser organizado e gostar de observar os outros surgiram também nessa altura. “Isto apesar de ter passado muito tempo fechado num gabinete na universidade em redor de teoremas de matemática e a lidar com infinitos, que é algo muito engraçado”. Quando terminou o curso tinha planos para rumar aos Estados Unidos e continuar ligado ao mundo académico, só que surgiu um problema em Portugal: o serviço militar obrigatório.
“Já não tinha hipótese de pedir mais adiamentos e, naquela altura, tive de esperar uns tempos para passar à reserva territorial e não ser considerado desertor se fosse para os Estados Unidos”, conta. É nesse hiato na resolução da situação militar que recebe, e aceita, um convite para trabalhar na Renova.
“Achei que era altura de deixar a teoria por uns tempos. Aliás, recordo um professor que me dizia que os físicos deveriam ter um visto para entrar no mundo real”, conta a sorrir.
Faz agora 42 anos – Paulo tem 64 – que entrou para a empresa. Ao longo dos últimos anos e fora dos gabinetes da física teórica, descobriu o gosto de trabalhar com pessoas. E com isso o gosto pelo coaching.
“Quando acompanho, oiço e dou conselhos sinto que passo a fazer parte de algo, o que nunca me tinha acontecido, nem nos tempos em que era o nerd que estudava em Abrantes. Também fora da Renova, faz questão de acompanhar estudantes nas universitários. “Há alunos muito inteligentes e com tanto talento que, a certa altura, estão muito dispersos nas suas escolhas e gosto de os ajudar”. Já com os pratos à nossa frente, pergunto se tem uma ideia para contrariar a saída de talentos do país. Faz uma pausa. Justifica-a dizendo que não tem uma resposta rápida, mas que não vê mal nenhum na saída de talento para outros países, “é positivo que tenham experiências noutros locais, o problema é não terem condições para voltar. Isso sim é um problema, mas é algo que não acontece apenas em Portugal. Em França, por exemplo, passa-se o mesmo”.
Paulo Pereira da Silva diz-se otimista e indica que aos poucos começam a existir algumas mudanças que o fazem acredita ainda mais na geração mais nova. “Antes formávamos pessoas ótimas que iam trabalhar para consultoras para ganhar muito dinheiro, mas não se ensinava o risco e não víamos pessoas a criarem startups. Hoje isso mudou. Aliás, fico admirado quando falo com essas pessoas corajosas que criam startups e têm sucesso fora do país.”
A favor de uma Europa federal

Com o decorrer da conversa, a Europa vem à baila. Paulo Pereira da Silva, que é culturalmente francófono, aproveita para afirmar-se como um europeísta convicto, “quando estou em França ou Espanha sinto-me em casa e apetece-me ter opinião política”, diz. “Gostava que existisse uma federação europeia, com um governo e um Presidente eleito por sufrágio.” Olha cada vez mais com agrado para uma Europa mais de regiões e menos de nações. “Infelizmente não vejo o mundo a caminhar por aí”.
Continua o seu raciocínio assumindo preocupação pela atualidade geopolítica com a administração Trump e a guerra no Médio Oriente. “Nesta região do globo vivemos umas dezenas de anos em paz, a minha geração teve muita sorte de ter vivido esses tempos, mas achou-se que esse era o fim da história e que seria assim para sempre. Mas as coisas são muito mais frágeis do que parecem”, afirma. Mesmo assim, recusa-se a entrar no discurso derrotista. “Às vezes, há que olhar para o passado para percebermos que nem tudo está péssimo. Se pensarmos como a I Guerra Mundial começou por uma coisa tola ou como o século XIX em Portugal foi um desastre… Aliás, eu vivi na província e havia pobreza. O mundo antes não era idílico, se calhar foi sempre assim, a diferença é que agora existe uma capacidade bélica diferente”.
Confessa que mais do que as guerras preocupa-o a velocidade a que se vive atualmente, sobretudo desde o surgimento da Inteligência Artificial. “Como gestor de uma empresa preocupa-me a aceleração a que estamos a assistir e se estou a fazer tudo para que a empresa continue a desenvolver-se. Estamos num ponto singular de aceleração e está a acontecer uma mudança enorme. Acho que se algum CEO apresentar agora um plano para os próximos 20 anos é despedido”, diz a sorrir.
Pessoalmente, diz-se mais fascinado com as mudanças a que assistimos, a começar pela sua vida. “Quando vou no carro de Lisboa para Torres Novas vou a fazer perguntas à IA sobre política e história. E vou obtendo fontes. Não uso a IA para me responder a perguntas, mas para me dar uma estrutura. Só tenho pena da minha idade, porque tudo isto vai mudar muito mais no futuro com coisas boas e coisas más, depende do uso que se der.”
A ciência e Deus

Católico assumido,com livros escritos sobre religião, pergunto como gere o homem científico e o crente. “No fundo, os físicos querem descobrir o absoluto. Se calhar é parecido com um eremita que vai para o deserto à procura de Deus dentro de si. Eu não sinto nenhuma incompatibildade entre uma coisa e outra. Nem sequer consigo ver isso. Ser católico é algo muito normal para mim. É Jesus Cristo, que é Deus e é homem, e que nos trouxe coisas que me trazem paz e que me guiam na minha vida no dia a dia, fazendo todo o tipo de disparates, mas é algo que me traz o absoluto, verdade e vida”. Insisto no tema e questiono se o dogma religioso não é contraditório à ciência.
“Nunca senti isso. Há gente a escrever muito segura de muitos dogmas e que, se calhar, não têm nada a ver com aquilo em que acredito, embora possa parecer que sim. Não vejo o Evangelho como uma constituição ou um código de conduta. Era mais fácil se assim fosse, mas vejo-o mais como algo ligado à consciência e conduta de cada um.” E acrescenta. “Gosto muito de Wittgenstein e de Pascal, mas, sobretudo, gosto muito de poucas palavras. Podia estar aqui várias horas a falar sobre este assunto, mas, resumindo, nunca vi nenhuma contradição nestes dois campos”.
Já no final do almoço, recordamos a história de como surgiu o papel higiénico colorido. Foi em 2005, quando Paulo Pereira da Silva assistia a um espetáculo do Cirque du Soleil, em Las Vegas. A dado momento, bailarinos enrolavam-se em tecidos negros. Daí até à criação do papel higiénico preto foram várias dores de cabeça a nível de produção e engenharia, diz, mas não demorou a tornar-se num sucesso de vendas em vários países do mundo. Deu até origem a várias ações de marketing, como uma loja pop up perto de uma das entradas do Museu do Louvre.
Mesmo no final, pergunto se depois desse sucesso anda atrás da ‘próxima grande ideia’ para a Renova. Paulo Pereira da Silva primeiro sorri, depois responde tranquilamente que o melhor trabalho que fez na Renova nos últimos dez anos foi “desestruturar a empresa”. “Somos líderes em Portugal, mas quando saímos do país somos uma startup.” Há metas nessa internacionalização? “Tenho a ambição que a Renova seja a marca mais amada, mesmo que não seja a mais comprada. Se o conseguirmos, os negócios virão a seguir. Mas ainda estamos muito longe disso.”

Share this content:

Publicar comentário