Lembra-se de… o não de Il Dottore: o dia em que a Fórmula 1 ‘perdeu’ Valentino Rossi
Vinte anos depois de ver terminada a possibilidade de entrar na Fórmula 1 pela porta grande, a Ferrari, para o Mundial de 2007, Valentino Rossi preferiu manter acesa a paixão das motos, e ceder ao pragmatismo das quatro rodas.
Olhar hoje para o paddock da Fórmula 1 ou do MotoGP é contemplar um universo hipertecnológico, dominado por simuladores de inteligência artificial e atletas moldados em laboratório. Contudo, há precisamente duas décadas, no asfalto vibrante de Mugello, o desporto motorizado viveu um daqueles raros momentos em que o romantismo e o discernimento travaram o rumo da história. Em maio de 2006, Valentino Rossi anunciava ao mundo a sua renúncia à categoria rainha do automobilismo. Renúncia porque, não podendo ir para a Ferrari, só um equipa pequena o receberia de braços abertos, e isso Il Dottore, não quis…
A possibilidade de ver “Il Dottore” vestir o carmesim da Scuderia Ferrari a partir de 2007 não era um golpe de marketing; fora um plano desenhado ao milímetro, testado no limite do cronómetro em Fiorano e Valência. Mas o tempo, esse juiz implacável, encarregou-se de colocar cada lenda no seu devido lugar.
O choque de realidade em ValênciaO sonho começou a desvanecer-se quando Rossi se cruzou em pista com Michael Schumacher. O italiano vinha de ensaios promissores, mas o escrutínio mediático e a frieza cirúrgica da Fórmula 1 pesaram na balança. O pião que assinou num teste à chuva acendeu os alertas sobre a pressão asfixiante das quatro rodas.
Pouco depois, no Grande Prémio de Itália de Motociclismo, após renovar com a Yamaha, Rossi desfez a ilusão com uma honestidade desarmante: “Eu vi o seu nível de preparação, a forma intensa como o Schumacher vive, pensa e age sempre com um objectivo em mente — melhorar o carro em todos os seus parâmetros — e percebi que teria de ter um nível de dedicação muito superior ao seu para o poder bater, pois ele tem muito mais experiência do que eu. E não era possível superar o seu nível de dedicação.”
O piloto de Tavullia compreendeu ali que a exigência da F1 beliscaria a sua felicidade. No paddock do Mónaco, a notícia espalhou-se sem espanto: as portas de Maranello fechavam-se com a iminente chegada de Kimi Räikkönen para fazer dupla com Schumacher. Para entrar, Rossi teria de aceitar o purgatório de uma equipa satélite, como a Toro Rosso.
O legado de uma escolha românticaA decisão deixou um rasto de melancolia no desporto. Luca di Montezemolo, então presidente da Ferrari, não escondeu a frustração da perda, sublinhando na altura que “é uma pena que ele não passe já para a Fórmula 1, porque seria fantástico tê-lo nos Grande Prémios”.O próprio Michael Schumacher, que viria a retirar-se temporariamente no final dessa época de 2006, lamentou a escolha do italiano, justificando que “ele já demonstrou que tem um talento acima da média”.
Duas décadas volvidas, a história deu razão ao italiano. Rossi cimentou o seu estatuto de divindade do motociclismo, enquanto a F1 seguiu o seu rumo ultra-especializado. O automobilismo acabou por receber Valentino anos mais tarde, nas resistências do WEC, mas aquele “não” de 2006 à Ferrari permanece na memória coletiva como o dia em que o maior ícone das duas rodas preferiu continuar a ser feliz no seu próprio reino.
FOTOS WRI2 Racing Images
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