Israel, o espelho invertido
A coluna anterior terminou numa fronteira: a equação coerciva funciona sobre quem trata a segurança como moeda negociável e falha sobre quem a trata como fim último. Israel é esse caso: o espelho invertido de toda a lógica aqui descrita.
A regra enuncia-se em duas frases: a reorganização geoeconómica pode comprar, coagir e atrair quase todos os actores; não transacciona com quem define a sua posição como existencial. No Golfo, os Estados Unidos usaram a segurança como meio para justificar um fim económico. Em Israel encontraram um aliado para quem a segurança é o próprio fim, e que por isso deixou de servir o fim económico. Tudo o que se segue ilustra esta regra.
A viragem americana tem duas raízes. A interna é a vitória, nesta fase, da facção céptica da guerra, encabeçada pelo vice-presidente Vance, e mede-se na guerra de fugas de informação entre as duas capitais: aliados que falam através dos jornais são um contencioso. A raiz transaccional é a que aqui importa. O objectivo estrutural americano nunca foi apenas a reabertura do estreito de Ormuz. Foi a reabertura sob controlo americano: a mão na torneira de um Golfo que abre, fecha ou cobra conforme convém, sobretudo por causa da China e da Europa, que dele muito dependem. O próprio Trump reclamou a ideia ao ameaçar cobrar pela protecção da navegação como anjo da guarda do Médio Oriente. Quando esse objectivo exigiu um entendimento com Teerão, Israel passou de parceiro a obstáculo. Não houve traição: houve reordenação de prioridades segundo uma hierarquia que sempre existiu.
O memorando de Versalhes, tratado na coluna anterior, expôs a nova posição com crueza: Israel não foi signatário, não foi autorizado a ler o rascunho e recusou retirar-se do sul do Líbano, apesar da exigência americana, já transmitida a Netanyahu, de saída do Líbano e da Síria. Israel guarda, contudo, um trunfo jurídico: o acordo que celebrou com o Líbano, Estado soberano, confere-lhe uma base de direito internacional que o memorando não possui. Incluir o Líbano e o Hezbollah num entendimento entre os Estados Unidos e o Irão, à margem do Estado libanês, é, no mínimo, ilegítimo. Terceiros não dispõem da soberania alheia.
O processo negocial em curso, com os ataques a navios e os bombardeamentos que já chegaram a Teerão, reabre uma janela a Netanyahu. Foi Israel quem primeiro venceu o Irão, em Junho de 2025, com os Estados Unidos a capitalizarem essa vitória, e cada navio atacado no estreito vindica a leitura israelita: com este regime, nenhum acordo dura. A janela, porém, não devolve a Netanyahu o estatuto de parceiro. Devolve-lhe o de instrumento. Para Trump, Netanyahu parece ter cumprido o seu propósito e é hoje estorvo aos dois desígnios que estruturam a sua política regional: o entendimento com o Irão, que ainda julga alcançar, e os Acordos de Abraão, onde os próprios líderes da região o apontam como impedimento. Soma-se-lhes, em surdina, a visão de Gaza como empreendimento sob domínio americano, que um Israel de Netanyahu jamais consentirá.
A rigidez israelita não é capricho de um homem. É estrutura. Uma coligação sustentada pela ultraortodoxia e pela direita militarizada apenas hiperboliza o tratamento da segurança como questão existencial, mas o existencial, para Israel, não deixa margem para negociar. É por isso que a reorganização da região avança contornando Israel, apoiada em quem aceita transaccionar: os que pagam para pertencer, como a Arábia Saudita e o Catar; e os que cobram para servir, como a Turquia de Erdoğan, com hostilidade crescente em relação a Israel. Ancara viu reacender a promessa dos F-35, já pagos e retidos, que Netanyahu implora que não sejam entregues. As hesitações regionais têm naturezas distintas. Os Emirados hesitam por cálculo próprio sobre o Irão. O Egipto não transacciona porque não pode: a paz fria é contida pela assimetria de forças, e a fraqueza renegoceia-se quando a balança muda. Israel não transacciona porque não quer: é doutrina, e a doutrina não se renegoceia. É essa diferença que torna esta análise testável: se um governo israelita vier a trocar segurança por integração económica, a regra aqui enunciada cai.
Esta é uma leitura que acompanha factos ainda em movimento, e a contrária existe: a pressão sobre Israel seria táctica negocial, não viragem estrutural, e se o processo com Teerão colapsar em definitivo, Washington poderá recompor o eixo com Telavive em semanas. Não a descarto. O que me faz duvidar dela é a arquitectura, não o episódio: a torneira de Ormuz, os Acordos de Abraão e a reconstrução iraniana são desenhos de década, e nenhum precisa deste Israel. Se a recomposição vier sem contrapartidas israelitas, esta coluna terá envelhecido mal. Assumo o risco: é o que distingue uma análise de uma aposta segura.
O caso israelita fixa, assim, o limite da tese desta série, que não se resolve com mais pressão nem com mais dinheiro. A prazo, um aliado cuja razão de ser é inegociável pode deixar de servir os interesses geoeconómicos dos Estados Unidos, pelo menos na visão transaccional de Trump. E os grandes rivais dos Estados Unidos também têm os seus pontos inegociáveis. É sobre eles que a equação será testada. É o que veremos na próxima coluna.
Este é o quarto texto de uma série de seis, sob o título “A destruição que reorganiza”.
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