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“Precisamos ter uma visão estratégica para a agricultura”, diz diretor-geral da Vitacress

“Precisamos ter uma visão estratégica para a agricultura”, diz diretor-geral da Vitacress

A agricultura tem de ter uma visão. O alerta foi deixado esta sexta-feira17, por Carlos Vicente, managing director da Vitacress, no 8.º Colóquio Hortofrutícola, promovido em parceria pela Lusomorango e a Universidade Católica, tendo o Jornal Económico como media partner.
“Nós precisamos ter uma visão estratégica para a agricultura e termos também a capacidade, a vontade e a liderança para fazer acontecer. Para mim, parte disso. Uma coisa é apoiar aqueles que sofreram grandes danos, a destruição dos seus fatores de produção em tempestades e outras situações, outra coisa é apoiá-los sem uma certa direção. Quando temos uma visão para a agricultura e definimos quais são os sectores quais são as áreas que podemos dar prioridade, as decisões tornam-se mais fáceis,  os processos tornam-se mais diretos e mais claros”, afirmou o gestor.
A água é uma das prioridades. E estamos numa solução melhor agora, adiantou Carlos Vicente, referindo-se à estratégia de investimentos lançada pelo Governo para garantir a gestão sustentável deste recurso nos próximos 15 anos. Mas na sua perspetiva, a incógnita mantém-se: “A Água que Une é um grande projeto, mas não estou bem claro qual é que é o futuro da nossa agricultura”.
 A Vitacress tem na região de Odemira cerca de 300 hectares de produção, praticamente na sua totalidade em céu aberto. Como qualquer produção ao ar livre, a empresa está exposta tanto às tempestades, como as ocorridas no início de fevereiro deste ano – “Fomos muito afetados” -, como aos excessos de temperatura.
“Como operadores, obviamente, temos de saber viver com estes riscos e temos que saber desenvolver estratégias que nos ajudem não só a ser mais resilientes, mas também a olhar para o futuro e a crescer – essa é a nossa missão como empresa, mas acho que também deve ser como país. Afinal, o bem estar de uma empresa também tem a ver com o bem estar macroeconómico”, afirmou Carlos Vicente, em resposta à pergunta lançada por José Diogo Albuquerque, especialista em políticas agrícolas e antigo secretário de Estado da Agricultura, moderador do painel sobre o Impacto económico dos choques climáticos, resiliência das empresas e políticas públicas necessárias no presente e no futuro: O que podem os produtores fazer para se precaver no futuro de outras crises?
Carlos Vicente explicou que a Vitacress não exporta muito, mas tem um papel muito importante no mercado português  – o produto que é produzido aqui e é consumido em Portugal é produto que o País evita comprar. 
“A Vitacress produz riqueza em Odemira e tem estratégia para continuar a produzir aqui e a crescer”, adiamta. A estratégia, acrescenta, “passa por diversificar o risco e investir em tecnologia”. E explica: “É um ponto muito importante, não só pela resiliência, mas também porque com tecnologia sabemos que conseguimos fazer mais com menos. A tecnologia vai permitir melhorar a nossa competitividade”.
O managing director da Vitacress lembrou que o salário base tem vindo aumentar em Portugal e a tecnologia é a ajuda para aumentar a produtividade nesse mesmo ritmo do custo do trabalho. 
Defende que como país, Portugal deve apoiar as empresas sem discriminar se são pequenas ou grandes e refere que os empresários na área da agricultura para investir precisam ter um enquadramento de infraestrutura e alguns incentivos. 
“Na nossa região temos alguma dificuldade em obter mão de obra… um grande desafio é conseguir mão de obra qualificada. Muitos jovens e pessoas com maturidade profissional gostavam de vir para esta região, que é atrativa, mas há falta de habitação, por exemplo” Isso é uma barreira grande para trazer pessoas, novas ideias, qualificações, que nos ajudem a catapultar esta região e as nossas atividades para o futuro”.
O 8.º Colóquio Hortofrutícola da Lusomorango, esta sexta-feira, 17, teve como tema Reconstruir, Produzir, Crescer – Ambição e Sustentabilidade e decorreu como é da tradição na Sociedade Recreativa São Teotoniense, em São Teotónio, no concelho de Odemira. No painel moderado por José Diogo Albuquerque intervieram também Luís Souto Barreiros, presidente do IFAP I.P. (Instituto de Financiamento da Agricultura e Pescas) e Helena Cortes Cavaco, vice-presidente da CCDR Alentejo.
Além da necessidade apontada à agricultura de ter de ter uma visão, como já existe para a água, eis outras conclusões do painel: os apoios têm de ser feitos de forma diferente.  Os seguros têm de ser mais flexíveis para o futuro. Os agricultores têm de precaver-se porque só com os apoios não chega. O sector precisa de maior absorção da tecnologia. Não deverá haver discriminação do Estado entre pequenos e grandes empresas. Acabar com a melancolia e comunicar melhor.
Helena Cortes Cavaco considerou que a resposta do Estado na Kristin foi positiva: “Conseguimos dar uma resposta com alguma rapidez”, afirmou, embora admitindo que para quem vê o seu negócio destruído ache sempre que é pouco e que chega sempre tarde. Ainda assim, adianta, “podemos aprender com o que aconteceu, podemos preparar-nos melhor para o futuro”. Como, por exemplo, construir melhor o que possa ter ficado destruído. 
Lembrou que numa primeira fase no Alentejo somente o Município de Alcácer do Sal foi abrangido pelos apoios, que mais tarde, cobriram todo o território. “Neste momento, todos os municípios do Alentejo, cujos agricultores provem os prejuízos decorrentes da tempestade e que os municípios atestem isso, podem ter um apoio que vai até aos 10 mil euros”. Para uma segunda medida são elegíveis prejuízos de cinco mil até 400 mil euros, com taxas de apoio diferentes. 
A vice-presidente da CCDR Alentejo revelou que a taxa média de resposta  das candidaturas está nos oito dias. A partir do momento em que chegam instruídas, este é o prazo médio de validação, revela, considerando que se é verdade que há que fazer chegar os apoios rapidamente a quem deles precisa, não se pode ignorar que são apoios públicos  e há critérios que têm que ser estabelecidos e cumpridos. 
“Vamos ter mais eventos climáticos extremos, vamos ter secas prolongadas e período dos com pluviosidade elevada durante pouco tempo, o que nos vai criar muitos problemas (…) Os apoios públicos nunca serão suficientes para dar resposta à totalidade dos prejuízos de tempestades deste tipo acarretam. Nem agora nem no futuro. Teremos que encontrar outros meios complementares, como os seguros…” 
Portugal, diz Helena Cortes Cavaco, é “um país com muita, muita burocracia” e se tivesse que tomar uma só medida, seria: desburocratizar. 
Luís Souto Barreiros, presidente do IFAP I.P. Instituto de Financiamento da Agricultura e Pescas) alinha pelo mesmo diapasão no que se refere às tempestades: “Houve reação” e “foram implantados diversos instrumentos”. 
Considera que os riscos climáticos vieram para ficar, são certos, mas acabam por ser surpreendentes, o que atira para um canto o valor das séries históricas. “Temos que gerir o risco e temos que ter instrumentos preparados para quando aparecem os problemas poder  andar depressa”. Na União Europeia, acrescenta, estão cientes de que é necessário criar outro tipo de mecanismos: “Os instrumentos que temos estão vocacionados para outras realidades. Temos que pensar em novos modelos (…) olhar para o processo e redesenhá-lo”. 
Lembra que os seguros tiveram uma grande mudança há 10 anos, mas há hoje várias realidades, sendo a “flexibilidade” e a “agilidade” apontadas como questões-chave pelo presidente do IFAP I.P. “Os apoios têm de ser diferentes, mais curtos no tempo e de forma diferente”, salienta.
Por fim, defende que é preciso “cortar com as regras rígidas de antes” , que “a certa altura é preciso parar de discutir e andar para a frente. 
 Joel Vasconcelos, Diretor-Geral da Lusomorango, em entrevista ao Jornal Económico afirma que  “garantir água é criar riqueza, emprego, investimento e desenvolvimento para o país”.

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