F1: A promessa falhada da Williams
Depois da surpresa de 2025, a desilusão de 2026. A Williams prometeu muito na época passada e tudo apontava para uma era de confirmação, mas este novo regulamento colocou a nu muitas fragilidades que ainda persistem na estrutura britânica que tenta regressar ao topo e reparar as mazelas da falta de investimento ao longo dos últimos anos.
A Williams terminou 2025 em quinto lugar, com 137 pontos conquistados e dois pódios, vindos de uma temporada 2024 em que tinha ficado em nono com 17 pontos. O trabalho feito no FW47 permitiu à equipa excelentes resultados, de tal forma que começou relativamente cedo a olhar para 2026 e os seus desafios. Foi assumido que os novos regulamentos eram olhados como uma oportunidade para dar um salto na ordem competitiva e aproximar a equipa do topo. A realidade mostrou algo bem distinto, com uma abordagem completamente falhada.
A Williams foi a única equipa a não participar no teste privado em Barcelona, entre 26 e 30 de janeiro, devido a atrasos no programa de desenvolvimento do FW48. Para compensar, a equipa recorreu a um “Virtual Track Test” (VTT) na fábrica em Grove, testando chassis, motor, caixa de velocidades e travões reais num banco de ensaio. O primeiro contacto real com a pista só aconteceu a 4 de fevereiro, num shakedown em Silverstone com Alex Albon e Carlos Sainz, usando uma pintura especial escolhida pelos fãs. James Vowles destacou dados positivos recolhidos indiretamente através de outras equipas fornecidas pela Mercedes (a própria Mercedes, McLaren e Alpine) durante o teste que a Williams falhou em Barcelona.
Boa recuperação no Bahrein, mas longe dos objetivos
Apesar do atraso inicial, a equipa recuperou terreno nos dois testes oficiais em Sakhir. No primeiro teste (11-13 de fevereiro), a equipa somou 277 voltas nos primeiros dois dias e a Williams voltou a mostrar solidez. No total, a equipa completou 790 voltas e 4.275 km ao longo dos dois testes de Bahrein, terminando com o terceiro maior volume de quilometragem de toda a grelha — um sinal encorajador de fiabilidade do FW48.
A dura realidade
Na Austrália, corrida de abertura, nenhum dos pilotos pontuou, com Albon em 12º e Sainz em 15º. A equipa começou a somar pontos já na China, com Sainz em 9º (Albon não chegou a arrancar, DNS), mas voltou a ficar a zeros no Japão. Miami trouxe o melhor resultado conjunto da temporada até então, com Sainz 9º e Albon 10º, somando 3 pontos. No Canadá, Sainz voltou a pontuar em 9º, enquanto Albon abandonou a corrida. Mónaco foi a melhor corrida isolada da equipa, com Albon a terminar 8º e a somar a maior pontuação de um só piloto na temporada.
Veio o GP de Barcelona e as atualizações mais profundas das equipas, que afastaram a Williams, do topo, de tal forma que leva cinco corridas consecutivas sem pontuar. As palavras de James Vowles, diretor de equipa mostram bem a realidade do que têm sido os últimos meses:
“Não estamos ao nível de lutar pelo campeonato. É algo que venho referindo há três anos e que volto a referir hoje. Não estamos. Quem me dera que estivéssemos. Ficamos expostos nestas grandes alterações regulamentares. Precisamos de uma equipa e de uma estrutura de apoio, de processos e de equipamento à nossa volta que, quando o jogo muda — como acontece com um conjunto de regras —, não nos façam recuar. A magnitude do nosso retrocesso surpreendeu-me, e se não fosse assim teria sido mais claro ao comunicá-lo, mas a verdade é que aconteceu. O nosso papel nesta situação é garantir que fazemos um balanço, corrigimos o problema e seguimos em frente. É tão simples quanto isso. Estou confiante, tal como no ano passado, de que nos vão ver dar um passo em frente. Não tenho a menor dúvida quanto a isso.”
Ninguém esperava um tombo tão grande, nem a própria equipa, e a evolução tem sido tudo menos animadora. As atualizações não têm permitido grandes melhorias e a Williams está um ponto atrás da Audi, com uma nova unidade motriz feita de raiz. O descontentamento dos pilotos começa-se a fazer sentir e os rumores de potenciais saídas vão se intensificando. Mais uma vez, a Williams parece decidida em fazer deste, mais um ano de transição enquanto afina e melhora tudo que tem de melhorar.
Equilíbrio nos pilotos, até na insatisfação
Carlos Sainz e Alex Albon são uma das duplas mais sólidas da F1, algo provado pelos resultados do ano passado. Sainz conseguiu dois pódios no seu primeiro ano pela Williams enquanto Albon continua a dar estabilidade, apesar de a segunda metade do ano passado não ter sido tão boa quanto o que já tínhamos visto do tailandês.
Sainz chegou à Williams com muita expetativa, depois avanços e recuos na sua decisão de assinar pela equipa de Grove. O espanhol optou pela estrutura britânica e deixou de lado o convite da Audi. A mudança começou mal, mas terminou da melhor forma, com bons resultados pela equipa. Mas 2026 trouxe um cenário diametralmente oposto. No ano passado, por esta altura, Sainz tinha 13 pontos marcados e marcaria mais 51 na segunda metade. Este ano tem seis pontos, duas desistências (tantas quanto na primeira metade de 2025) e é o melhor piloto da equipa… por um ponto. E não se antevê que possa fazer uma segunda metade como a que fez em 2025.
O descontentamento de Sainz é claro e os boatos de que poderia estar a tentar nova abordagem com a Audi reforçam esse desconforto do espanhol que tem sido muito claro nas suas declarações. Ao nível da sua performance, Sainz não se tem destacado particularmente, vítima da falta de performance do seu carro. Mas Sainz é extremamente profissional e certamente que estará a tentar ajudar a equipa a melhorar. Resta saber se a equipa fará o suficiente para aproveitar as capacidade do seu piloto.
Alex Albon vem de uma temporada 2025 de altos e baixos e em 2026 parece estar ainda nessa fase. Albon não tem comprometido a equipa e tem apenas menos um ponto que Sainz e no confronto direto, este é um dos mais equilibrados. O que se nota mais é a crescente frustração de um piloto que antes era pouco vocal e que agora não tem problema em apontar o dedo à equipa, uma atitude que foi pedida por Vowles e que agora acontece em abundância. Albon tornou-se no piloto com mais corridas pela Williams e não parece que o seu futuro passe por outra estrutura, mas até o seu nome foi associado brevemente uma possível saída.
Um pouco à imagem da Cadillac e da Aston Martin, os pilotos da Williams têm tido pouca culpa na situação atual da equipa. Terão de manter a motivação numa temporada que se esperava bem mais entusiasmante.
Notas
Williams – Nota 3
Carlos Sainz – Nota 5
Alex Albon – Nota 5
Foto: MPSA
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