Banco de Portugal alertou que empresa de renegociação de créditos Go Bravo não está autorizada a operar. Clientes falam de “burla”
A Go Bravo está a ser alvo de queixas de clientes o que levou o Banco de Portugal a emitir um alerta ao mercado.
No passado dia 22 de junho Banco de Portugal anunciou ao mercado que a entidade Go Bravo Portugal Unipessoal, Lda. não está habilitada a prestar serviços de pagamento.
“O Banco de Portugal adverte que a Go Bravo Portugal Unipessoal, Lda. (NIPC 516391720), atuando em seu próprio nome ou em nome de terceiros, não está habilitada a desenvolver, em Portugal, qualquer atividade financeira reservada às instituições sujeitas à supervisão do Banco de Portugal, nomeadamente a prestar serviços de pagamento, incluindo o envio de fundos”, lê-se no comunicado do supervisor.
Este NIF coincide com o NIF da empresa que tem como CEO/Diretor da empresa em Portugal, Carlos Alvarez Cano.
O Jornal Económico questionou a Go Bravo sobre as notícias e o alerta do supervisor, nomeadamente se levaria ao fim da atividade em Portugal mas até ao momento não obteve resposta.
Por sua vez o Banco de Portugal, questionado sobre se estaria em curso investigações, disse que não iria comentar.
Na altura o anuncio passou despercebido, mas hoje uma reportagem da Sábado e do Canal Now veio clarificar. Segundo uma investigação da jornalista Ana Leal, da revista Sábado e do canal Now, a Go Bravo, empresa especializada em renegociação de dívidas, liderada por Carlos Alvarez, é acusada de burlar pessoas endividadas. A reportagem relata que o dinheiro entregue pelos clientes fica retido na empresa durante meses e alguns credores nunca chegam a ser contactados e que há famílias que procuraram ajuda sem ainda terem prestações em atraso e que acabaram com o ordenado penhorado.
A notícia apanhou de surpresa o mercado, já que em março deste ano, era notícia que a Bravo assegurou uma linha de financiamento de 200 milhões de euros junto de fundos geridos pela Fortress Investment Group para acelerar a sua operação de crédito e reforçar o crescimento em Portugal e Espanha, numa das maiores operações de financiamento do setor na Península Ibérica.
O mesmo comunicado referia que este financiamento servia para a fintech expandir a sua abordagem inovadora para enfrentar situações de sobre-endividamento, “surgindo após outras instituições já terem depositado a sua confiança na empresa, como a BBVA Spark, unidade do BBVA especializada em venture debt, a GPF Capital, sociedade de investimento focada em PME, a Cercano Capital, veículo de investimento que gere o património do cofundador da Microsoft, Paul Allen, e a Achieve, um dos principais operadores do setor nos Estados Unidos”, segundo o comunicado enviado na altura.
No comunicado datado de 4 de março deste ano era dito pelo Country Manager, que “a linha de crédito da Fortress assinala um marco fundamental para a Bravo e reforça a nossa missão de ajudar as pessoas a recuperar a sua estabilidade financeira”.
“O financiamento permitirá-nos acelerar o nosso crescimento, expandir a nossa oferta de crédito e continuar a desenvolver soluções inovadoras que melhoram o bem-estar financeiro dos nossos clientes”, afirmou na altura Carlos Alvarez, Country Manager da Bravo Portugal.
Ja Ola Eriksson, diretor de financiamento especializado para a Europa do Fortress Investment Group, revelou que “a Bravo construiu uma plataforma diferenciada que combina tecnologia, dados e experiência financeira para tentar resolver o problema do sobreendividamento em grande escala. Este financiamento reflete a nossa confiança na subscrição da Bravo e no potencial de crescimento a longo prazo da plataforma da empresa, particularmente no desenvolvimento da sua divisão de crédito – e acreditamos que representa uma oportunidade atraente para os investidores do nosso fundo”.
A empresa alvo de alerta do Banco de Portugal, anunciava que disponibilizava “uma solução tecnológica integrada que combina liquidação de dívidas e crédito. Após uma análise personalizada e adaptada às necessidades específicas de cada cliente, a empresa concede crédito para liquidar dívidas com desconto, ajudando-os a recuperar tranquilidade financeira”.
“Esta abordagem posicionou a Bravo na liderança do setor de consultoria financeira e gestão de dívida”, anunciava a empresa em março no mesmo comunicado em que revelava que desde a sua fundação no México, em 2009, a Bravo Global liquidou 500 mil dívidas, gere atualmente mais de 1.000 milhões de dólares em dívida e concedeu mais de 300 milhões de dólares em crédito. Em Espanha, a empresa liquidou mais de 80.000 dívidas, num valor total superior a 250 milhões de dólares, apoiando mais de 60 mil clientes.
A Go Bravo anunciava que ajudava os clientes a reduzir até 50% das suas dívidas e a recuperar o controlo das suas finanças. Em agosto do ano passado, numa entrevista ao Jornal Económico, Carlos Alvarez foi questionado sobre esta afirmação e pedido para explicar como é que a empresa fazia isso e na resposta Carlos Alvarez respondeu: “Os descontos são oferecidos pelas próprias entidades credoras. Cada banco/entidade financeira tem as suas condições específicas. Olhemos para um exemplo: Se uma pessoa contrai um crédito de 10 mil euros e deixa de conseguir pagá-lo, entra logicamente em incumprimento. A entidade credora inicia um processo de cobrança extremamente agressivo, com o objetivo de reaver o montante em dívida. A dado momento, a entidade vai oferecer um desconto caso o cliente queira liquidar a sua dívida. No entanto, se for oferecido um desconto de 50% sobre uma dívida de 10 mil euros, o cliente teria que pagar 5 mil euros. Ora, dificilmente esta pessoa irá ter a poupança necessária para fazer este pagamento. O nosso objetivo, com recurso a dados históricos e previsões, é permitir que esta pessoa consiga poupar os 5 mil euros para liquidar a sua dívida”.
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