Aos 80, a Vespa não perdeu o estilo e está aí para as curvas
Explosões, destruição. Estamos em 1945. A fábrica de Enrico Piaggio, em Pontedera, foi bombardeada e está em ruínas, condenando os doze mil operários que ali trabalhavam ao desemprego e à miséria. Piaggio sente a enorme responsabilidade que recai sobre os seus ombros. A vida de muitas famílias depende de sua capacidade de criar novos empregos. Num dos momentos mais dramáticos da história de Itália, a intuição deste empresário diz-lhe que o país precisa urgentemente de um meio de transporte pequeno, robusto, ágil e económico, capaz de relançar a mobilidade e de impulsionar a recuperação da economia.
Com a aproximação do fim da guerra, Enrico estudou todas as soluções possíveis para relançar a produção nas suas fábricas, começando pela de Biella, onde foi criada uma scooter amplamente utilizada durante a guerra, usando modelos articulados que podiam ser lançados em paraquedas. No entanto, o seu verdadeiro objetivo era criar um produto de baixo custo para as massas. Para tornar essa ideia realidade, Enrico Piaggio recorre ao engenheiro Corradino d´Ascanio e à sua experiência no campo da aeronáutica. A sua missão? Criar a scooter que ainda hoje é símbolo da criatividade e do design italiano: a Vespa.
Piaggio podia ter ficado por aí. Mas rapidamente percebeu que a Vespa – o nome surge da exclamação do próprio quando viu o protótipo (MP6), “parece uma vespa!” – tinha de ser mais do que um meio de transporte, um objeto útil. Tinha, acima de tudo, de tornar-se um objeto de desejo. E assim nasceu a Vespa. A 23 de abril de 1946, em Pontedera, na região da Toscana. O que começou por ser uma solução simples para devolver mobilidade a Itália e à Europa do pós-guerra, tornou-se muito mais do que isso. Mas já lá vamos.
A sua história é, também, um marco do design e da inovação relativamente às scooters anteriores. Tudo porque Ascanio, o designer aeronáutico, não era fã de motos. Dizia que eram veículos sujos, desconfortáveis e volumosos, com pneus demasiado difíceis de mudar em caso de furos. A Vespa teria de ser o oposto. E assim foi. Numa altura em que o automóvel permanecia inacessível para muitos, a Vespa tornou-se rapidamente num fenómeno social, sinónimo de mobilidade e independência. Teve também um papel importante na emancipação feminina, oferecendo uma solução prática e elegante numa época em que o universo das duas rodas motorizadas era, essencialmente, masculino.
Romance com a 7ª Arte
Lá está, as estórias fazem parte da história deste ícone global ‘Made in Italy’. Como aquela que levou a Vespa ao grande ecrã. Não se sabem os contornos exatos, mas sabe-se que Piaggio terá conseguido que o cineasta norte-americano William Wyler, então em Itália a rodar o filme “Férias em Roma”, com Audrey Hepburn e Gregory Peck, pusesse o casal de atores a percorrer Roma numa Vespa. As famosas sequências filmadas na Cidade Eterna foram apenas as primeiras de uma longa relação amorosa desta scooter com a 7ª Arte. Outro incontornável é “La Dolce Vita”, de Fellini, novamente em Roma e com os magistrais Marcello Mastroianni e Anita Ekberg. Nome de filme e dos anos em que a Vespa foi um símbolo económico e social antes de tornar-se um mito cultural que rima com liberdade. Ao ponto de os relatos de correspondentes estrangeiros descreverem Itália como “o país das Vespas”. Nanni Moretti, no seu “Querido Diário”, mostrou, mais uma vez, ao mundo que mais do que um objeto de desejo, a Vespa é uma personagem cinematográfica por direito próprio.
Dois mil filmes e séries de televisão transformaram a Vespa num símbolo universal de liberdade, elegância e estilo italiano. Aos 80 anos não é apenas parte da história. É, também, o exemplo de uma realidade industrial viva e em expansão. Em oito décadas, cerca de vinte milhões de unidades foram produzidas e distribuídas em cinco continentes. Agora, a Piaggio decide regressar às origens lançando a 80.ª série especial da Vespa, disponível nos modelos Primavera e GTS, que chegou ao mercado com a precisão de um importante aniversário: 23 de abril de 2026. Lançada para a ocasião, recupera o famoso Verde Pastel das primeiras Vespas de 1946, um tom que se tornou icónico e que agora é revivido como tributo às raízes da marca, que apesar das tendências e interpretações – como as de Salvador Dalí, Giorgio Armani, Sean Wotherspoon, Christian Dior ou Justin Bieber, entre outros –, nunca perdeu a sua identidade.
A Vespa atravessou gerações e celebra 80 anos de história com os modelos especiais Primavera e GTS, e uma grande festa em Roma, entre exposições e concertos. Mas o momento mais ansiado é sábado, 27 de junho. São esperados muitos milhares devespisti, oriundos de 60 países, para um desfile no coração da Cidade Eterna. Aos 80, a Vespa continua a fazer história. E está aí para ‘as curvas’.
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