Setor automóvel: Queixas por ações de ‘recall’ disparam mais de 450% este ano
As reclamações relacionadas com ações de ‘recall’ no setor automóvel dispararam 459% no primeiro semestre deste ano, face ao período homólogo, impulsionadas por novas regras nas inspeções e maior visibilidade do tema, revelam dados do Portal da Queixa.
De acordo com a análise da plataforma, entre janeiro e junho de 2026 foram registadas 123 reclamações, o que contrasta com as 22 contabilizadas no mesmo período de 2025. O total anual do ano passado tinha fixado-se nas 64 queixas.
O Portal da Queixa alerta que existem “falhas na execução” destes processos que podem colocar em risco a segurança dos condutores, embora sublinhe que o aumento exponencial das queixas não traduz necessariamente uma degradação do serviço pelas marcas, mas sim uma maior exposição e exigência face ao tema.
Em causa estão as ações de ‘recall’ (ações de chamada), um procedimento gratuito através do qual os fabricantes convocam os proprietários para corrigir defeitos ou anomalias detetadas em veículos já comercializados, que possam representar riscos para a segurança ou para o meio ambiente.
Segundo os dados divulgados, cerca de um terço das reclamações deste ano (32,5%) menciona a inspeção periódica obrigatória. Em cerca de 10% dos casos, foi precisamente nesse momento que os proprietários tomaram conhecimento de que o veículo tinha um ‘recall’ ativo.
Este cenário é indissociável das novas regras em vigor desde 1 de março de 2026, data em que qualquer veículo com um ‘recall’ não resolvido passou a reprovar automaticamente na inspeção periódica.
A par disso, a criação da plataforma nacional RECALL — desenvolvida pela Associação Automóvel de Portugal (ACAP) em parceria com o Instituto da Mobilidade e dos Transportes (IMT) — veio permitir aos cidadãos verificar, através da matrícula ou do VIN (número de chassis), se os seus veículos têm campanhas pendentes.
Nas ações de ‘recall’, as marcas têm a obrigação de contactar diretamente os proprietários por meios como carta, correio eletrónico, telefone ou SMS. No entanto, o Portal da Queixa nota que a mudança de proprietário e a falta de atualização de dados dificultam este contacto direto, mantendo-se a obrigatoriedade de divulgação pública e de reparação gratuita.
Apesar do novo enquadramento legal, os consumidores reportam várias dificuldades após a identificação do problema, tais como atrasos na reparação, falta de peças, falhas no agendamento e ausência de resposta por parte das marcas.
A maioria das reclamações incide sobre “Produto e Reparação” (62,02%), motivada por defeitos ou indisponibilidade de componentes. Seguem-se os problemas relacionados com “Serviço e Atendimento” (24,03%), a “Segurança e Conformidade Legal” (10,08%) e as “Garantias e Obrigações Contratuais” (3,88%).
Geograficamente, os distritos de Lisboa (22,48%) e do Porto (18,60%) concentram o maior número de ocorrências. A maioria dos reclamantes é do sexo masculino (72,09%), situando-se maioritariamente na faixa etária entre os 35 e os 54 anos.
Citado no comunicado, o fundador do Portal da Queixa, Pedro Lourenço, sublinha que “há, naturalmente, falhas que devem ser corrigidas”, mas aponta também para “limitações reais”, como a dificuldade de localização dos novos proprietários quando os veículos mudam de titular.
“O desafio passa por reforçar a eficácia dos processos, garantindo uma comunicação clara, respostas atempadas e capacidade de execução adequada — elementos críticos para a segurança rodoviária e para a confiança dos cidadãos”, conclui o responsável.
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