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O verdadeiro custo da inovação em Saúde

O verdadeiro custo da inovação em Saúde

A inovação em saúde continua a ser frequentemente discutida em termos de custo ou investimento. A pergunta parece legítima. Mas talvez esteja mal formulada.
Porque a inovação tem, inevitavelmente, um custo. Tal como têm os profissionais de saúde, os hospitais, os equipamentos médicos ou qualquer outra componente do sistema. A verdadeira questão não é saber se custa dinheiro. É saber que valor gera para os doentes, para o Serviço Nacional de Saúde e para a sociedade.
E é precisamente aqui que o debate deveria estar centrado.
Esta é uma reflexão particularmente relevante num momento em que a Convenção Nacional da Saúde e a CEP – Confederação Empresarial de Portugal voltam a reunir decisores, profissionais e especialistas para discutir o futuro do sistema de saúde e os desafios da sua sustentabilidade.
Nas últimas décadas, a inovação terapêutica transformou profundamente a forma como vivemos e tratamos a doença. Muitos cancros passaram a ter taxas de sobrevivência impensáveis há uma geração. Doenças raras deixaram de ser inevitavelmente incapacitantes. Patologias crónicas podem hoje ser controladas com uma qualidade de vida incomparavelmente superior à do passado.
Em Portugal, estimativas independentes apontam para mais de 110 mil mortes evitadas entre 1990 e 2015 graças à inovação farmacêutica. No mesmo período, os medicamentos inovadores contribuíram para ganhos significativos de esperança de vida e de anos de vida saudável.
Estes resultados não são apenas estatísticas. São pessoas que viveram mais tempo, viveram melhor e permaneceram mais tempo junto das suas famílias e das suas comunidades. Por isso, reduzir a inovação à sua dimensão orçamental é ignorar a sua verdadeira natureza.
Mas o valor da inovação não se mede apenas em indicadores de saúde. A inovação biomédica é também um motor de desenvolvimento científico, económico e social. Em Portugal, contribui para a criação de emprego altamente qualificado, impulsiona a investigação clínica, promove a transferência de conhecimento entre instituições e reforça a capacidade do país para competir numa economia cada vez mais assente no conhecimento.
Os ensaios clínicos são talvez o exemplo mais claro desta realidade. Permitem aos doentes acesso precoce a terapêuticas inovadoras, reforçam a capacidade científica das instituições de saúde e atraem investimento externo. Cada euro investido nesta área gera um retorno económico significativo para o país.
Quando falamos de inovação em saúde, estamos também a falar de desenvolvimento económico, de ciência, de talento e de capacidade de atrair investimento. No entanto, existe um paradoxo que Portugal continua sem resolver.
O país tem demonstrado capacidade para incorporar inovação. Contudo, continua a fazê-lo demasiado devagar. Os dados mais recentes do Patients W.A.I.T. Indicator mostram que Portugal disponibiliza 53% dos medicamentos inovadores aprovados a nível europeu — acima da média da União Europeia, de 45%. Ainda assim, os tempos de acesso permanecem entre os mais longos da Europa. Em média, os doentes esperam 839 dias — cerca de dois anos e três meses — entre a aprovação europeia de um medicamento e a sua efetiva comparticipação, contra uma média europeia de 597 dias.
Este dado deveria preocupar-nos mais do que qualquer discussão sobre preços. Porque o verdadeiro custo da inovação não é aquilo que pagamos por ela. O verdadeiro custo é aquilo que perdemos enquanto esperamos que ela chegue.
Perdem os doentes, que veem adiado o acesso a terapêuticas que podem melhorar ou prolongar as suas vidas. Perde o sistema de saúde, que continua a suportar internamentos, complicações e tratamentos menos eficazes. E perde a economia, que suporta os custos da incapacidade, da perda de produtividade e da exclusão social associadas à doença.
A inovação só cria valor quando chega ao doente. Por isso, o debate sobre sustentabilidade não pode resumir-se à contenção da despesa. Sustentabilidade significa também garantir que os recursos são utilizados da forma mais eficiente possível e que os investimentos realizados produzem resultados mensuráveis.
É aqui que os dados em saúde assumem uma importância decisiva. Durante demasiado tempo discutimos o valor da inovação com base em pressupostos. Hoje dispomos de instrumentos que permitem medir resultados concretos: hospitalizações evitadas, ganhos de sobrevivência, melhoria da qualidade de vida, redução de custos futuros e impacto económico.
A utilização inteligente de dados de saúde, o desenvolvimento de sistemas interoperáveis e a implementação do Espaço Europeu de Dados em Saúde permitirão avaliar melhor o que funciona, para quem funciona e qual o valor efetivamente gerado por cada inovação.
Porque medir melhor é decidir melhor.

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