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“Portugal tem um dos parques automóveis mais envelhecidos da Europa”, lamenta secretário-geral da ANECRA

“Portugal tem um dos parques automóveis mais envelhecidos da Europa”, lamenta secretário-geral da ANECRA

O mercado automobilístico em Portugal vive um “verdadeiro paradoxo”, destaca Roberto Gaspar, secretário-geral da ANECRA: “Enquanto as políticas públicas procuram acelerar a descarbonização através da eletrificação do parque automóvel, o mercado responde com um aumento das importações de automóveis usados, contribuindo para o envelhecimento do parque automóvel nacional”.
De acordo com dados da ACAP (Associação Automóvel de Portugal), 1,6 milhões de viaturas tinham mais de 20 anos de idade em 2024. Na mesma altura, foi estimado que os ligeiros de passageiros (a grande maioria do parque automóvel do país) tinham uma idade média de 14,1 anos. Os pesados de passageiros (15,8 anos) e os ligeiros de mercadorias (16,1 anos) apresentam idades médias superiores.
As vendas de veículos novos em Portugal continuam com boa performance: entre janeiro e julho entraram em circulação 180.423 veículos novos em Portugal, um aumento de 10,2% face ao mesmo período de 2025. Este crescimento já superava os números registados a nível europeu, onde a UE tinha cresceu 5,7% até junho.
Portugal continua a ter um dos parques automóveis mais envelhecidos da Europa, numa altura em que o setor atravessa a maior e mais rápida transformação dos seus mais de cem anos de história. Mudança é simultaneamente tecnológica, económica, regulatória, geopolítica e dos próprios modelos de negócio.
O parque automóvel cresceu 13% nos últimos cinco anos. Que desafios colocam estes números para a mobilidade em Portugal?

À primeira vista o crescimento do parque automóvel pode parecer um sinal muito positivo, mas importa perceber de onde resulta esse aumento. Na realidade, o parque automóvel português não cresceu porque se vendem muito mais automóveis novos. As vendas de viaturas novas recuperaram para níveis muito próximos dos registados antes da pandemia, em 2019. O crescimento do parque tem sido assegurado, sobretudo, pela importação de mais de 120 mil viaturas usadas por ano, com uma idade média próxima dos oito anos.
Este fenómeno resulta, em grande medida, de um profundo desajustamento entre a oferta e a procura no mercado dos veículos novos. Nos últimos anos, fruto da conjugação entre a crescente exigência regulamentar europeia, a transição energética e a incorporação de novas tecnologias, os automóveis evoluíram extraordinariamente em termos de segurança, eficiência, conectividade e eletrificação. Essa evolução trouxe benefícios inegáveis, mas também contribuiu para um aumento muito significativo do preço médio das viaturas novas.
Como consequência, um segmento muito importante de consumidores, tradicionalmente responsável por uma parte significativa das vendas de veículos novos, sobretudo nos segmentos médio-baixo e baixo, deixou de ter capacidade financeira para adquirir um automóvel novo e passou a procurar essa solução no mercado de usados. Ora, como a oferta nacional de veículos usados é insuficiente para responder a essa procura, Portugal tem recorrido de forma crescente à importação de viaturas usadas, explicando uma parte muito significativa do crescimento do parque automóvel.
Estamos, por isso, perante um verdadeiro paradoxo. Enquanto as políticas públicas procuram acelerar a descarbonização através da eletrificação do parque automóvel, o mercado responde com um aumento das importações de automóveis usados, contribuindo para o envelhecimento do parque automóvel nacional. Hoje continuamos a ter um dos parques automóveis mais envelhecidos da Europa, com uma idade média próxima dos 15 anos, o que tem consequências ao nível das emissões, da eficiência energética e da segurança rodoviária.
É precisamente por isso que considero que as políticas públicas devem olhar para esta realidade de uma forma mais integrada. O verdadeiro desafio não é apenas acelerar a transição para o veículo elétrico; é garantir que essa transição seja economicamente acessível à maioria dos portugueses. Caso contrário, estaremos a acelerar a eletrificação das vendas de veículos novos, mas a atrasar a renovação do parque
automóvel nacional.
Uma em cada cinco viaturas importadas usadas em Portugal já são viaturas elétricas. Como está a crescer este mercado em Portugal?
O crescimento das importações de veículos elétricos usados demonstra que a mobilidade elétrica entrou numa nova fase de maturidade. Durante vários anos, os veículos elétricos foram sobretudo um fenómeno do mercado dos veículos novos. Hoje começam, cada vez mais, a chegar ao mercado onde verdadeiramente se decide a renovação do parque automóvel português: o mercado dos usados.
Durante algum tempo, muitos operadores do comércio de veículos usados olharam para este segmento com alguma prudência. Existia um receio legítimo de investir em stock de automóveis cuja tecnologia evoluía muito rapidamente, com o consequente risco de obsolescência e de desvalorização. Essa realidade alterou-se profundamente.
A tecnologia amadureceu, a autonomia aumentou significativamente, os preços tornaram-se mais competitivos e os consumidores passaram a encarar o veículo elétrico com um nível de confiança muito superior ao que existia há apenas alguns anos. Também fatores conjunturais, como a instabilidade geopolítica internacional e a volatilidade dos preços dos combustíveis fósseis, contribuíram para acelerar esta
mudança.
Em 2025, cerca de 21% das viaturas ligeiras usadas importadas eram totalmente elétricas. Se lhes juntarmos os híbridos plug-in e os híbridos convencionais, verificamos que 36% das viaturas importadas já utilizam motorizações de energias alternativas. Em sentido inverso, o Diesel, que há apenas dois anos representava cerca de metade das importações, caiu para cerca de 33%. Mais do que o crescimento do veículo elétrico, estes números demonstram uma profunda alteração do mix das motorizações e confirmam que o mercado está a encontrar, de forma natural, um novo equilíbrio entre diferentes tecnologias, respondendo às necessidades e à capacidade financeira dos consumidores.
Na minha opinião, este movimento é praticamente irreversível. Talvez não aconteça ao ritmo inicialmente previsto por alguns fabricantes, que investiram milhares de milhões de euros no desenvolvimento de plataformas exclusivamente elétricas, mas dificilmente assistiremos a um retrocesso. A eletrificação continuará a ganhar peso, acompanhando a evolução tecnológica, a realidade económica e a confiança dos consumidores.
Também o perfil do comprador mudou profundamente. Hoje existe um consumidor muito mais informado, que compara autonomias reais, estado das baterias, custos de utilização, custos de carregamento, atualizações de software e valor residual dos veículos. A decisão de compra de um veículo elétrico tornou-se muito mais racional, tecnológica e informada do que acontecia há apenas alguns anos.
Existe, contudo, um desafio que considero particularmente importante em Portugal: a infraestrutura de carregamento.
Embora a rede pública tenha vindo a crescer, continua longe de acompanhar o ritmo da evolução do parque de veículos eletrificados. Se queremos consolidar esta evolução, será indispensável continuar a investir na expansão da infraestrutura de carregamento, garantindo maior cobertura territorial, maior capacidade instalada e uma experiência de utilização mais simples, fiável e previsível.
Estou convicto de que será o mercado dos veículos usados a democratizar verdadeiramente a mobilidade elétrica. A transição só estará plenamente consolidada quando uma família de classe média puder adquirir, com confiança e a um preço acessível, um veículo elétrico, novo ou usado. Nesse momento, a mobilidade elétrica deixará definitivamente de ser um nicho para passar a fazer parte do quotidiano dos portugueses.
Os maiores desafios à atividade passam pela concorrência entre operadores, crescimento dos grandes operadores e garantias de veículos cada vez mais longas. Como evoluirão estas dificuldades?
Mais do que discutir a concorrência entre operadores ou a duração das garantias, importa perceber que o setor automóvel atravessa a maior e mais rápida transformação dos seus mais de cem anos de história. Estamos perante uma mudança simultaneamente tecnológica, económica, regulatória, geopolítica e dos próprios modelos de negócio.
Durante décadas, o mercado funcionou segundo um modelo relativamente estável. Os fabricantes produziam, os importadores distribuíam, os concessionários comercializavam veículos e asseguravam o serviço após-venda, enquanto o comércio de usados era maioritariamente desenvolvido por pequenos e médios operadores locais.
Hoje, esse paradigma está a mudar rapidamente. Assistimos ao aparecimento de grandes grupos automóveis que deixaram de ser apenas operadores de retalho para se transformarem em verdadeiros fornecedores de soluções integradas de mobilidade.
Comercializam veículos novos e usados, detêm redes de oficinas, distribuem peças, gerem frotas e disponibilizam soluções de renting, rent-a-car, subscrição e outros serviços de mobilidade. Em muitos casos, assumem igualmente a representação de novas marcas, em particular chinesas, acompanhando a profunda transformação tecnológica da indústria e a entrada de novos fabricantes no mercado europeu.
Esta crescente integração vertical está a redesenhar profundamente o equilíbrio concorrencial do mercado, concentrando num número cada vez menor de operadores atividades que, tradicionalmente, se encontravam distribuídas por diferentes empresas especializadas.
A concorrência continua a existir, mas assume hoje contornos muito diferentes. A competitividade deixou de depender apenas da capacidade de vender automóveis ou de prestar um bom serviço após-venda. Passa, cada vez mais, pela capacidade de integrar serviços, utilizar tecnologia, gerir dados e construir uma relação duradoura com o cliente ao longo de todo o ciclo de vida do veículo. É este o verdadeiro desafio estratégico que o setor enfrenta.
Paralelamente, surgiram novos modelos de negócio que vieram alterar profundamente a cadeia de distribuição tradicional. A Tesla demonstrou que é possível vender automóveis praticamente sem concessionários físicos, recorrendo a plataformas digitais e a uma relação direta com o cliente.
Hoje já não competem apenas fabricantes de automóveis. Competem ecossistemas completos de mobilidade. O software, os dados, a conectividade, a energia, os serviços digitais, o após-venda e a relação permanente com o cliente passaram a ser fatores tão importantes como o próprio veículo. Quem conseguir integrar melhor todo este ecossistema será quem liderará a mobilidade do futuro.
Também o mercado dos usados sofreu uma profunda transformação. Hoje representa cerca de quatro vezes o volume do mercado dos veículos novos e tornou-se absolutamente estratégico para toda a indústria. Os grandes grupos de retalho, as gestoras de frota e as empresas de renting passaram igualmente a disputar este mercado, aumentando significativamente a concorrência.
Quanto às garantias, importa distinguir realidades: no mercado dos veículos novos, as garantias mais longas resultam da enorme evolução tecnológica e qualitativa dos automóveis e constituem hoje um importante argumento comercial e de fidelização. Já no mercado dos veículos usados, a alteração legislativa introduzida em 2022, aumentou significativamente a responsabilidade e a exposição ao risco dos operadores. Portugal passou a ter um dos regimes de garantia mais exigentes da Europa: três anos de garantia para os bens de consumo e, no caso dos veículos usados, um período mínimo de dezoito meses, salvo acordo expresso entre as partes. Em muitos países europeus, o prazo legal é de apenas um ano para veículos usados. Esta diferença tem um impacto muito relevante nos custos, no risco empresarial e na competitividade dos operadores portugueses. Ainda assim, continuo a considerar que esse não é hoje o principal desafio.
Os verdadeiros desafios passam pela capacidade de adaptação das empresas à profunda transformação da indústria: digitalização, eletrificação, veículos definidos pelo software (software-defined vehicles), acesso aos dados dos veículos, inteligência artificial, qualificação permanente dos profissionais e preservação de uma concorrência efetiva em toda a cadeia de valor. É precisamente para apoiar as empresas nesta transformação que a ANECRA tem vindo a reforçar a sua aposta na qualificação dos profissionais, na transição digital, na eletrificação e na defesa de um enquadramento regulatório que preserve uma concorrência justa e efetiva no mercado.
Em última análise, o grande desafio da próxima década será garantir que Portugal e a Europa conseguem preservar um setor automóvel competitivo, inovador e tecnologicamente avançado, sem comprometer a concorrência, a liberdade de escolha dos consumidores e a sustentabilidade dos milhares de pequenas e médias empresas que continuam a constituir a espinha dorsal do tecido empresarial do setor automóvel português.

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