F1: Nick Fry, ex-CEO da Brawn GP revela os bastidores financeiros e a pressão oculta do ‘milagre’
Nick Fry, ex-CEO da Brawn GP e da Mercedes, revelou pormenores inéditos sobre a histórica campanha de 2009 na Fórmula 1, desmontando a visão romantizada de que a equipa viveu um “conto de fadas” simples após ser adquirida por apenas uma libra.Em entrevista ao High Performance Podcast, o gestor britânico explicou que a transição da saída abrupta da Honda para a fundação da nova escuderia envolveu um risco financeiro extremo e uma pressão operacional sufocante, longe do glamour habitualmente associado ao paddock.
O resgate em Heathrow e o custo de fechar a fábricaO ponto de viragem ocorreu a 28 de novembro de 2008 num hotel nas imediações do Aeroporto de Heathrow. Nick Fry e Ross Brawn, que antecipavam um corte orçamental substancial na ordem dos 40% a 50%, foram surpreendidos pela decisão da administração japonesa de retirar a Honda da Fórmula 1 com efeitos imediatos.“O nosso chefe japonês estava literalmente à beira das lágrimas”, recordou Fry, descrevendo o ambiente tenso numa sala exígua onde a marca justificou a saída com a crise económica global e o fecho de fábricas no Reino Unido.
Em vez de aceitarem o encerramento imediato e o consequente despedimento de cerca de 700 colaboradores, Fry assumiu a liderança das negociações comerciais para assegurar tempo para um ‘management buyout’. Estudos internos encomendados pela Honda a consultores financeiros revelaram que liquidar a equipa, pagar indemnizações e gerir o impacto reputacional junto do governo britânico custaria mais de 150 milhões de libras.
Perante este cenário, Fry e Brawn convenceram a casa-mãe de que transferir os ativos e injetar um subsídio de subsistência parcial seria financeiramente mais vantajoso para os japoneses, assumindo a nova estrutura todas as responsabilidades legais. A nível pessoal, o risco foi máximo. Fry partilhou uma conversa invulgar com a sua esposa, Kate, onde ambos equacionaram a perda de todo o património: “Tivemos esta conversa bizarra sobre atum enlatado. Se perdêssemos tudo e tivéssemos de sobreviver o resto da vida a comer atum de lata, ficamos bem? Pensámos que conseguiríamos superar isso e avançámos”.
“Nasty Nick”: A gestão de um orçamento de criseApesar do arranque dominante no Grande Prémio da Austrália com uma dobradinha, a Brawn GP operou no limite da sobrevivência durante todo o ano. Ao contrário da Red Bull, que gastava cerca de 2 a 3 milhões de libras por corrida em evoluções, a Brawn GP investiu apenas 600 mil libras em atualizações durante toda a temporada.
Para manter o saldo bancário equilibrado, Fry tinha a responsabilidade de angariar um milhão de libras antes de cada Grande Prémio. Esta escassez forçou cortes severos na estrutura de pessoal, reduzindo, por exemplo, o departamento de Relações Públicas de quatro pessoas para apenas uma funcionária, Nicola Armstrong, que geriu a comunicação de toda a equipa. Nick Fry assumiu o papel de “mau da fita” (Nasty Nick), cortando sistematicamente custos de viagens e logística para esticar os recursos.
A cultura interna e a origem do duplo difusorUm dos aspetos mais marcantes focados por Nick Fry foi a importância da cultura de segurança psicológica instituída na fábrica de Brackley. O famoso duplo difusor, a inovação técnica que ditou a superioridade inicial do modelo BGP 001, não nasceu da liderança de Ross Brawn, mas sim da audácia de um engenheiro aerodinâmico júnior japonês de 25 anos.
Como um ‘olhar diferente’ mudou toda a lógica da F1Aproveitando o facto de ler os regulamentos em inglês como segunda língua, o jovem técnico interpretou o texto legal de forma estritamente literal e não da forma como tinha sido idealizado pela FIA, descobrindo uma zona cinzenta no fluxo de ar traseiro.Num ambiente corporativo tradicional, a ideia poderia ter sido rejeitada pelo estatuto do funcionário, mas Fry destacou a capacidade de Ross Brawn em escutar e dar voz a todos os elementos da sala, independentemente da hierarquia. Posteriormente, quando as equipas rivais contestaram o sistema em tribunal, os advogados adversários nem sequer compreendiam o funcionamento técnico da peça, e o difusor acabou por ser considerado totalmente legal.
O efeito borboleta do motor Mercedes e a venda da equipaA busca por um propulsor após a recusa da Honda em fornecer motores resultou num alinhamento que mudou o panorama da Fórmula 1 contemporânea. Fry e Brawn reuniram-se com a Ferrari e a Mercedes, tendo ambas aceitado vender os seus motores. Contudo, a aprovação do fornecimento da Mercedes dependia do aval da McLaren, a sua equipa oficial na altura.
Martin Whitmarsh, diretor da McLaren, votou a favor do negócio por solidariedade desportiva, contrariando a posição rígida de Ron Dennis, que não queria fornecer armamento a um potencial rival. Esta decisão acabou por se virar contra a própria McLaren a longo prazo: a parceria não só garantiu o título mundial da Brawn GP, como motivou a posterior compra da equipa pela Mercedes, servindo de base para o recrutamento de Lewis Hamilton anos mais tarde.
Questionado sobre a recente avaliação da estrutura de Brackley em 6 mil milhões de dólares, Nick Fry garantiu não guardar qualquer arrependimento por ter vendido a equipa na altura: “Não penso nisso nem um segundo. Comprámos por nada e vendemos por muito mais do que nada. Vendo o que aconteceu à McLaren ou à Williams nessa época, tanto podíamos ter ficado multimilionários como falidos”, referiu como análise de risco.O que lhe restou foi o foco no presente: “Há que olhar para a frente”, concluiu o gestor.Vale a pena ouvir todo o Podcast. Pode fazê-lo, AQUI
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