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Miguel Morgado: “Na Europa só se fala de resiliência e nunca de crescimento e desenvolvimento”

Miguel Morgado: “Na Europa só se fala de resiliência e nunca de crescimento e desenvolvimento”

Resiliência, resiliência… e mais resiliência. O termo entrou no léxico europeu e de forma tão eficaz que poucos se questionam se a palavra poderá estar a esconder alguma falta de ambição em torno de outros termos que poderão ter entrado em desuso como crescimento e desenvolvimento. Foi essa a provocação que Miguel Morgado, professor da Universidade Católica, veio deixar ao 8º Colóquio Hortofrutícola organizado pela Lusomorango e que tem lugar esta sexta-feira em Odemira.

“Não sou um homem do setor agrícola mas queria desafiar-vos à luz de uma concepção geopolítica, que não controlamos mas que condiciona as escolhas internas de cada país”, começou por referir o docente no espaço de reflexão sobre que políticas públicas são necessárias para que o país resista a contrariedades como a tempestade Kristin que assolou Portugal no início do ano.

“Queria propor-vos uma interpretação da palavra resiliência e porque é que se tornou tão popular este lugar comum repetido à exaustão por tantos protagonistas, dos políticos aos empresários”, referiu. Miguel Morgado deixou a pergunta: “Porque é que os europeus se tornaram tão adeptos da palavra?”.

O também comentador deu o exemplo do mote dos fundos europeus como o PRR, em que um dos erres é dedicado precisamente à resiliência. “A ideia dos fundos europeus do PRR era reconstruir mas não há ambição porque o objetivo passa apenas por resistir e isso, por si, não é saudável”. E lançou o desafio: “Temos que perceber porque é que a nossa ambição passa apenas pela resiliência e não pelo crescimento e desenvolvimento”.

Miguel Morgado lançou outro lugar comum repetido à exaustão nos espaços de comentários dos media: “Temos a ideia de que o mundo está mais volátil, é quase um lugar comum dizer isto, mas não é bem assim. Dizemos isto frequentemente num registo de enorme ansiedade e angústia mas a verdade é que o mundo nunca teve uma fase de prosperidade como tem agora”.

Para o keynote speaker deste evento da Lusomorango, não é inocente que nos EUA e na China “a visão do mundo seja completamente diferente”, até porque as duas maiores economias mundiais “lideram também a revolução tecnológica”. E o que temos na Europa? “Temos uma auto-inferiorização, a sensação de que estamos sempre em perda. A nossa perspectiva deteriorou-se e temos a sensação que o mundo inteiro conspira contra nós e isso tem a ver com o declínio da Europa face ao resto do mundo”.

Miguel Morgado considera que nos anos 90 “viveu-se o último momento de grande otimismo europeu” e destaca que Portugal “foi contagiado por esse otimismo e depois disso, abateu-se sobre o país uma sensação de fatalismo”.

E como saímos daqui? O segredo, na visão de Miguel Morgado, passa por “nos remobilizarmos, passa por irmos ao terapeuta e o terapeuta é a transformação da cultura pública”. E terminou com um exemplo: “A união de mercados de capitais, que está a ser protagonizado por Maria Luís Albuquerque, é uma das mudanças que vai ter que acontecer na Europa”.

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