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“Empresa de mil milhões” com um só empregado…

“Empresa de mil milhões” com um só empregado…

As promessas da IA são avassaladoras e, descontando todo o hype habitual, os resultados obtidos pela utilização dos modelos de IA generativa excedem em muito as previsões mais optimistas. O mais impressionante não é apenas a qualidade de algumas respostas, mas a velocidade com que estas ferramentas entraram no quotidiano. Em poucos meses, passaram de curiosidade tecnológica a instrumento corrente de produtividade.
Particularmente relevante é o impacto nas actividades de programação, porque aí a IA já demonstra resultados concretos e mensuráveis. Um programador consegue produzir mais depressa, testar alternativas com maior rapidez e automatizar tarefas repetitivas que antes consumiam horas de trabalho.
Daí o título. Teremos empresas de software totalmente robotizadas? O paralelo com o que sucedeu, por exemplo, na indústria automóvel é evidente, mas o ritmo será mais acelerado: estamos a lidar com activos digitais, sem as dificuldades, os custos e as limitações do mundo físico. Uma linha de produção digital alimentada por IA exige sobretudo conhecimento, modelos adequados e integração nos processos de trabalho.
Mas esta reflexão é muito mais abrangente do que o impacto da IA nas empresas de software.
De uma forma ou de outra, estive ligado a muitos dos principais milestones da engenharia informática em Portugal. Fui aluno do primeiro curso que se chamou Engenharia Informática, na recém criada Universidade Nova de Lisboa. Depois do doutoramento, estive ligado a várias etapas da evolução do ensino dos computadores e informática no Técnico: do mestrado à licenciatura e, finalmente, à criação do Departamento de Engenharia Informática (DEI), o primeiro departamento criado no Técnico desde a sua fundação, em 1911.
Vi, portanto, passar todas as vagas: dos cartões perfurados aos computadores pessoais, da programação estruturada à orientada a objectos, dos mainframes aos sistemas distribuídos, da Internet à cloud. Em cada vaga, houve sempre quem anunciasse uma mudança radical e a necessidade de novos fundamentos. E, em cada vaga, houve de facto ajustamentos importantes — por exemplo, nos temas da segurança, das interfaces homem-máquina, da estatística e da ciência de dados. Ainda assim, os fundamentos permaneceram muito estáveis no ensino universitário. Desta vez, confesso, já não tenho tanta certeza.
O que a actual geração de grandes modelos de linguagem veio abalar não foi o valor dos fundamentos clássicos. O que abalou foi o caminho que usávamos para os ensinar. Durante sessenta anos, o caminho era simples: a programação ensinava simultaneamente uma tecnologia e os fundamentos da algoritmia, dos sistemas operativos, das bases de dados, etc. Praticamente todo o ensino assentava no esforço de produzir programas adequados, capazes de demonstrar o domínio desses fundamentos. O aluno enganava-se num ponteiro, corrompia memória, passava horas a perseguir uma condição de corrida e, nessa batalha, aprendia algo que nenhuma aula teórica consegue ensinar. O erro fazia parte do processo e da demonstração da aprendizagem.
Quando um modelo consegue produzir código funcional, bem estruturado e com qualidade profissional mais depressa do que um estudante consegue ler o enunciado, tudo muda. E com ela desaparece também uma boa parte daquilo que julgávamos estar a ensinar e sobretudo a avaliar.
Na profissão, as mudanças também são radicais: nos grandes clientes de tecnologias de informação, nas consultoras e nas empresas de produto. Com facetas e ângulos diferentes, todas estão confrontadas com uma mudança acentuada, que o mercado accionista já amplifica nas suas tendências.
Como é evidente, cada novo salto levanta problemas profundos: a segurança, a confiabilidade dos modelos, governabilidade da IA e dos dados, a jurisdição sobre dados e modelos, a proliferação da informática informal (shadow it) e claro o Regulamento Europeu IA ACT.
Pela minha ligação umbilical à informática universitária, mas também pelo contacto directo com as numerosas empresas que ajudei a criar, pareceu-me oportuno promover uma reflexão sobre estes desafios com protagonistas universitários, profissionais e gestores das áreas das tecnologias de informação. Vale a pena fazê-lo nesta altura, em que todos sabemos que algo de disruptivo está a acontecer, mas em que ainda compreendemos, naturalmente com dificuldade, todas as suas ramificações.
Numa série de artigos, abordaremos alguns destes temas: Que futuro para a Engenharia Informática? A IA é confiável? Os LLM amplificam muitos problemas antigos? Ainda podemos confiar no perímetro? E o impacto sobre a profissão e emprego. Será que teremos uma empresa de mil milhões com um só empregado?

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