Luísa Cunha, a artista que escolheu deixar “o presente fluir”
A artista plástica Luísa Cunha, de 77 anos, premiada em 2021 com o Grande Prémio Fundação EDP Arte e o Prémio AICA 2022, morreu esta segunda-feira no Hospital de São José, em Lisboa, vítima de doença oncológica.
Nasceu em 1949, em Lisboa. Licenciou-se em Filologia Germânica na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, em 1972, e foi com 37 anos, durante o curso de escultura, em 1994, no Ar.Co – Centro de Arte e Comunicação Visual, em Lisboa, que Luísa Cunha ‘caiu’ no universo da arte e a ele se dedicou. Ela que um dia disse, em entrevista, não saber o que é ambicionar ser artista. “Nem sei que ambição é essa, de ser artista. Eu fui atirada para aqui. Quando o meu discurso mudou, percebi que havia uma coisa que tinha de fazer: deixar o presente fluir.”
“Na base do seu trabalho está uma noção muito clara e emotiva da relatividade da própria vida e, consequentemente, das convenções, da diferença significativa entre interior e exterior, do privado e do público, e do carácter fragmentário do “não-lugar”, do poder, das dimensões do tempo e do lugar, e do discurso”, lê-se na nota biográfica de Luísa Cunha no site da Galeria Miguel Nabinho, a galeria que representa a artista. “Esta convicção teve a sua origem numa prática que a artista desenvolveu desde muito cedo, tendo treinado a observação sem qualquer objetivo em mente, apenas deixando as coisas entrar, num estado de completa recetividade, não impondo fronteiras, nem julgamentos (tanto quanto possível). Primeiro encontrar coisas e depois procurá-las.”
A imagem de marca da artista são as esculturas sonoras, o trabalho com o som, com interpelações muito curtas, em loop, usando frases retiradas do quotidiano, amiúde coloquiais, através das quais explora a comunicação e incita à reflexão.
Nos últimos três meses, até este domingo, a obra de Luísa Cunha esteve exposta na bienal Anozero, de Coimbra, com a instalação “Words for Gardens”, na Estufa Fria do Jardim Botânico, e com “Hello!”, no Mosteiro de Santa Clara-a-Nova, ambas marcadas pela sua voz.
Em 2023, o Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia (MAAT), em Lisboa, realizou a primeira retrospetiva da obra de Luísa Cunha, na sequência da atribuição, em 2021, do Grande Prémio Fundação EDP Arte. Com curadoria de Isabel Carlos, a exposição, com um arco temporal de 1992 a 2022, intitulada “Hello! Are you there?”, juntou todos os meios com que Luísa Cunha trabalhou: do som à fotografia, passando pelo vídeo, o desenho e a escultura.
A artista mostrou o seu trabalho na Bienal de Sidney, Austrália e nas mais prestigiadas fundações e Museus, como a Fundação EDP, Fundação Calouste Gulbenkian, Fundação de Serralves e Culturgest. Em 2021, foi a única portuguesa convidada a participar na Bienal de São Paulo, no Brasil, também com trabalhos sonoros, na exposição coletiva “Faz escuro mas eu canto”. Em 2007 participou na coletiva realizada pelo Museu de Arte Moderna do Luxemburgo (MUDAM) e, em 2004, na Bienal de Sydney, na Austrália, com curadoria de Isabel Carlos, onde apresentou a instalação sonora “Words for Gardens”.
A sua obra continuará a interpelar-nos, nomeadamente de “Turn Around”, a exposição que percorre 25 anos de criação artística em Portugal a partir das escolhas que construíram a Coleção de Arte da Fundação EDP e que está patente MAAT – Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia, em Lisboa, até 25 de janeiro de 2027. O título da exposição é retirado de uma obra sonora de Luísa Cunha, apresentada no início do percurso, que convoca “uma pluralidade de sentidos”, numa interpelação direta ao visitante: “Vira-te, olha para ti mesmo, roda, olha em teu redor”.
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