5 Ideias para o futuro do turismo
Há uma porta em Lisboa por onde passam todos os dias mais pessoas do que entram no Louvre, o museu mais visitado do mundo. Mais do dobro das que visitam a EuroDisney. Quase tantas quantas vivem em Santarém. Uma única porta, com três ou quatro metros de largura, onde milagrosamente nunca houve um problema grave. Falo da saída do aeroporto, claro – a eterna metáfora da nossa dificuldade em crescer.
Durante anos convencemo-nos de que o grande desafio do turismo era construir um novo aeroporto em Lisboa. Continua a ser. Mas aquela saída estreita lembra-nos que os problemas do turismo português não se resolvem apenas com grandes obras. Resolvem-se com centenas de decisões pequenas, práticas, urgentes. Como alargar uma porta.
O problema é que continuamos a gerir o turismo como se ainda estivéssemos na fase em que bastava fazê-lo crescer, quando há muito que deixou de ser isso. O turismo atingiu uma dimensão que exige uma forma completamente diferente de gestão e de respostas públicas. Como é possível que uma década depois do boom e da transformação urbana, social e económica que se seguiu, continuemos a gerir o setor praticamente com as mesmas estruturas, os mesmos instrumentos e as mesmas propostas?
Para não ficar pela crítica, proponho cinco ideias para pensarmos no turismo do futuro.
1. Responder aos irritantes antes que se transformem em crises
Todos os grandes setores económicos criam externalidades. O problema do turismo não é essa inevitabilidade. O problema é quando deixamos que essas pequenas fricções se transformem em grandes conflitos.
Tuk-tuks, trotinetes, camionetas de turismo, filas intermináveis nos monumentos, ruído, lixo, proliferação de lojas de souvenirs com produtos Made in China… Nenhum destes fenómenos surgiu de um dia para o outro. Cresceram lentamente, durante os últimos 10 anos, até se tornarem motivo de conflito entre residentes, empresas e visitantes. E salvo raras excepções, sem que ninguém tenha feito nada para os travar. É urgente fazê-lo.
Uma política moderna de turismo não se pode limitar a legislar quando o problema já explodiu. Deve ter capacidade para testar soluções, experimentar limites, corrigir rapidamente aquilo que não funciona e, sempre que necessário, recuar, recuar sem medo. Algumas cidades, por exemplo, limitaram o número de navios de cruzeiro anos depois de os terem autorizado. E natural, a realidade dita a mudança.
Outras criaram zonas específicas para autocarros turísticos. Outras regularam a circulação de tuk-tuks ou restringiram alojamento local em zonas históricas. O importante não é copiar nenhuma delas, mas copiar a iniciativa. Criar uma cultura de resposta rápida, baseada em evidência e não em ideologia.
Um setor que muda tão depressa não pode esperar anos por respostas.
2. Planear a oferta, em vez de assistir ao seu crescimento
Há uma pergunta básica que qualquer país dependente do turismo tem de saber responder: que oferta turística queremos ter daqui a dez anos?
Quantos hotéis de cinco estrelas? Quantos hotéis económicos? Quanto alojamento local? Em que cidades e zonas? Para que segmentos? E queremos crescer sobretudo no turismo de natureza? Nos congressos? Na gastronomia? No luxo? No desporto? Nas estadias longas? Nos nómadas digitais? Nas famílias? E, se sim, quanto, como, onde?
Até é provável que exista um documento para cada uma destas perguntas, enterrado num qualquer plano palavroso, numa estratégia europeia ou num esquecível powerpoint. Mas os empresários conhecem-na? Os investidores conseguem antecipá-la? Os autarcas tomam decisões em função dela? A sociedade sabe explicá-la? Se a resposta for não — e sabemos que é — então a estratégia existe no papel, mas não na realidade.
O preço dessa inexistência está à vista: cada promotor investe onde vê oportunidade, cada município promove o que consegue e o país acaba por descobrir o turismo que tem pela simples soma dessas decisões. Não porque alguém o tenha pensado, mas porque ninguém o pensou.
Planeamos redes ferroviárias, portos, hospitais ou escolas porque sabemos que o território não se organiza sozinho. Em que momento achámos razoável que um dos maiores setores económicos do país dispensasse uma reflexão igualmente estratégica sobre a sua evolução?
3. Dados, dados e mais dados
Portugal produz hoje muito mais informação sobre turismo do que produzia há vinte anos. E com muito melhor qualidade. Mas um setor desta dimensão precisa de mais do que números. Precisa sobretudo de inteligência e rapidez.
Os empresários nacionais, em primeiro lugar, a quem tanta iniciativa se pede, só podem investir com mais confiança se conhecerem tendências de procura quase em tempo real. Dou um exemplo prático e atual: temos dezenas de chefs e hoteleiros a queixar-se publicamente de uma quebra súbita de procura e de gastos. As estatísticas mais recentes, no entanto, algumas com mais de seis meses, dizem exatamente o contrário. Quem tem razão? Saberemos quando já for tarde para acertar o rumo.
O problema não se fica pelos privados. Os municípios precisam de antecipar fluxos de visitantes para organizarem limpeza urbana, mobilidade ou segurança. Os aeroportos precisam de prever todos os picos de procura para poder gerir os poucos recursos que têm. As autoridades de protecção civil, os transportes públicos, as entidades culturais e até o comércio local beneficiariam muito de uma leitura integrada do que está a acontecer.
Num país onde o turismo representa uma fatia tão significativa da economia, a informação não pode continuar dispersa, tardia ou difícil de utilizar. Quanto mais aberto, integrado e acessível for o conhecimento sobre o setor, mais profissional será todo o ecossistema que vive dele. É suicidário ignorar isto.
4. Explicar melhor o turismo aos portugueses
O antiturismo é dos fenómenos culturais que mais cresceu nos últimos anos. Muitas vezes, para não dizer sempre, graças ao vazio das explicações.
Não é que não haja razões para o desconforto – há e são muitas. Os custos do turismo afetam os portugueses todos os dias. Nos preços inflacionados dos produtos e da habitação, nas filas, no trânsito, no ruído, na transformação constante de alguns bairros. Muito menos visíveis, no entanto, são os benefícios estruturais: o emprego criado, as exportações invisíveis, a recuperação do património, a sobrevivência de milhares de empresas, a programação cultural, o investimento estrangeiro e o desenvolvimento de regiões inteiras antes abandonadas.
Tudo isto tem de ser comunicado aos cidadãos. Se quer ser resiliente e bem recebido, o setor do turismo não se pode limitar a falar com os seus clientes. Tem de saber comunicar para a sociedade onde existe e da qual depende.
Isso não significa propaganda. Significa transparência. Explicar decisões. Publicar resultados. Reconhecer problemas. Mostrar benefícios. Envolver residentes. Uma actividade económica como o turismo, que transforma profundamente o país, precisa de manter uma licença social para continuar a crescer.
5. Definir o que é sucesso
Durante demasiado tempo, a estratégia do turismo português resumiu-se a crescer. Continuamos, aliás, ainda nos dias de hoje, a avaliar o setor através dos números de hóspedes, dormidas e receitas. Admito que fizesse sentido quando o desafio era colocar Portugal no mapa. Hoje já não faz.
O verdadeiro problema é outro: continuamos sem decidir o que queremos alcançar.
Um destino de sucesso não é necessariamente o que recebe mais turistas. É o que consegue transformar o turismo em mais prosperidade, mais património recuperado, melhores cidades, mais cultura, melhores empregos e uma reputação internacional mais forte.
É por isso que a pergunta decisiva deixou de ser quantos turistas queremos receber. Passou a ser muito mais simples: que Portugal queremos que os turistas conheçam?
Só depois de responder a essa pergunta faz sentido definir indicadores. Porque os indicadores existem para medir uma estratégia, nunca para a substituir.
Voltando à porta do aeroporto — uma imagem que devo a um post de um bom amigo — talvez ela nunca tenha sido apenas uma porta. É o retrato de um país que, durante demasiado tempo, assistiu ao crescimento do turismo como quem comenta ao tempo: ora lamentando a chuva, ora celebrando o sol, mas raramente tentando mudar a previsão.
O turismo não é um fenómeno natural. É uma escolha coletiva. E, como todas as escolhas, começa por uma estratégia. E só corre bem se houver coragem.
* empresário e consultor
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