A carregar agora

Petróleo atinge máximo de quatro semanas com ataques entre EUA e Irão e restrições a portos iranianos

Petróleo atinge máximo de quatro semanas com ataques entre EUA e Irão e restrições a portos iranianos

No espaço de uma semana, tudo mudou no Médio Oriente. Os ataques entre as forças iranianas e norte-americanas recomeçaram a 7 de julho, o Estreito de Ormuz voltou a ser perturbado, não se sabendo muito bem se a passagem está aberta ou não ao tráfego, e os Estados Unidos voltam ao bloqueio marítimo ao Irão. Já para não fazer da intenção norte-americana de cobrar taxas de 20% pela passagem segura no Estreito de Ormuz.
Este contexto de escalada geopolítica e de incerteza levou à subida no preço do petróleo. O brent e o crude ultrapassaram na terça-feira as barreiras de 85 dólares e 80 dólares, e o brent ainda atingiu um máximo de quatro semanas.
“A subida [no petróleo] reflete o reacender das tensões entre os Estados Unidos e o Irão, com ambos os países a trocarem ataques militares e uma retórica cada vez mais agressiva. Esta escalada provocou um abrandamento significativo do tráfego marítimo e intensificou os receios de um encerramento total do Estreito de Ormuz“, explica o CEO da ActivTrades, Ricardo Evangelista. “A aumentar a incerteza, o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, admitiu a possibilidade de impor uma taxa de 20% sobre toda a carga que transite pelo Estreito de Ormuz”, acrescentou.
“Como seria de esperar, estes desenvolvimentos elevaram os níveis de risco no mercado petrolífero, à medida que crescem as preocupações quanto ao abastecimento de crude proveniente da região do Golfo, responsável por cerca de 20% da produção mundial de petróleo. Neste contexto, os investidores continuarão atentos à evolução da situação tanto no plano diplomático como no militar, aumentando a probabilidade de novas subidas dos preços caso não se verifique uma desescalada das tensões no curto prazo”, considera Ricardo Evangelista.
O analista de mercado da XS.com, Samer Hasn, salienta que esta subida no preço do petróleo “ocorre em plena rápida escalada” testemunhada no Médio Oriente nas últimas horas e dias, provando que a hipótese a que o mercado tende a agarrar-se sobre o fim próximo da guerra “é prematura”.
O estrategista chefe de mercados da SIA Wealth Management, Colin Cieszynski, considera, citado pela Morningstar, que esta subida no preço do petróleo “está a ser impulsionada” pelo reconhecimento de que o caminho para a reabertura de Ormuz será “mais longo e acidentado” do que se pensava. “Esta situação não é claramente um mar de rosas, é fria e nebulosa”, acrescentou.
Analista alerta para risco de uma escalada ainda maior
O analista da XS.com refere que a escalada interrompe o fornecimento global de energia, com uma paragem quase total da navegação no Estreito de Ormuz, e “aumenta o risco de uma escalada ainda maior”, incluindo ataques à produção de petróleo e às infraestruturas de refinação na região, o que poderá tornar os danos estruturais em vez de temporários.
Referindo-se a segunda-feira, Samer Hasn considerou que os eventos desse dia incluíram cenas “histéricas e repletas” de pormenores, com ataques generalizados ao território continental e às ilhas iranianas, bem como ataques a bases americanas em vários pontos da região, bem como ataques a navios e petroleiros. “Para piorar a situação, assistimos a um regresso inesperado e repentino da escalada entre a Arábia Saudita e os Houthis no Iémen. Isto ocorreu quando a Força Aérea Saudita intercetou um avião de passageiros iraniano que tentava aterrar no aeroporto de Sanaa, antes de aviões de guerra bombardearem a pista do aeroporto e obrigarem o avião iraniano a aterrar no aeroporto de Hodeidah, o que foi seguido por um ataque dos Houthis ao aeroporto de Abha, no sul do Reino”, descreveu.
“Com esta série de acontecimentos turbulentos, devemos reorganizar as nossas hipóteses com calma. Creio que estamos agora numa ronda de negociações sob pressão, após o fracasso na mesa de negociações após a assinatura do recente memorando de entendimento. O principal obstáculo residia em chegar a um entendimento sobre a implementação do quinto artigo do memorando de entendimento assinado, que diz respeito à gestão do Estreito de Ormuz“, explica o analista da XS.com.
Samer Hasn referiu que “não é improvável” que, no meio da onda massiva de escalada de segunda-feira, testemunhemos um “súbito anúncio” de regresso ao cessar-fogo, mas desta vez através de um “entendimento mútuo mais amplo”, sustentado por uma formulação “mais clara e precisa” sobre a gestão do Estreito de Ormuz, que não deixaria margem para interpretações por nenhuma das partes, a seu bel-prazer. “Acredito que Donald Trump queira terminar a guerra a qualquer custo, especialmente antes das eleições intercalares, usando a pressão militar para tentar obter concessões que não conseguiu através de negociações ou campanhas militares anteriores”, diz o analista.
“Quanto às suas declarações sobre a imposição de um imposto de 20% sobre os navios de carga que atravessam o Estreito de Ormuz, não podem ser levadas a sério, pois são completamente irrealistas, e a imposição de um bloqueio militar ao estreito também seria insustentável, dados os elevados custos e as potenciais perdas envolvidas”, alerta o analista da XS.com. “Se esta hipótese estiver correcta, poderemos ver os preços do petróleo retomarem a sua queda, apagando os ganhos observados nas duas últimas sessões, e também não é improvável que assistamos a uma queda de dois dígitos”, defende Samer Hasn.
Relativamente aos houthis o analista da XS.com considera que é “muito cedo” para falar da sua entrada nesta guerra regional de grande escala. “Acredito que a recente escalada possa ser contida e que possam regressar a uma paz não oficial, uma vez que não acredito que esta guerra seja do interesse de nenhum dos dois agora”, referiu.
“Por outro lado, o cenário mau, mas não o pior, é a incapacidade de Trump em obter uma concessão dos iranianos, mesmo através de negociações, o que significaria a continuação das actuais escaramuças durante muito tempo e o estabelecimento de um estado que não seja nem de paz nem de guerra regional em grande escala”, refere o analista da XS.com. “No entanto, isto manteria o tráfego marítimo próximo de zero no estreito, o que poderia manter os preços do petróleo nos seus níveis relativamente elevados”, sublinhou.
Para Samer Hasn o pior cenário seria a situação “descontrolar-se”, envolvendo ataques em grande escala contra instalações energéticas iranianas, o que “poderia ser respondido com ataques generalizados contra instalações dos seus vizinhos, num esforço para instar as nações a pressionarem” o governo dos Estados Unidos a interromper a escalada.
“Se a situação evoluir com os Houthis a trazerem toda a sua força para esta guerra em grande escala, isso também envolveria o encerramento do vital Estreito de Bab el Mandeb e envolveria também os riscos de ataques a instalações energéticas, especialmente na Arábia Saudita, repetindo o que aconteceu na sua guerra anterior, que atingiu o auge com o ataque em Setembro de 2019, que causou a maior interrupção na produção de petróleo da história, com mais de 5,7 milhões de barris por dia da produção saudita fora do ar, representando quase metade da sua produção na época. No entanto, acredito que repetir esta narrativa continua a ser improvável, pelo menos com base nos desenvolvimentos atuais, embora não a descarte completamente”, considera o analista.

Share this content:

Publicar comentário