Diagnóstico do WRC by André Lavadinho: ADN, Experiência, Storytelling, Entretenimento, Evolução e Proximidade
O promotor do Rally Series, André Lavadinho, fez ao Dirtfish um completo Diagnóstico do WRC. Há quase duas décadas no pó dos ralis mundiais, tem uma visão muito estruturada sobre muito do que falta ao Mundial de Ralis para atingir o potencial que tem.
André Lavadinho refere que o problema atual do Campeonato Mundial de Ralis não reside na competição ou no seu ADN (que são considerados dos melhores do planeta devido à imprevisibilidade e ao talento exigido), mas sim na forma como o desporto é apresentado e comunicado ao mundo.
Preservação da essênciaA prioridade máxima deve ser proteger o ADN competitivo e a imprevisibilidade dos ralis em estradas reais. O desporto não deve ser simplificado nem transformado artificialmente em nome do espetáculo; o foco deve estar em torná-lo mais compreensível para o público.
O evento como experiência totalNum mercado que compete diretamente com plataformas como a Netflix, YouTube e TikTok, os ralis têm de passar a ser vistos como festivais de entretenimento. Os eventos precisam oferecer uma experiência mais completa para as famílias (restauração, atividades, concursos e interações), dando motivos para as pessoas permanecerem no local todo o dia.
O conceito de ‘Arena Central’ e Fan ZonesInspirado no modelo do Rally Series, propõe-se a criação de Arenas Centrais e Fan Zones padronizadas no WRC. Isto garante que os fãs e os patrocinadores tenham atividades contínuas e relevância comercial ao longo de todo o fim de semana, profissionalizando o ambiente do parque de assistência.
Calendário com dupla identidadeSugere-se a divisão do campeonato em dois formatos distintos: Endurance Rallies: Provas mais longas, duras e extremas foca-se na resistência (ex.: Quénia, Portugal, Paraguai e Chile).Short Rallies: Eventos compactos, dinâmicos e de mais fácil consumo para adeptos, cidades, televisões e marcas. Foco nas Pessoas e no Storytelling: Sendo os ralis um desporto caracterizado pela proximidade única com o público, o WRC deve humanizar os seus atletas. É necessário contar as histórias de bastidores, as personalidades e os sacrifícios dos pilotos para gerar uma ligação emocional que vá além dos tempos e das classificações.
Comunicação e transmissão em dois canaisA comunicação deve ser contínua e não limitada aos dias de prova. Para as transmissões em direto, defende-se a coexistência de dois modelos: Um canal técnico e detalhado para engenheiros, equipas e fãs devotos.Um canal dinâmico, informal e focado nas histórias e bastidores (estilo reality show) para atrair o público geral.
No final, perguntámos-lhe como adaptaria a sua visão à realidade portuguesa, tomando como ponto de partida, logicamente, o Portugal Rally Series?André Lavadinho: “A realidade portuguesa tem um potencial enorme. Muito maior do que, por vezes, nós próprios acreditamos.Temos algumas das melhores estradas de rali do mundo, clubes organizadores com uma enorme experiência, autarquias que acreditam cada vez mais na modalidade, pilotos de grande qualidade e um público apaixonado.O que precisamos agora é de continuar a evoluir em conjunto, caso o queiram claro! Pois é um ponto essencial e frontal.Acredito exatamente na mesma visão que partilhei para o WRC: preservar o ADN competitivo dos ralis, mas criar uma experiência muito mais forte para todos os envolvidos.Isso significa aproximar os fãs, dar mais retorno às marcas, proporcionar melhores condições para os patrocinadores ativarem os seus investimentos e fazer com que os municípios sintam um impacto real no turismo, na economia e na promoção do território.Os ralis já são extraordinários. O desafio não é mudar o desporto. É fazer com que mais pessoas se apaixonem por ele.Para isso, precisamos de união, de abertura à inovação e de trabalhar sem entraves desnecessários. Quando todos remamos na mesma direção — promotores, clubes, federação, municípios, equipas e patrocinadores — o desporto cresce naturalmente. Não queiram ser perfeitos, pois a perfeição é inimiga da eficácia.O Rally Series é apenas um exemplo de que é possível experimentar novas ideias sem perder a essência dos ralis. Se conseguirmos criar mais valor para as marcas, mais investimento chegará ao desporto. E esse investimento permitirá melhorar a promoção, a comunicação, a experiência dos fãs e, consequentemente, fortalecer toda a modalidade.Por fim, acredito numa ideia muito simples: Portugal não deve limitar-se a acompanhar a evolução dos ralis. Tem todas as condições para ajudar a liderá-la. E finalizo dizendo que o Portugal Rally Series não é o rally das ‘piascas’, é muito mais do que isso e só quem está dentro dele, o sente. Façam todos o mesmo!Como calculam, isto não é um hobby para mim, é 24h por dia nisto! como uma equipa atrás da qual me orgulho.Ninguém está aqui como hobby. é muito trabalho, muitas melhorias dia a dia e muita crítica construtiva.Não basta chegar no final do trabalho do dia a dia e pegar no tema: Ralis. Tem que ser diário, criar um produto, e valorizar os principais protagonistas, os pilotos, que tanto se esforçam…”
Tudo o que André Lavadinho disse ao Dirtfish:
À medida que se intensificam as conversas sobre um novo promotor, a DirtFish perguntou ao promotor de um dos novos campeonatos mais populares dos ralis — o Rally Series — como moldaria o futuro do WRC.
O problema não são os ralis. O problema é a forma como apresentamos os ralis ao mundo.O mesmo ADN. Uma experiência melhor para o mundo em que vivemos hoje. Não acredito que o WRC precise de uma revolução. Já possui um dos melhores produtos desportivos do planeta.O desafio, a imprevisibilidade, os diferentes pisos, as constantes mudanças de condições e o nível de talento exigido tornam os ralis únicos. Os pilotos são atletas extraordinários, capazes de fazer coisas que poucas pessoas no mundo conseguem fazer.O que acredito é que o desporto precisa de evoluir. Não mudando o seu ADN competitivo, mas melhorando a forma como as pessoas o vivem e experienciam.
Proteger aquilo que torna os ralis especiaisA primeira coisa que faria seria proteger a essência do desporto. Os ralis são especiais porque são imprevisíveis.Os pilotos competem em estradas reais. As condições mudam constantemente. Os erros têm consequências. Nada é garantido. Esse ADN competitivo nunca deve ser sacrificado em nome do espetáculo. Nunca deve ser simplificado ou artificialmente transformado. A competição em si não é o problema. A oportunidade está em fazer com que mais pessoas a compreendam, a acompanhem e se apaixonem por ela.
Um rali tem de ser mais do que um raliDurante décadas, os ralis foram pensados sobretudo para quem já gostava de ralis. Hoje competimos pela atenção das pessoas num mundo completamente diferente. Competimos contra Netflix, YouTube, TikTok, videojogos e inúmeras outras formas de entretenimento.A pergunta já não é: “Como organizamos um rali?”A pergunta é: “Porque razão alguém deve escolher passar o seu fim de semana connosco?”É aqui que acredito que o WRC pode dar um grande passo em frente. Quando uma família chega a um evento, deve encontrar mais do que alguns minutos de carros a passar numa especial. Deve encontrar uma experiência. Deve encontrar entretenimento, atividades, restauração, concursos, sessões com pilotos, ativações de patrocinadores e razões para permanecer envolvida durante todo o dia. O futuro não passa por substituir as especiais tradicionais. Passa por construir uma experiência completa à sua volta.
Repensar as Fan Zones e as Zonas de EspetáculoEsta é uma área onde acredito que os ralis ainda têm um enorme potencial por explorar. Muitos eventos possuem arenas ou zonas espetáculo, mas frequentemente a ação dura apenas alguns momentos, seguidos por longos períodos sem atividade.Isso cria desafios não só para os adeptos, mas também para marcas e patrocinadores. Uma empresa dificilmente justifica um grande investimento numa ativação quando os carros passam apenas uma vez. Os patrocinadores precisam de oportunidades para interagir com os visitantes ao longo de todo o dia, mas também de ação à sua volta. Caso contrário, esses espaços acabam por ficar vazios durante grande parte do dia. Os fãs precisam de razões para permanecer mais tempo e fazer parte da experiência do evento.Os eventos mais bem-sucedidos do futuro serão aqueles que conseguirem criar verdadeiros festivais de ralis, onde a competição continua a ser o elemento central, mas onde o entretenimento, a interação e o espírito de comunidade mantêm as pessoas envolvidas do início ao fim.Foi precisamente por isso que, no Rally Series, optámos por construir um modelo diferente, como um puzzle de ideias.O rali continua exatamente igual. O ADN competitivo permanece intacto. Os pilotos continuam a competir contra o cronómetro. O desafio continua a ser o mesmo. O que mudou foi a experiência à volta do evento. Criámos um conceito de Arena Central onde os fãs podem passar um dia inteiro, ou até um fim de semana completo, a desfrutar de atividades, ativações de patrocinadores, animação, concursos, zonas de restauração e contacto direto com o desporto.O resultado é simples: Os fãs permanecem mais tempo e as marcas permanecem mais tempo.Em vez de atrair pessoas apenas para a passagem dos carros numa especial, o evento transforma-se num destino onde os espectadores permanecem envolvidos durante todo o fim de semana. Nem todos os eventos do WRC têm atualmente a infraestrutura ou o espaço necessário para implementar este conceito de imediato, mas acredito fortemente que pode ser introduzido de forma progressiva.Uma Fan Zone WRC padronizada, adaptada a cada rali mas com a mesma identidade e objetivos, poderia também incluir uma área dedicada à ativação de marcas, um parque de assistência mais estruturado e visualmente consistente, bem como unidades de hospitalidade e assistência das equipas mais uniformes. Isto permitiria criar um ambiente mais limpo, profissional e imersivo, inspirado nos padrões de apresentação de outros campeonatos, transferindo os veículos de apoio e a logística operacional para fora das zonas mais visíveis ao público. O objetivo não é mudar os ralis. O objetivo é criar mais razões para as pessoas os viverem.
Ralis Diferentes. Mesmo ADN.O WRC poderia também assumir duas identidades de evento sem alterar o ADN do desporto. Algumas provas deveriam ser promovidas como Endurance Rallies: Quénia, Portugal, Paraguai ou Chile. Mais longas, mais duras, mais extremas, onde a resistência, a consistência e a sobrevivência fazem parte do desafio. Outras poderiam ser eventos Short Rally: mais compactos, dinâmicos e mais fáceis de viver para fãs, cidades, televisões e patrocinadores. Formatos diferentes. O mesmo campeonato. O mesmo ADN competitivo.E, passo a passo, evoluir o produto. A Maior Vantagem dos Ralis Os ralis já possuem algo que muitos desportos gostariam de ter. Proximidade. Poucos desportos permitem aos fãs estar tão perto dos pilotos, das equipas, das viaturas e da ação.Devemos aproveitar muito melhor essa vantagem.As pessoas não se apaixonam por um desporto apenas por causa das estatísticas.Apaixonam-se pelas pessoas. Seguem personalidades. Ligam-se a histórias.O WRC tem pilotos extraordinários, mas muitos adeptos conhecem-nos apenas através dos tempos e das classificações. Precisamos contar mais histórias. Os sacrifícios. Os desafios. As personalidades. Os percursos que os trouxeram até ao topo.O desporto moderno vive da ligação emocional, e os ralis têm todos os ingredientes necessários para a criar.
A comunicação faz parte do produtoHoje, a comunicação já não está separada do desporto. Faz parte dele. Os adeptos esperam acompanhar os eventos em tempo real. Esperam histórias antes, durante e depois dos ralis. Esperam conteúdos que os ajudem a perceber o que estão a ver e porque é que issoimporta. Os campeonatos precisam de equipas dedicadas a criar essa ligação todos os dias, e não apenas durante os eventos. O mesmo se aplica às transmissões em direto. Acredito profundamente nas transmissões live, mas o desafio já não é simplesmente produzir mais horas de emissão. O desafio é captar atenção, criar narrativas e construir momentos memoráveis. Talvez exista espaço para ambos os modelos. Por um lado, a cobertura tradicional e detalhada para engenheiros, equipas, media e fãs mais dedicados que querem acompanhar cada especial, cada parcial e cada decisão estratégica.Por outro lado, um produto mais curto, mais dinâmico e mais acessível ao público em geral. Um formato mais emocional, mais focado em histórias e mais próximo das pessoas.Quase uma espécie de reality show do desporto motorizado para quem não consegue estar presente no evento. Menos conteúdo puramente técnico. Mais conteúdo autêntico e informal. Mais bastidores. Mais personalidades. Mais histórias. Mais razões para alguém que nunca viu um rali se interessar pelo desporto. Os dois públicos são importantes. Os dois devem ser servidos.
Olhando para o futuroSe tivesse de resumir a minha visão para o futuro do WRC numa única frase, seria esta: O mesmo ADN competitivo. Uma experiência muito melhor. Porque a competição já é extraordinária. O desafio agora é fazer com que mais pessoas se apaixonem por ela.Não acredito que os ralis precisem de se transformar em algo diferente. Acredito que precisam de ser mais fáceis de experienciar, mais fáceis de compreender e mais fáceis de partilhar. O desporto já tem tudo aquilo de que precisa: Grandes pilotos. Grandes carros. Grandes eventos. Grandes histórias. Agora, a oportunidade está em ligar essas histórias a mais pessoas do que nunca. Porque o crescimento futuro dos ralis dependerá tanto do storytelling, do envolvimento dos fãs e da acessibilidade como dos próprios carros.
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