Nicolas Namias conta com o Novobanco para o Groupe BPCE passar de gigante francês a campeão europeu
Num encontro com jornalistas realizado no recém-inaugurado complexo de torres que serve como sede global do Groupe BPCE em Paris, o CEO Nicolas Namias apresentou as ambições para a instituição que acaba de comprar o Novobanco e detalhou as diretrizes da estratégia “Visão 2030”. Consolidado como o 4º maior banco da Europa em fundos próprios (80 mil milhões em common equity) o grupo cooperativo francês anunciou um resultado líquido recorde de 4,1 mil milhões de euros em 2025 (a subir 20%) e revelou planos ambiciosos de expansão para se transformar num “campeão europeu”.
“Queremos passar de gigante francês a campeão europeu na banca de retalho”, disse o CEO. O líder do grupo revelou ainda que a Península Ibérica, e Portugal em particular, estão no centro da sua estratégia de expansão para criar um verdadeiro “campeão europeu”.
“Tudo o que fazemos no BPCE é pautado por uma visão de longo prazo. Essa é a grande vantagem e o diferencial de um grupo cooperativo”, destacou Namias.
A escolha de Portugal como eixo de crescimento europeu foi estratégica e fundamentada nos indicadores macroeconómicos do país, explicou.
“Procurávamos um país com um superavit orçamental (superávite fiscal) e com uma dívida pública controlada [em rota de convergência]. Portugal tem sido um exemplo na Europa em termos de desenvolvimento e política económica”, elogiou Nicolas Namias.
Com a recente integração do Novobanco, Portugal transformou-se oficialmente no segundo maior país para o Groupe BPCE em volume de operações. A presença no território nacional já incluía mais de 3.000 colaboradores — sobretudo no Centro de Excelência e Expertise da Natixis sediado no Porto, e que trabalha para todo o grupo —, mas também em duas instituições financeiras de crédito ao consumo (a Oney especializada em cartões e o Banco Primus, focado em crédito automóvel), mas com o Novobanco dá um salto histórico. “Passaremos a ter 8.000 pessoas a trabalhar em Portugal”, revelou o CEO, que faz questão de viajar para Lisboa ou território português uma vez por mês.
Nicolas Namias identifica uma total comunhão de ADN entre o BPCE e o Novobanco. Nomeadamente no segmento de PMEs, onde o Novobanco detém uma quota de mercado de 18%. O Groupe BPCE é líder da banca para este segmento em França.
Também nas Grandes Empresas (Corporates), onde o banco português tem uma quota de mercado de 14%.
No segmento das PMEs e retalho, o BPCE vai disponibilizar os seus modelos de concessão de crédito e as suas fábricas de produtos financeiros. Já no segmento das grandes empresas, onde o Novobanco não tinha todas as ferramentas internas necessárias, a solução passará por uma parceria estreita com o Natixis CIB (Banca de Investimento Corporativo global do grupo), que operará de forma integrada para servir os grandes clientes em Portugal.
No mercado de retalho de particulares a quota do Novobanco supera os 10%, mercado que o grupo pretende continuar a expandir e melhorar.
Para liderar esta operação localmente, o CEO do BPCE confirmou a continuidade de Mark Bourke como CEO do Novobanco. “O Mark fez um trabalho fantástico. Foi muito natural confirmá-lo no cargo. O Novobanco continuará a ser um banco português, focado nos clientes portugueses e gerido localmente”, assegurou.
Integração cultural e operacional do Novobanco prevista para fim de 2027
O Groupe BPCE estima que o processo completo de integração cultural e operacional do Novobanco esteja concluído até ao final de 2027 (um horizonte de um ano e meio a 2 anos). Para supervisionar esta transição prioritária, Namias nomeou uma equipa conjunta liderada por um dos quadros mais seniores do grupo, Olivier Delay, antigo CEO da Natixis CIB Americas.
O CEO desvalorizou os desafios técnicos da integração, apontando as mudanças culturais como o principal foco de trabalho: “A transição técnica não é complexa. O desafio prende-se mais com a mudança de mentalidade, uma vez que o Novobanco transita do controlo de um fundo de private equity para a estrutura de um grupo bancário de cariz cooperativo”.
O CEO abriu também a porta à introdução do modelo de “bancassurance” em Portugal, uma estratégia fortemente enraizada e bem-sucedida em França, onde os produtos de seguros comercializados pelo Banque Populaire e Caisse d’Epargne são fabricados internamente pelo próprio grupo (BPCE Assurances).
No que toca à compra da GamaLife, noticiada pelo Jornal Económico, o CEO não quis comentar o negócio em si, mas sublinhou que “nada está ainda decidido” e que o calendário não está fechado. Namias admitiu que existem várias opções em cima da mesa para internalizar a atividade de seguros no banco português: “Podemos desenvolver a nossa própria companhia a partir do zero ou podemos comprar uma companhia já existente. Todas as estratégias são possíveis e estamos a analisar as opções”.
O BPCE está em negociações exclusivas para comprar a seguradora do ramo vida.
Numa nota mais política, Namias sublinhou que esta operação foi articulada em estreita sintonia com as autoridades públicas portuguesas e que serve de bitola para o futuro do sistema financeiro europeu. “Toda a gente na Europa discute o ‘Relatório Draghi’ [sobre a competitividade e consolidação europeia], mas ninguém o implementa. Nós estamos a agir. A aquisição do Novo Banco é o primeiro ato real na Europa que coloca em prática as recomendações do relatório Draghi. É um passo do qual nos orgulhamos muito, tanto pelo impacto na Europa como pelo orgulho em servir a economia portuguesa”.
Relativamente a futuros movimentos de consolidação na Europa — nomeadamente em Itália, onde o mercado se encontra em plena agitação —, o líder do BPCE foi categórico ao afirmar que o grupo não irá interferir no mercado italiano, mantendo o foco absoluto na consolidação e estabilização da operação ibérica ao longo dos próximos dois anos.
“Somos um banco de desenvolvimento, um grupo que está a crescer, a investir e a desenvolver-se, enquanto vemos outros grupos de mercado a enfraquecer”, concluiu o CEO, apontando para o futuro promissor desenhado pela consolidação com o Novobanco.
Questionado sobre a gestão do Novobanco após a integração no Groupe BPCE, nomeadamente em relação aos trabalhadores e à política de dividendos, Nicolas Namias começou por sublinhar que ambas as matérias seguem processos de decisão distintos. Explicou que as questões relacionadas com os recursos humanos são da responsabilidade da equipa de gestão do banco, enquanto os dividendos são decididos pelos acionistas, mediante proposta do conselho de administração.
Destacou que uma das primeiras decisões tomadas após a conclusão da aquisição foi a atribuição de um prémio correspondente a dois meses de salário aos colaboradores do Novobanco. Segundo explicou, esta decisão foi preparada pela administração do Novobanco, discutida com o conselho de administração do BPCE e consigo próprio, e reflete o reconhecimento pelo trabalho desenvolvido pelos funcionários. Salientou que era importante enviar um sinal claro de valorização das pessoas logo no início desta nova etapa.
Relativamente aos dividendos, esclareceu que a prioridade do Groupe BPCE será sempre assegurar que o Novobanco dispõe de capital suficiente para continuar a crescer. O CEO do BPCE que tem 100% do Novobanco detalhou que parte desses lucros deve permanecer na instituição para reforçar os rácios de capital e acompanhar o crescimento da atividade. Só depois de garantida essa capacidade de desenvolvimento é que a distribuição de dividendos pode ser considerada.
Confrontado com a ideia de que o BPCE poderia beneficiar dos lucros acumulados antes da aquisição do Novobanco, Nicolas Namias rejeitou essa interpretação. Explicou que o capital existente na instituição foi incluído no preço pago pela aquisição, pelo que não faria sentido dizer que o grupo estaria a beneficiar de dividendos que não foram distribuídos anteriormente. “Numa operação de compra existem apenas duas possibilidades: ou a transação ocorre depois da distribuição dos dividendos, reduzindo o preço pago, ou ocorre antes dessa distribuição, sendo então adquirido também o capital correspondente. Nesse caso, o comprador paga por esse capital, pelo que não existe qualquer benefício adicional”, referiu.
Sobre a possibilidade de o BPCE proceder ainda este ano a uma distribuição extraordinária de dividendos utilizando esse capital, respondeu que essa hipótese não está prevista.
Namias enfatizou que o Novobanco integra agora um grupo consolidado. Explicou que, numa perspetiva consolidada, o capital permanece dentro do Groupe BPCE e que, na ausência de acionistas externos, uma eventual distribuição de dividendos entre entidades do mesmo grupo é, do ponto de vista consolidado, financeiramente neutra.
Já na parte final da sessão, foi questionado sobre os planos do Groupe BPCE para desenvolver o negócio de gestão de ativos em Portugal e sobre a atividade do fundo de infraestruturas Vauban. Nicolas Namias afirmou que a gestão de ativos representa uma área de desenvolvimento relevante e que o objetivo é disponibilizar aos clientes do Novobanco a oferta de gestão de ativos do Groupe BPCE. Quanto ao Vauban, disse não dispor de informação detalhada sobre os investimentos atualmente realizados em Portugal e recusou comentar operações ou investimentos específicos das participadas do grupo.
O fundo da Vauban Infrastructure – gestora de fundos de investimento francesa, subsidiária do grupo Natixis que pertence ao BPCE (donos do Novobanco) é um dos dois candidatos à compra da DSTelecom que está na fase das ofertas vinculativas.
BPCE em França: Unificação das plataformas de IT do Banque Populaire e da Caisse d’Epargne
O novo headquarters unifica as operações do BPCE, abrigando cerca de 9.000 colaboradores. Globalmente, a força de trabalho do grupo ultrapassa 100.000 pessoas.
Com uma estrutura descentralizada, o BPCE opera por meio de 29 bancos regionais (sendo 14 delegações do Banque Populaire e 15 da Caisse d’Epargne). Cada uma dessas unidades possui balanço e conselho de supervisão próprios, garantindo autonomia na gestão local.
Historicamente ligado ao desenvolvimento da França — com raízes que remontam a 1818 (Caisse d’Epargne), 1878 (Banque Populaire) e 1919 (Natixis, antiga reconstrução pós-guerra) —, o grupo responde hoje por 21% do financiamento de toda a economia francesa. No mercado dop crédito hipotecário (mortgages), essa fatia sobe para 27%, o que significa que o BPCE financia o imóvel de mais de um em cada quatro franceses.
A estratégia “Visão 2030”, desenhada desde que Namias assumiu o comando do grupo há três anos, está sustentada em três pilares fundamentais, segundo explicou, um é o crescimento (primeiro em França, depois Europa e por fim mundial),
Nicolas Namias promete pôr o BPCE a investir continuamente a nível local, europeu e global.
O segundo pilar é a “navegação de transições”, que se traduz por apoiar os clientes nas quatro grandes transformações atuais: tecnológica, ambiental/climática, demográfica (envelhecimento da população) e geopolítica.
Por fim promete preservar 0s valores cooperativos, que são o ADN do grupo.
Nicolas Namias disse que o grupo BPCE tem 35 milhões de clientes e 10 milhões são acionistas do grupo.
No que toca ao mercado francês, o CEO do Grupo anunciou que para sustentar o crescimento doméstico na área de retalho vão avançar com um dos maiores projetos de tecnologia em curso na França: a unificação das plataformas de TI do Banque Populaire e da Caisse d’Epargne. O projeto foi iniciado em 2025 e tem conclusão prevista para meados de 2028 (3 anos e meio de desenvolvimento).
O investimento nesta plataforma é de mil milhões, mas não está no road map integrar aqui o Novobanco.
No cenário internacional, o BPCE acelera o passo para deixar de ser “um gigante francês” e se consolidar como um “campeão europeu”. Entre as principais movimentações estratégicas na Zona Euro, destacam-se a aquisição das operações de financiamento de equipamentos (equipment finance) do Société Générale, mercado fortemente impulsionado pela procura na Alemanha; a criação de uma plataforma europeia conjunta de processamento de pagamentos em parceria com o BNP Paribas; e a integração do Novobanco, classificada por Namias como “a maior transação de mercado na Zona Euro da última década”.
Além da forte presença europeia, o Groupe BPCE mantém suas engrenagens globais operando em ritmo acelerado através de duas verticais do Natixis. O Natixis CIB (Corporate & Investment Banking) focado em grandes corporações e infraestrutura, com operações em expansão nas Américas, Ásia e Europa; e o Asset Management. Namias quer consolidar a instituição como uma das maiores gestoras de ativos do continente europeu, com 1,3 biliões de euros sob gestão (Assets Under Management – AUM).
* A jornalista viajou a convite do BPCE
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