Wall Street encerra 1º semestre perto de máximos e investidores voltam a privilegiar fundamentos, diz Freedom24
O primeiro semestre de 2026 terminou com uma mudança significativa no sentimento dos investidores em relação ao mercado norte-americano, depois de um início de ano dominado pelas preocupações com a inflação, taxas de juro elevadas, tensões geopolíticas e o risco de abrandamento da economia dos Estados Unidos, segundo uma análise divulgada esta quarta-feira pela corretora Freedom24.
Ao fim de seis meses, os principais índices de Wall Street encontram-se próximos de máximos históricos, numa altura em que os lucros das empresas continuam a ser revistos em alta e vários bancos de investimento elevaram as suas previsões para o índice S&P 500. Entre eles está a JPMorgan, que passou a apontar para os 7.800 pontos no final do ano, refletindo um sentimento mais otimista em relação à evolução do mercado acionista norte-americano.
Para a Freedom24, mais importante do que a recuperação dos índices é a alteração das prioridades dos investidores.
“No início do ano, a inflação, a política monetária da Reserva Federal (Fed) e os riscos geopolíticos dominavam as decisões de investimento. Agora, o foco voltou a centrar-se nos resultados das empresas e na solidez dos seus fundamentos”, refere a análise.
Segundo a corretora, apesar da correção registada no arranque de 2026, motivada pelos receios de desaceleração económica e pela manutenção de uma política monetária restritiva, os mercados recuperaram rapidamente durante o segundo trimestre. Desde o início do ano, o S&P 500 acumula uma valorização superior a 9%, enquanto o Nasdaq Composite sobe perto de 20%, apesar da subida do preço do petróleo, das tensões no Médio Oriente e da manutenção de condições financeiras restritivas.
“A capacidade de resistência demonstra que os investidores estão atualmente mais confiantes na capacidade das empresas norte-americanas para continuarem a gerar crescimento, mesmo num contexto macroeconómico complexo”, afirma a Freedom24.
A análise refere que a revisão em alta das previsões para Wall Street não se limita à JPMorgan. Barclays, Stifel, BCA Research e outras instituições também atualizaram recentemente as suas projeções para o mercado norte-americano, havendo analistas que admitem que o S&P 500 possa ultrapassar os 8.000 pontos nos próximos 12 meses. A principal justificação, segundo a corretora, é a melhoria das expectativas para os resultados das empresas e não apenas a expansão das valorizações bolsistas.
A inteligência artificial continua, segundo a Freedom24, a ser o principal motor do atual ciclo bolsista. As grandes empresas tecnológicas mantêm elevados investimentos em centros de dados, capacidade computacional e desenvolvimento de soluções de IA, podendo investir, no conjunto, cerca de 730 mil milhões de dólares este ano, de acordo com estimativas citadas da JPMorgan. O impacto desse investimento começa também a estender-se aos setores da energia, construção, indústria e infraestruturas, tornando a recuperação do mercado mais abrangente.
João Lampreia, especialista de mercado da Freedom24, considera, no entanto, que o mercado se tornou mais seletivo.
“A diferença de desempenho entre as empresas hyperscaler, que estão a financiar o atual ciclo de investimento em inteligência artificial (IA), e as empresas de semicondutores, responsáveis pelo fornecimento da infraestrutura subjacente, tornou-se cada vez mais evidente. Enquanto as ações do setor dos semicondutores valorizaram mais de 100% nos últimos 12 meses, os retornos gerados pelas hyperscalers foram comparativamente mais modestos”, afirmou.
“Esta divergência levanta questões legítimas sobre a possibilidade de algumas áreas do tema de investimento em IA estarem a entrar em território de sobrevalorização. A médio prazo, acreditamos que este desequilíbrio dificilmente se manterá. É provável que as hyperscalers recuperem terreno à medida que a monetização da IA se torne mais eficaz ou, em alternativa, que os fornecedores da infraestrutura registem uma expansão mais moderada das suas valorizações”, acrescentou.
Outro aspeto destacado pela corretora é o alargamento da subida bolsista a um conjunto mais vasto de setores. Depois de vários anos em que a valorização esteve concentrada nas grandes tecnológicas, empresas industriais, financeiras, energéticas e de menor capitalização começaram igualmente a atrair fluxos de investimento, o que, segundo a Freedom24, constitui um sinal de maior robustez do atual ciclo de mercado.
Para o segundo semestre, a corretora considera que a época de apresentação de resultados será um dos principais testes para os mercados, uma vez que as expectativas dos investidores permanecem elevadas. A evolução da política monetária da Reserva Federal continuará igualmente a desempenhar um papel determinante, sobretudo para as empresas de crescimento, mais sensíveis às taxas de juro.
Segundo Lampreia, o contexto macroeconómico ainda não favorece uma descida das taxas de juro.
“Com o indicador de inflação preferido da Reserva Federal a manter-se acima dos 4% – cerca do dobro da meta da Fed –, um mercado de trabalho ainda robusto e os efeitos inflacionistas de curto prazo resultantes das tensões geopolíticas e dos elevados níveis de investimento (CapEx) exigidos pelo atual ciclo de desenvolvimento da infraestrutura de IA, nenhum destes fatores favorece uma trajetória de flexibilização da política monetária num futuro próximo”, afirmou.
“Ainda assim, os ganhos de produtividade esperados da IA no longo prazo, conjugados com o processo de redução do balanço da Reserva Federal, poderão contribuir para um ambiente mais desinflacionista e até para um certo endurecimento das condições monetárias, sem necessidade de novas subidas das taxas de juro”, acrescentou.
A Freedom24 refere ainda que o mercado acompanhará com atenção uma esperada vaga de grandes ofertas públicas iniciais (IPO), incluindo as potenciais entradas em bolsa da Anthropic e da OpenAI, que poderão testar a liquidez dos mercados e o apetite dos investidores por novas empresas de crescimento. Ao mesmo tempo, alerta que as ações norte-americanas continuam a negociar com avaliações historicamente elevadas, aumentando o risco de correções caso os resultados empresariais desiludam ou a Fed adote uma postura mais restritiva.
Na avaliação da corretora, o primeiro semestre demonstrou que a economia e as empresas norte-americanas revelaram maior resiliência do que era esperado, mas a evolução de Wall Street na segunda metade do ano dependerá sobretudo da capacidade das empresas para transformar os elevados investimentos em inteligência artificial em crescimento efetivo das receitas e dos lucros, num contexto em que os investidores passaram a privilegiar resultados concretos em detrimento das expectativas.
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