A ousadia de ser contemporâneo desde 1911
A frase fica no ouvido. ‘Catchy’, diriam os anglo-saxónicos. “Contemporâneo desde 1911.” A verdade é que o Museu Nacional de Arte Contemporânea (MNAC) está de portas abertas há 115 anos. Sempre a falar do seu tempo, do nosso tempo. Do contemporâneo de cada um dos tempos – desde que foi fundado por decreto da República em 26 de maio de 1911. Nasceu da divisão do antigo Museu Nacional de Belas-Artes em Museu Nacional de Arte Antiga, que herdou daquele as obras realizadas até 1850 e continuou instalado no Palácio das Janelas Verdes, e em Museu Nacional de Arte Contemporânea, constituído por todas as obras posteriores a esta data. Instalado no Convento de S. Francisco da Cidade, num espaço vizinho da Academia de Belas-Artes, em Lisboa, foi reinaugurado em 1994 sob projeto do arquiteto francês Jean-Michel Wilmotte.
O MNAC, entre os andaimes e telas que cobrem a fachada – as obras de requalificação, no âmbito do PRR, terminam no final de agosto – não esconde a ‘revolução’ serena que ocorre dentro de portas. A escolha da expressão revolução não é inocente. O gabinete de Filipa Oliveira, diretora do MNAC desde março de 2025, não é um espaço impessoal. Despojado mas acolhedor, as paredes falam por ela. Uma gravura, em particular, entra pela retina. Queremos conhecer-lhe a história. “A história começa por uma gravura do Almada [Negreiros] feita pelo Ernesto de Sousa, que é o A. O ‘a’ diz ‘a alegria é a coisa mais séria da vida’. Depois, a dupla de artistas Sara e André fez o ‘L’, de liberdade. ‘A liberdade é a coisa mais cara da vida’. E pensei: preciso disto no museu”, exclama.
O que fez Filipa Oliveira? Convocou uma “série de amizades”, artistas de quem gosta, como Margarida Lagarto, Lourdes Castro, Emília Possoz… e o “R”, de revolução, que diz que ‘a revolução é a coisa mais permanente da vida’”. Essa dinâmica e carinho de pessoas amigas “é muito importante, não só para este espaço, o gabinete, mas também para pensar o museu”, explica. “Porque um museu tem de ser um lugar de empatia, de relação, de liberdade, alegria e revolução, diz ao JE.
“Estas três letras fazem muito sentido para pensar o lugar do museu. Nós só existimos porque existem os artistas”. E sintetiza. “O Museu tem de ser o lugar onde guardamos, respeitamos, mostramos, divulgamos o trabalho dos artistas. O Museu tem de ser amigo deles. Esta relação de alegria e amizade é importantíssima. Eles têm de sentir que este é o lugar onde a sua obra é valorizada. Onde querem ver obras de outros. Onde vêm pensar. Onde vêm estudar. Onde vêm inspirar-se.”
Pensar juntos
Olhar para dentro, claro. Repensar-se como museu, mas sem isolamento. Antes olhando para fora também. Com visão periférica. Como o projeto que ainda está a ser esboçado. “Que é pensar em conjunto como podemos reimaginar a Baixa-Chiado. Só nestes dois quarteirões existe um contexto institucional incrível”, entusiasma-se Filipa Oliveira. “O Teatro São Luiz, o São Carlos, nós, MNAC, a Faculdade de Belas-Artes, os Estúdios Victor Córdon. Depois há o MUDE, o Dona Maria II, a Zé dos Bois [ZDB], a Brotéria e a Santa Casa da Misericórdia – Museu e Igreja de São Roque”. Ou seja, um pequeno perímetro reúne uma profusão de instituições muito diversas. E com um enorme potencial, acrescentamos, se articuladas para “fazer regressar o público de Lisboa a este território, porque aqui existe um agregado de instituições que são fundamentais para a cidade”.
Objetivo? “Pensar como é que trabalhamos juntos para fazer cidade. E não tem de ser uma iniciativa muito ambiciosa, temos é de fazer acontecer.” Exemplo? Um fim de semana em que há uma conversa no São Luís, uma performance na ZDB, uma visita guiada no MNAC, alguém que canta numa janela do São Carlos… Fazer inaugurações ao mesmo tempo para fazer circular o público.”
Recorde-se que o acervo do MNAC é composto por mais de 6.000 obras, entre pintura, escultura e novos suportes visuais, desde 1850 até à atualidade, incluindo obras chave do Modernismo. Como tal, explica, “temos de fazer essas dobras da história do século XIX ao século XX e ao século XXI, e encontrar ligações entre essa linha que cose a história. E não podemos falar da arte portuguesa se não falarmos dos artistas que estiveram em Paris, ou em Londres, ou de toda a emigração para o Brasil, ou ainda da relação com os países de língua portuguesa”, acrescenta Filipa Oliveira. A porosidade enquanto conceito, questionamos. “Para mim é importantíssimo pensar no nacional, mas a partir da ideia de uma fronteira porosa, ou de uma geografia líquida, porque os países não são caixas estanques. A história da arte portuguesa também é feita de milhares de emigrantes que vivem fora, e de quem viveu, ou vive, em Portugal e que está hoje a trabalhar cá.”
Das diásporas ao cargo de direção foram dois dedos de conversa. Dirigir um museu é definir as histórias a contar, quem são os protagonistas. “Neste momento, que estou no lugar de Diretora do Museu – e os lugares de direção de várias entidades, instituições, não só dos museus – isso permite definir quais as histórias a contar, quem as protagoniza e o tipo de histórias a contar.” É um exercício de poder, provocamos. “Sim, é um exercício de poder e é importantíssimo que quem está à frente das instituições tenha a consciência de que, ao fazer uma programação, ao decidir quem entra, quem não entra, quem conta histórias, está a exercer um poder. E neste mundo complexo em que vivemos é preciso ter muita consciência de qual é a história que queremos contar ou que tipo de exercício de poder queremos fazer.”
Filipa Oliveira tem muito claro o caminho a trilhar. Acima de tudo, quer que “o museu volte a ser amado, que seja um sítio em que as pessoas acreditam, onde querem depositar as suas obras, fazer exposições, um sítio que querem visitar,” realça. “E gostava muito de conseguir que o museu do Chiado voltasse a ser um elemento importante no contexto da cidade. Essa é a minha ambição”.
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