Irão rejeita reunião com os EUA no Qatar para discutir programa nuclear
O Irão voltou hoje a descartar a possibilidade de manter conversações com os Estados Unidos em Doha, depois de o Presidente norte‑americano ter afirmado que os dois países se reuniriam para discutir o programa nuclear iraniano.
“Não haverá nenhuma negociação, em nenhum nível, com a parte norte‑americana”, declarou na segunda‑feira à noite o porta‑voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros iraniano, Esmail Baghaei, citado pela agência IRNA.
O diplomata acrescentou que a deslocação de representantes dos EUA “não tem relação com a viagem da delegação iraniana”.
Segundo Baghaei, uma equipa técnica iraniana desloca‑se hoje a Doha apenas para abordar com as autoridades cataris a libertação de ativos bloqueados, no âmbito da aplicação do memorando de entendimento assinado com Washington a 17 de junho para pôr fim à guerra.
O porta‑voz sublinhou que a prioridade da República Islâmica é garantir a execução das cláusulas do memorando, nomeadamente a cláusula 11, que prevê a libertação dos ativos iranianos.
Acrescentou que o país “ainda não entrou na fase de negociação para um acordo definitivo”, já que, de acordo com a cláusula 13, essas conversações só poderão começar quando forem aplicadas as disposições relativas ao fim da guerra em todas as frentes, incluindo o Líbano, a reabertura do estreito de Ormuz, a suspensão das sanções ao petróleo e aos produtos petroquímicos e a libertação dos fundos iranianos.
Na mesma linha, o vice‑ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano, Kazem Gharibabadi, reiterou que em Doha não será mantida “nenhuma negociação com os Estados Unidos”, embora tenha admitido que o memorando “está a avançar em alguns aspetos”. Denunciou ao mesmo tempo incumprimentos relacionados com o Líbano.
As declarações surgem após o Presidente norte-americano, Donald Trump, ter afirmado que os enviados especiais da Casa Branca, Steve Witkoff e Jared Kushner, se reuniriam hoje em Doha com representantes iranianos para abordar o programa nuclear.
No passado dia 21 de junho, Teerão e Washington acordaram um calendário de 60 dias para alcançar um acordo definitivo de paz que inclua o programa nuclear iraniano.
Contudo, a tensão voltou a aumentar nos últimos dias com ataques iranianos contra navios e bombardeamentos norte‑americanos contra alvos militares na costa sul do Irão, seguidos de represálias iranianas contra bases dos EUA no Kuwait e no Bahrein.
Estes foram os primeiros ataques trocados entre as partes desde o memorando de entendimento assinado pelos presidentes dos Estados Unidos e do Irão em 17 de junho.
Ao abrigo do memorando, os dois lados vão prosseguir negociações com um prazo de 60 dias, centradas no futuro do estreito de Ormuz e no programa nuclear iraniano, bem como no levantamento das sanções contra a República Islâmica e dos seus bens congelados no exterior.
Também hoje, o Ministério dos Negócios Estrangeiros iraniano afirmou ter discutido a futura gestão de Ormuz com Omã, país situado no extremo oposto do estreito.
A Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar (CNUDM) – adotada em 1982, mas não ratificada por Teerão – garante o direito de “passagem em trânsito” por estreitos utilizados para a navegação internacional, como o de Ormuz, essencial para ligar o Golfo Pérsico ao resto do mundo.
Além da tensão em torno do estreito, o diálogo encontra-se também ameaçado pela continuação da ofensiva de Israel contra o grupo xiita Hezbollah no Líbano, país abrangido pela trégua por exigência de Teerão.
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