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A importância de se chamar inteligência artificial

A importância de se chamar inteligência artificial

De fabricantes de sapatos a farmacêuticas, pelo menos 27 empresas norte-americanas cotadas mudaram de nome ou de atividade para se associarem à inteligência artificial (IA). Para aproveitarem uma onda que parece dourada. No ponto mais alto após os anúncios, acrescentaram 8.700 milhões de dólares (cerca de 7.587 milhões de euros) à capitalização bolsista, um aumento de 106%, uma duplicação. Mais de metade do ganho já tinha desaparecido no final de junho e sete empresas valiam menos do que antes de descobrirem este novo caminho.
A Allbirds é o exemplo mais evidente. A marca de calçado sustentável, avaliada em mais de 4.000 milhões de dólares (3.400 milhões de euros) após entrar em bolsa, em 2021, anunciou, a 15 de abril, um financiamento convertível de 50 milhões de dólares (43,7 milhões de euros) para abandonar os sapatos e entrar nas infraestruturas de inteligência artificial. Primeiro seria NewBird AI. Acabou por se chamar Smartbird.
A transformação foi preparada com a venda da marca Allbirds, da propriedade intelectual e de outros ativos e passivos à American Exchange Group, por 39 milhões de dólares (34,1 milhões de euros).
A antiga Allbirds, o que restava, ficou com a estrutura bolsista e a promessa de construir um negócio de capacidade computacional, comprando processadores gráficos e alugando servidores.
O mercado respondeu antes de o negócio existir. As ações mais do que quintuplicaram. A empresa, que valia cerca de 26 milhões de dólares (22,7 milhões de euros), ganhou mais de 100 milhões de dólares (87,4 milhões) num dia.
Três meses depois, o entusiasmo tinha desaparecido: entre 15 de abril e 15 de julho, a cotação caiu mais de 80% e a capitalização regressou à casa de partida nos 26 milhões de dólares.
A Hoth Therapeutics, uma farmacêutica sem receitas operacionais, transformou-se em Rocket One e passou a apresentar-se como empresa de semicondutores, computação de baixo consumo e economia orbital. Os projetos farmacêuticos foram remetidos para uma subsidiária, quando o auditor levantava dúvidas sobre a continuidade da empresa.
A Myseum, uma rede social centrada na privacidade, acrescentou “AI” ao nome em abril. Em 2025, teve receitas de apenas 550 dólares, não 550 milhões. A BluSky AI começou, em 2007, como Golf Alliance, para facilitar o acesso de jogadores a campos privados. Depois passou pela exploração mineira e, em 2025, apresentou-se como promotora de centros de dados modulares.
A Cipher Mining passou a Cipher Digital para refletir a deslocação da mineração de bitcoin para centros de dados. Aqui, existe uma diferença: os antigos mineiros dispõem de ligações à rede, terrenos, energia e experiência na operação de instalações intensivas em eletricidade. A passagem para infraestruturas de IA não começa do zero.
Nome muda antes do negócio
A história mostra que mudar de atividade não é, por definição, uma manobra. A Nokia nasceu, em 1865, como uma fábrica de pasta de papel, passou pela borracha e pelos cabos e tornou-se uma referência das telecomunicações. A Nintendo começou, em 1889, a produzir cartas de jogar e construiu, décadas depois, uma das maiores empresas mundiais de videojogos. A 3M nasceu como uma exploração mineira falhada e encontrou o futuro nos abrasivos, adesivos e materiais. A Berkshire Hathaway deixou de ser uma empresa têxtil para se transformar num grupo assente nos seguros e nos investimentos.
Nestes casos, a mudança não se limitou ao nome, à narrativa. Houve acumulação de competências, investimento, aquisições, produtos, clientes e anos de execução. A transformação criou um negócio antes de criar uma nova avaliação. Nas pequenas cotadas que hoje se vestem de inteligência artificial, acontece frequentemente o contrário: a avaliação chega primeiro e o negócio fica prometido para depois.
O fenómeno também não é novo. No final da década de 1990, empresas norte-americanas que acrescentaram “.com” ao nome obtiveram retornos extraordinários de 72% nos 10 dias seguintes ao anúncio. Em 2017, a Long Island Iced Tea, uma fabricante de bebidas, valorizou cerca de 500% ao tornar-se Long Blockchain. A empresa acabaria envolvida numa investigação por uso de informação privilegiada e o regulador norte-americano revogou o registo dos seus títulos.
A inteligência artificial é uma transformação económica real. Também é uma narrativa financeira poderosa. Mas perceber a diferença é importante.

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