A ‘colecionadora de almas’ Alice Neel chega a Serralves com “Beautifully Imperfect”
O Museu de Arte Contemporânea de Serralves, no Porto, inaugura na quinta-feira a exposição “Alice Neel: Beautifully Imperfect”, que explora os retratos da pintora norte-americana ‘colecionadora de almas’, cujas obras retratam temas como identidade, intimidade e luta social.
São 90 obras, às quais se soma documentação do arquivo da artista, bem como cartas de artistas portugueses e estrangeiros, contemporâneos, escritas para Alice Neel (1900–1984), uma artista que atravessou praticamente um século e cujo talento artístico singular só foi reconhecido tarde na sua vida, conforme descreveu hoje, numa visita dedicada à imprensa, a curadora da exposição, Inês Grosso.
“A figura humana é central na sua pintura. Foi uma artista que viveu em segundo plano e só após os 60 [anos] começou a ter algum reconhecimento. Fiel ao seu trabalho, excêntrica, teve uma vida marcada pela adversidade e nunca deixou de pintar. Alice olha para as pessoas sem qualquer julgamento. Via a beleza no imperfeito, beleza na falha”, disse Inês Grosso.
Parente de quinta-feira a 17 de janeiro, na Ala Álvaro Siza do Museu de Arte Contemporânea de Serralves, a arquitetura da exposição pode quase ser dividida em duas partes: a dedicada à família e outra ao ativismo.
Intimidade, o corpo feminino, a maternidade, “matéria com a qual tinha uma relação ambigua”, o envelhecimento e a vida das comunidades marginalizadas, entre as quais ativistas queer, imigrantes e os seus vizinhos do Harlem espanhol, entre outros temas, estão patentes nesta exposição, convivendo com vários espelhos, pequenas vitrinas com livros, recortes, postais, imagens e nichos de som dos quais soa, entre outros estilos de música, a clássica e a latina, preferidos da artista.
“Os espelhos convidam o visitante a tornar-se parte da exposição”, contou Inês Grosso, que é também curadora-chefe do Museu de Serralves, e trabalhou nesta mostra durante cerca de dois anos, período que incluiu viagens aos Estados Unidos, sozinha, para visitar o Harlem e para estar com a família da artista com quem privou durante cinco dias numa propriedade rural de Vermont.
“Alice Neel: Beautifully Imperfect” começa com um autorretrato da artista, um retrato que pintou quatro anos antes de morrer e no qual aparece nua com um pano numa mão e o pincel na outra sentada na cadeira às riscas onde muitos dos seus modelos se sentaram para serem retratados por si.
“Foi uma escolha um bocadinho radical, mas ao mesmo tempo acho que não faria sentido começar a exposição de outra forma. É o único autorretrato de corpo inteiro da artista e um autorretrato (…). A Alice Neel muito pontualmente aparece refletida, ou aparece em algumas aguarelas. Ainda hoje me intriga a razão que a tenha levado a esperar tanto tempo para fazer o seu próprio autorretrato”, descreveu a curadora.
Já sobre o que retratava e como retratava, salvaguardando que esta é uma interpretação sua, Inês Grosso disse que Neel “valorizava e via a beleza na imperfeição”.
“Algumas pessoas nem queriam ser retratadas por ela. Não se sentiam lisonjeadas no retrato (…). Muitas pinturas têm um lado inacabado. Captava o olhar, um pormenor que lhe interessava e depois o resto já não lhe interessava tanto”, disse, apontando para os pés de um retrato que parecem estar inacabados.
Com empréstimos de instituições como a National Portrait Gallery, em Washington D.C., e o Whitney Museum of American Art, em Nova Iorque, Serralves traz a Portugal, pela primeira vez, “um panorama abrangente da carreira de Neel, desde as suas primeiras experiências expressionistas até aos retratos psicologicamente densos e formalmente seguros do seu período de maturidade”.
A iniciativa soma vozes de artistas contemporâneos seus admiradores e estabelece ligações entre diferentes períodos da sua carreira, revelando como a artista também encarava o retrato como um ato político.
Entre outros apontamentos, Inês Grosso lembrou que Alice Neel fez algumas pinturas de memória, recrutou pessoas na rua para as pintar e chegou a ser investigada por uma eventual ligação ao comunismo nos anos 1950, durante o ‘mccarthysmo’, período mais duro da Guerra Fria, nos EUA.
Entre os anos 1960-70, Alice Neel também pintou muitas mulheres grávidas, não pela ideia de gravidez, mas porque lhe interessava a volumetria, a deformação do corpo, lembrou Inês Grosso, sublinhando que “esta exposição tem um caráter didático e absolutamente intencional”.
No texto distribuído à imprensa, Serralves destaca que entre os artistas, escritores, músicos e outras vozes contemporâneas, portuguesas e estrangeiras, convidadas a escrever a Alice Neel, estão Alexandre Farto ‘aka’ Vhils, Allora & Calzadilla, André Romão, André Tecedeiro, Annie Sprinkle, Carminho, Celia Paul, Chantal Joffe, Fernanda Fragateiro, Hilda de Paulo, Joey Skaggs, Jordan Casteel, Juan Araujo, Katy Hessel, Minês Castanheira, Panmela Castro, Tiago Baptista e Vasco Araújo, entre outros.
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