Fórum BCE: IA assume o destaque com mercados atentos a sinais quanto aos juros
O primeiro dia em pleno do Fórum do Banco Central Europeu (BCE) em Sintra ficou marcado pelo foco na inteligência artificial (IA) e no seu impacto na economia, seja via mercados financeiros, produtividade ou regulação, mas a atenção dos mercados manteve-se na política monetária, onde as novidades foram escassas. A autoridade monetária europeia reforçou que foi adequado subir taxas em junho, mas quanto ao futuro mantém tudo em aberto.
Com o mote ‘Moldar o Futuro da Europa: inovação, crescimento e estabilidade’, a edição deste ano do Fórum do BCE em Sintra concentrou o primeiro dia na IA, com a apresentação de dois papers sobre o tema, um painel sobre os efeitos na estabilidade financeira e uma discussão com o economista-chefe da OpenAI. Mas, para os mercados, as notas mais relevantes vieram de governadores e membros do banco central à margem do encontro.
Philip Lane, economista chefe da autoridade monetária europeia, reforçou, depois da presidente Christine Lagarde no dia anterior, que a decisão de subir juros na mais recente reunião, em junho, foi acertada.
Em declarações à Bloomberg, Lane recusou que se tratasse de uma “subida preventiva”, como muitos analistas descreveram, falando ao invés numa “decisão clara e robusta”. Quanto a possíveis efeitos de segunda ordem, por enquanto, o plano passa por aguardar e continuar a monitorizar.
“Pode demorar algum tempo até vermos efeitos de segunda ordem”, pelo que o grande foco está “nos efeitos indiretos”, resumiu.
Antes, já Joachim Nagel, presidente do Bundesbank alemão, havia defendido a decisão de subir as taxas diretoras em 25 pontos base (pb), alertando que a subida de preços da energia ainda se faz sentir e não se materializou na totalidade.
“O choque energético […] continua no sistema, pelo que suspeito que a inflação continue significativamente acima do objetivo”, afirmou o presidente do Bundesbank à CNBC à margem do Fórum. Como tal, a probabilidade de o indicador de preços permanecer elevado é real e significativa.
Estas afirmações alinham com as declarações da presidente Lagarde, que argumentou no jantar de receção aos convidados do Fórum esta segunda-feira, 29 de junho, que foi acertado optar por subir taxas em junho e falou num regresso “ao essencial” da política monetária.
“Um regresso ao essencial não significa um regresso a um passado idealizado, se isso existir na política monetária”, ressalvou, mas sim a um paradigma dominado pela “estabilização da inflação, com as taxas de juro diretoras como principal instrumento; uma atuação ponderada; e a tomada de decisões reunião a reunião”, disse.
IA domina o dia
Além das considerações sobre política monetária, o principal ponto de atenção de mercados e analistas, os painéis e apresentações focaram-se sobretudo em inovação e em IA, o tema dominante do dia.
Philip Lane teve a oportunidade de discutir o tema com o economista chefe da OpenAI, Aaron Chatterji, que reconheceu a velocidade crescente a que o mundo tem vindo a mudar, sobretudo o sector tecnológico, mas considerou que a competitividade no ramo é superior à perceção das pessoas. Um exemplo disso é precisamente o surgimento e rápido crescimento de empresas desconhecidas ou até não existentes há uma década e que agora dominam o mercado.
Por outro lado, a crescente utilização de robótica e integração com AI poderá ser a próxima tecnologia disruptiva a massificar-se e os ganhos de produtividade deverão ser consideráveis. Neste aspeto, aponta, a Europa pode ter uma vantagem em relação a outras economias.
Antes, Isabel Schnabel, membro do Conselho Executivo do BCE, moderou um painel sobre os impactos nos mercados da adoção de IA, traçando paralelos com a era ‘dot-com’ e as transações de rápida frequência que se tornaram uma boa parte do mercado nas últimas duas décadas.
Finalmente, e além dos papers apresentados sobre IA, houve lugar à apresentação dos finalistas para a atribuição do prémio ‘Jovem Economista do Ano’, cujo vencedor será conhecido na quarta-feira, último dia da edição de 2026 do Fórum do BCE em Sintra. O evento encerra com o painel mais mediático e que mais interesse reúne, com a presença dos líderes do BCE, Banco de Inglaterra, Banco do Canadá e, a estrear-se nestas lides, da Reserva Federal norte-americana.
Share this content:



Publicar comentário