Murakami regressa às livrarias do Japão com “A história de Kaho”
O mais recente romance do escritor japonês Haruki Murakami, “A história de Kaho”, chegou hoje às livrarias do país asiático, embora alguns bibliófilos tenham tido acesso ao texto já à meia-noite, em eventos dedicados à leitura.
“Kaho, autora de livros ilustrados, é uma jovem comum. Mas começa a acontecer coisas realmente estranhas à sua volta”, comentou o próprio Murakami sobre o romance, numa mensagem publicada no ‘site’ da editora Shinchosha. “Escrevi este romance colocando-me no lugar dela”, acrescentou, referindo-se à protagonista de 26 anos, de uma história que começa com um encontro às cegas em que o acompanhante afirma nunca ter visto uma mulher tão feia.
Trata-se do primeiro livro com uma protagonista feminina do ícone da literatura contemporânea japonesa, nascido na cidade de Quioto em 1949 e com obras que costumam retratar homens jovens ou de meia-idade, narradas na primeira pessoa. “A história de Kaho” chega três anos depois de “A Cidade e as suas Muralhas Incertas” (Casa das Letras, 2025) e tem origem no conto “Kaho”, publicado em 2024, que Murakami leu nesse mesmo ano ao público na Universidade de Waseda. Desde então, o autor publicou outros três contos sobre Kaho na revista Shincho, o último deles em março.
Esta edição despertou a curiosidade dos amantes da literatura e fãs de Murakami no arquipélago – mesmo que alguns conheçam o romance por terem lido os contos -, ao ponto de alguns leitores se terem deslocado a importantes livrarias de Tóquio à meia-noite para ter acesso ao livro antecipadamente.
Reaberta recentemente após quatro anos de obras de renovação no bairro de Jimbocho, na capital, a Sanseido baixou as luzes para um grupo de leitores dispostos a passar a noite a ler Murakami, aconchegados entre as estantes. Também a livraria emblemática da Kinokuniya, situada no bairro de Shinjuku, organizou uma contagem decrescente à meia-noite para os fãs de Murakami que ficam acordados até tarde, embora esta manhã não faltassem os leitores matinais.
Do “vento que canta” até a “oeste do sol”
Murakami publicou o seu primeiro romance, Hear The Wind Sing (1987, trad. inglesa), em 1979, galardoado com o Prémio Literário Gunzou para a melhor obra de estreia. Este livro e mais dois que se lhe seguiram, Pinball (1980; 1985, trad. inglesa) e A Wild Sheep Chase (1982; 1989, trad. inglesa; Prémio Literário Noma, para estreantes) formam uma trilogia, a “The Trilogy of the Rat” (trad. livre “A trilogia do rato”).
Seguiram-se várias obras, até que em 1991 o autor decidiu ir viver para os EUA, aceitando o cargo de professor na Universidade de Princeton. Regressou ao seu país em 1995, após o violento terramoto que assolou Kobe e o ataque ocorrido no metropolitano de Tóquio, reivindicado por uma seita religiosa. Entrevistou vítimas das duas catástrofes e da seita Aum Shinrikyo e publicou duas obras de não ficção, tendo sido uma delas The Place that was Promised (1998, trad. inglesa) a vencedora do prémio da Academia Kuwabara Takeo.
A ficção tem sido a sua área de eleição, tendo lançado entre outros romances, Sputnik Meu Amor (2005, trad. portuguesa) e Kafka à Beira-Mar (2006, trad. portuguesa) ou A Cidade e as suas Muralhas Incertas (2025) ou o mais recente A Sul da Fronteira, a Oeste do Sol (2026).
Entre outros prémios recebidos, venceu o Prémio Literário Yomiuri, passando a figurar da lista de autores famosos vencedores deste prémio, como foi o caso de Kenzaburo Oe. Para além de escritor, Murakami traduziu vários autores norte-americanos, entre eles F. Scott Fitzgerald.
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