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Calor extremo arrisca tirar até 5 mil milhões em consumo e 4 mil milhões de investimento a Portugal até 2030

Calor extremo arrisca tirar até 5 mil milhões em consumo e 4 mil milhões de investimento a Portugal até 2030

Depois de bater recordes na Europa central em junho, o calor chegou em força a Portugal e está a tornar-se cada vez mais um risco estrutural das economias europeias. Estes fenómenos têm cada vez mais impacto no PIB e por diversas formas, com um estudo da Allianz a antecipar que a economia nacional possa vir a perder perto de cinco mil milhões de euros em consumo interno e quatro mil milhões de investimento até 2030, colocando-a como uma das mais expostas aos efeitos destes eventos climatéricos extremos.
O aviso não é novo, mas a Allianz Research coloca-lhe números: o calor extremo está a tornar-se cada vez mais um risco económico estrutural na Europa e economias como a francesa, a italiana, a alemã ou a espanhola podem esperar fortes perdas de crescimento nos próximos anos decorrentes desta nova realidade.
Falando numa “transmissão económica não-linear do stress térmico”, o relatório destaca a perda de produtividade na casa dos 3% associada ao calor extremo, tipicamente definido como acima dos 30ºC a 35ºC, ao passo que os custos com energia disparam, sendo estimado um aumento de 1,2% por cada grau acima de 30ºC. E Portugal, sendo dos países mais expostos a ondas severas de calor, é dos que mais poderá sofrer com tal.
A economia nacional arrisca perder, em termos cumulativos e até 2030, 1,9% do consumo interno e até 6% do investimento, colocando-nos no grupo de países onde a queda em termos relativos é maior do lado da formação de capital fixo do que no consumo.
Extrapolando para os dados do PIB em 2025, tal corresponde a quase cinco mil milhões de euros do lado dos gastos das famílias e outros quase quatro mil milhões em investimento.
Isto acontece porque as ondas de calor geram “um mecanismo de amplificação poderoso em que o stress térmico reduz o produto potencial e comprime as margens das empresas, o retorno esperado no capital cai e desencoraja investimento”.
“Por seu turno, esta queda no investimento reduz a capacidade produtiva futura, reforçando o choque inicial à produtividade e criando um peso autossustentado na trajetória de crescimento da economia”, completa o relatório.
Ainda assim, países como a Eslováquia e a França encontram-se numa situação mais preocupante, arriscando perdas de 14,7% no investimento em ambos os casos, combinadas com menos 6,5% e 5,9% no consumo, respetivamente.
Por outro lado, os efeitos em termos absolutos são, como seria de esperar, de maior magnitude nas maiores economias. França pode ver perdas de 210 mil milhões de euros, Itália de 128,5 mil milhões, a Alemanha de 114,5 mil milhões e Espanha arrisca 104,8 mil milhões, ainda que, no bloco de países analisado, o Japão tome a liderança com 309,3 mil milhões.
A nota positiva no caso português prende-se sobretudo com a margem orçamental para acomodar estes choques, que em tudo se assemelham a um choque negativo do lado da oferta. Com o abrandamento projetado da economia, a receita fiscal também se ressentirá, ao passo que os gastos públicos sobem maioritariamente via investimento em infraestrutura e despesas em saúde.
Para piorar a dinâmica, a inflação deve subir, arrastando consigo prestações sociais indexadas, resultando num agravamento orçamental anual médio de 0,5% do PIB.
Assim, países como Portugal, a Grécia ou os Países Baixos “têm mais margem orçamental e não estão, portanto, imediatamente constrangidos, mas a trajetória pode apontar no sentido de uma pressão crescente”.
Estes fenómenos extremos têm sido cada vez mais frequentes na Europa e o impacto económico é crescente, reunindo a atenção dos académicos. Um estudo de 2021 publicado na revista científica Nature estimou perdas no PIB vindas exclusivamente do decréscimo na produtividade em 0,3% a 0,5%, isto nos anos de mais calor das últimas duas décadas (2003, 2010, 2015 e 2018). Nas regiões mais expostas, a fatura ultrapassou 1%.
Já no ano passado, o BCE, em conjunto com a Universidade de Mannheim, colocou as perdas causadas pelas ondas de calor, secas e cheias do verão de 2025 em 0,3% do PIB da UE, mas alertando que este valor poderia escalar até 0,8% até ao final desta década.

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