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Transformar a IA em negócio. Estudo indica que este é o maior desafio das empresas

Transformar a IA em negócio. Estudo indica que este é o maior desafio das empresas

A Inteligência Artificial (IA) continua a dominar a agenda tecnológica da maioria das empresas. Segundo o TechRadar 2026, um estudo desevolvido pela grupo Devoteam que envolveu 11 mil especialistas e arquitetos digitais em 25 países na Europa, África e Oriente Médio, “o verdadeiro retorno do investimento em IA não está nas ferramentas generalistas, mas na sua aplicação especializada e integrada nos processos de negócio”. Ao JE, Bruno Tavares, Chief Technology Officer da Devoteam Portugal, assinala onde estão os principais erros em relação à tecnologia. 
As empresas estão a falhar na forma como usam a tecnologia, segundo o estudo Tech Radar 2026. Em que sentido?
A execução falha em vários vetores em simultâneo e é precisamente esse o ponto. Não na cloud ou na Inteligência Artificial (IA) isoladamente mas na incapacidade de ligar tecnologia a um problema de negócio concreto e depois escalar o que funciona. O dado mais revelador de 2025 vem do MIT: apesar dos 30 a 40 mil milhões de dólares (26 a 34,6 milhões de euros) investidos em IA generativa, cerca de 95% das organizações não obtiveram qualquer retorno que considerem ter impacto mensurável. Não por falta de tecnologia, mas por dispersão, ausência de foco e falta de visibilidade sobre dados e processos. 
Os valores de investimento são o obstáculo?
Não é o principal. O problema raramente é gastar pouco, mas sim gastar mal. Estima-se que cerca de um terço do gasto em cloud seja consumido sem gerar valor tangível, muitas vezes por se migrar sistemas legados sem os repensar. Ou seja, a barreira não é financeira, nem tecnológica, é organizacional.
Esta é também a realidade para as empresas portuguesas?
Totalmente. E talvez com ainda mais força face à nossa realidade. Portugal é um país de PME, que representam 99,9% das empresas e quase 78% do emprego. O discurso de “escolher com rigor” e “executar com foco” é mais relevante para quem tem recursos limitados do que para uma multinacional. Uma PME não se pode dar ao luxo de investir em dez provas de conceito que não escalam.
Mas o paradoxo português é interessante porque temos um Estado digital de referência, cobertura de 5G quase universal e fibra com uma cobertura quase total do território. Mas a adoção empresarial de tecnologia fica atrás: só 34% das empresas usam cloud, contra 47% na média europeia, e a adoção de IA nas PME ronda os 11%, contra cerca de 20% na Europa.
Ou seja, a infraestrutura já existe, o que falta é a camada de execução e de competências que transforma essa base em valor.  É exatamente aqui que está a oportunidade. Não estamos a partir do zero,  existe uma base sólida, mas subaproveitada. 
O estudo indica ainda que a “verdadeira transformação digital continua a ser, acima de tudo, uma transformação organizacional”? 
Há décadas que os dados mostram o mesmo: mais de 70% das transformações falham, e quase nunca por razões técnicas. Falham por falta de ambição, de envolvimento das pessoas e de investimento em capacidades. Que organização podem as empresas portuguesas construir?
Antes de mais, uma organização com uma visão e um propósito partilhados, capazes de alinhar todos na jornada de transformação. A partir daí, equipas multidisciplinares que juntam competência tecnológica e conhecimento de negócio, organizadas em torno de resultados e não de funções. Depois, a adoção de uma lógica de produtos e plataformas, com propriedade partilhada entre negócio e tecnologia. E, por último, tratar a automatização e a digitalização como veículo para atingir essa visão, e não como o elemento central da transformação. É essa a inversão mais importante: a tecnologia ao serviço de um propósito, e não o propósito moldado à tecnologia. 
Qual será o impacto no caso das empresas mudarem o paradigma?
O impacto na produtividade é real e já começa a ser documentado. Programadores com assistentes de IA completam tarefas até 55% mais depressa; em call centers estima-se um aumento de aproximadamente 14% de produtividade. Um exemplo mais explícito vem também do desenvolvimento de software.
Na Google, cerca de 75% de todo o novo código é agora gerado por inteligência artificial, face aos 50% do outono anterior e há pouco mais de um ano essa fatia era de apenas 25%. Estes casos mostram-nos a transição que estamos a viver: do assistente de IA simples para os agentes e ecossistemas autónomos. Estes agentes inferem, interagem entre plataformas e executam processos complexos de forma autónoma.
Grandes organizações em setores como a banca ou a logística, que integraram estas arquiteturas diretamente nos seus fluxos, conseguem reduzir os ciclos de dias para minutos, sem interrupções. É essa a grande mudança no capital humano das nossas empresas que liberta capacidade para trabalho de maior valor. O custo marginal de muitos serviços  tende para zero, e parte doscustos desloca-se de trabalho para computação e dados.
Ou seja, a empresa pode crescer em resultado sem crescer em custo na mesma proporção. No entanto esta equação ainda não é totalmente conhecida dada a variabilidade dos custos de inferência, por isso é mais honesto assumir que esta transformação não elimina custos,  reorganiza-os.   
As questões da cloud passaram também  a ser de soberania. As empresas têm noção dessa mudança?
Durante anos, a soberania foi tratada como um assunto de conformidade. Hoje passou a ser operacional. As empresas já não valorizam unicamente a conformidade, mas a continuidade do negócio caso percam o acesso à infraestrutura,seja por ciberataque, disrupção geopolítica ou falha operacional. Do ponto de vista do investimento, assistimos a uma aceleração muito acentuada em cloud soberana, sobretudo na Europa. Do ponto de vista estratégico,vemos também um foco crescente na governança e na regulamentação, e um dos sinais é a publicação, este ano, do Cloud and AI Development Act da Comissão Europeia, com grande ênfase na soberania. Sendo o tema bastante complexo, o ponto positivo é que vemos hoje, e cada vez mais, as nossas empresas a tomar a decisão consciente de incorporar a soberania no desenho da sua estratégia. 

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