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Cidadãos lançam plataforma online para recolher “leituras reais” de consumo de água no concelho de Almada

Cidadãos lançam plataforma online para recolher “leituras reais” de consumo de água no concelho de Almada

Um grupo de cidadãos lançou uma plataforma online para apurar o consumo de água no concelho de Almada, numa altura em que o concelho sofre com a falta de água. Estão assim a pedir aos munícipes que enviem as suas leituras para tentar chegar a uma conclusão.
O objetivo é “recolher, de forma anónima, as leituras reais dos contadores dos moradores, porque não acreditamos na versão — avançada pelos SMAS e pela Câmara Municipal de Almada — de que os habitantes de Almada consomem quase o dobro da média nacional de água”, disse ao JE René Pfitzner, um dos promotores da plataforma Água Cidadã.
“Achamos que dados concretos são um bom ponto de pressão para obrigar os SMAS e o Governo a investigar a sério por que razão o sistema de água em Almada parece estar avariado — e para onde vai, afinal, toda a água”, acrescentou o responsável.
Para ter um resultado estatisticamente significativo, o responsável disse que a plataforma precisa, pelo menos, de mil submissões.
Moradores do concelho de Almada à beira de um ataque de nervos com falta de água
O concelho de Almada tem sido assolado gravemente pela falta de água, com a autarquia a justificar a escassez pelo disparo no consumo de água.
A falta de água tem afetado o dia-a-dia dos residentes do concelho, tal como o de João Garrido: “Hoje, em minha casa, abri uma torneira e a água simplesmente deixou de correr. Não foi um episódio isolado. No concelho de Almada, a falta de água deixou de ser uma ocorrência pontual e passou a fazer parte do quotidiano de muitos munícipes. Todos os dias surgem novos relatos, novas queixas e novas notícias. A situação tornou-se insustentável. Em dias de calor intenso, numa altura em que o acesso à água é ainda mais crítico, esta realidade é absolutamente inaceitável”, escreveu o munícipe nas redes sociais, deixando críticas aos argumentos da autarquia.
O empresário destacou que o consumo fatura em Almada variou entre 175 e 184 litros diários por habitante, próximo da referência nacional de 180 litros.
Em 2024, a água captada por residente atingiu os 269 litros por dia, com a água fatura a cair para 179 litros por dia: uma diferença de 90 litros por residente e por dia.
“Onde ficam os cerca de 6 milhões de m³ de água captados anualmente, mas não faturados”, questionou João Garrido que pede explicações à autarquia de Almada: “Cabe agora à Presidência da Câmara Municipal de Almada explicar à população como foi planeado, mantido e preparado um serviço público tão essencial como o abastecimento de água”.
“Oss próprios serviços estão a admitir que o sistema não está dimensionado para responder às necessidades reais do concelho. Isto não é apenas um problema técnico. É uma falha de planeamento, de gestão, de investimento, de manutenção e de responsabilidade política. O acesso à água não é um luxo. Não é um serviço acessório. Não é uma comodidade que possa falhar diariamente sem consequências. É um bem essencial, ligado à saúde pública, à dignidade das pessoas, à segurança das famílias, ao funcionamento das empresas e à vida normal de uma comunidade”.
Também o jornalista Miguel Szymanski deixou críticas à autarquia. “Estamos há semanas com falta de água na Costa da Caparica. O problema tem-se agravado, de ano para ano. As explicações da empresa/serviço municipal responsável são tardias e patéticas. A falta de água na rede pública é uma consequência da falta de planeamento e de noção das prioridades: construir uma estação de dessalinização de água do mar para abastecer as populações da Trafaria, Costa da Caparica, Sobreda etc. (no Algarve está uma grande central em construção) terá aproximadamente o custo das obras de ampliação do IC20/Via Rápida feitas ao longo de oito km entre Almada e a Costa da Caparica e terminadas no ano passado”.
“O projeto duma central de dessalinização deveria ter sido aprovado há três anos, quando os problemas começaram a agudizar-se. E poderia estar a funcionar hoje. Quanto ao local onde ir buscar a água do mar para dessalinizar, tenho uma sugestão que gostaria de passar aos responsáveis políticos: que tal o Oceano Atlântico aqui mesmo à porta de casa?”, segundo o também comentador e escritor residente neste concelho da Margem Sul do Tejo.
A autarquia de Almada decretou esta semana a situação de alerta no município, reforçando as medidas em curso para “garantir o abastecimento à população e aos serviços essenciais”.
Os Serviços Municipalizados de Água e Saneamento de Almada (SMAS de Almada) disseram esta quarta-feira que a “situação que o concelho enfrenta é excecional e resulta de um aumento muito significativo do consumo de água, que exerceu uma pressão sem precedentes sobre o sistema de abastecimento. Neste momento, é fundamental reduzir rapidamente os consumos para permitir a recuperação dos níveis de segurança dos reservatórios e garantir a continuidade do abastecimento”.
O SMAS disse que o consumo médio em Almada ultrapassa os 300 litros por habitante/dia, enquanto a média nacional é de cerca de 180 litros por habitante/dia. E que até junho de 2026, o consumo aumentou, em média, 4,3% no concelho, com os maiores aumentos nas freguesias: Charneca de Caparica: +15,2%; Sobreda/Lazarim: +15%; Costa da Caparica: +14,2%.
Por sua vez, o município de Almada anunciou que estão assim “proibidas todas as utilizações de água da rede pública que não correspondam a usos domésticos ou essenciais”, como:
· a rega de jardins público e privados, e de campos de golf;
· a lavagem de viaturas;
· o enchimento de piscinas;
· a utilização de chuveiros e lava-pés nas zonas balneares;
· o funcionamento das fontes ornamentais, lagos artificiais e outros elementos de uso estético de água;
· a lavagem de pavimentos exteriores, logradouros, paredes e telhados, com exceção de intervenções de conservação do edificado;
· outras utilizações recreativas ou não indispensáveis.
A autarquia anunciou várias medidas, incluindo o “reforço permanente da monitorização do sistema de abastecimento e dos níveis dos reservatórios; reforço das equipas técnicas para deteção e reparação urgente de fugas e roturas; reforço das equipas de fiscalização para prevenir consumos abusivos, utilizações ilegais de água e desperdícios; garantia do abastecimento aos equipamentos e serviços essenciais, nomeadamente hospitais, centros de saúde, lares, bombeiros e restantes infraestruturas críticas; disponibilização de meios alternativos de abastecimento, incluindo camiões-cisterna, nas zonas onde tal venha a revelar-se necessário; reforço da articulação com municípios vizinhos e restantes entidades competentes para assegurar toda a capacidade de resposta disponível”.

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