Brasília e Washington medem forças em vésperas de eleições
As relações diplomáticas entre o Brasil e os Estados Unidos enfrentam uma crise histórica inédita, que alguns analistas consideram ser sem precedentes, desencadeada por uma escalada de retaliações políticas e comerciais entre o governo de Luiz Inácio Lula da Silva e a administração de Donald Trump. O atual cenário de hostilidade resultou de um impasse diplomático: a tensão atingiu o nível mais grave na primeira semana de agosto, com trocas diretas de sanções diplomáticas – tudo a menos de dois meses das eleições presidenciais de outubro.
O Brasil decidiu barrar a entrada de membros do Departamento de Estado norte-americano que pretendiam avaliar a integridade do sistema eleitoral brasileiro antes das eleições de outubro. O governo de Lula da Silva classificou o ato como interferência inaceitável nos assuntos internos e em retaliação imediata, a administração Trump revogou o visto da embaixadora do Brasil em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti e que só restabelecerão o seu estatuto da embaixadora quando o Brasil aprovar Daniel Perez, o nome indicado por Trump para assumir a embaixada norte-americana em Brasília.
Lula considera Perez um ultra-conservador que terá na agenda a interferência – favorecendo o lado de Flávio Bolsonaro, o filho do anterior presidente Jair Bolsonaro que tenta impedir um quarto mandato do líder do PT – nas eleições presidenciais de outubro. E disse que só aceitará a sua nomeação depois dessas eleições. Perez é um aliado próximo de Marco Rubio (líder do Departamento de Estado norte-americano), integrando um projeto político focado em combater o que classifica como “terrorismo de extrema-esquerda” na região da América Central e do Sul.
De acordo com o Artigo 4º da Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas, a indicação de um embaixador exige uma consulta prévia e estritamente confidencial ao país recetor. A administração Trump quebrou este protocolo ao anunciar publicamente o nome de Daniel Perez nos canais oficiais semanas antes de enviar o pedido formal de ‘agrément’ ao Brasil. Embora O próprio Daniel Perez formalizou entretanto a sua carta de renúncia ao mandato de deputado estadual (republicano) da Flórida (que produzirá efeitos a 21 de agosto), assinalando que está pronto para assumir o cargo em Brasília assim que o impasse seja resolvido.
Paralelamente, os dois países envolveram-se numa disputa no plano económico: os Estados Unidos impuseram tarifas de 25% sobre uma vasta gama de produtos brasileiros, sob a alegação oficial de combater práticas comerciais desleais – mas Brasília vê as taxas como uma retaliação de teor puramente ideológico e político promovida por Washington. O impacto destas medidas afeta severamente os setores agroindustrial e de exportação de estados fortemente produtores do Brasil.
Lula afirmou que todo o problema é injustificado para dois países com mais de dois séculos de relações diplomáticas, acrescentando que o Brasil não receberá novos embaixadores antes das eleições gerais marcadas para outubro. ” Exigimos ser tratados com respeito”, disse Lula.
As presidenciais realizam-se no próximo dia 4 de outubro, mas o vencedor só será conhecido a 25 de outubro, data da segunda volta – na qual, sem qualquer dúvida, estarão Inácio Lula da Silva, um velho conhecido de todos os brasileiros, e Flávio Bolsonaro, um velho conhecido do anterior presidente, Jair Bolsonaro, de quem é filho. Será mais uma vez, como tem sido nos últimos anos, um renhido combate entre a esquerda e a direita.
Convém recordar que os Estados Unidos também estão em período eleitoral: as eleições intervalares são já em novembro. Não parece haver qualquer tipo de reciprocidade na forma como Trump está a imiscuir-se nas eleições brasileiras, mas a dureza de tratamento de um regime sul-americano ‘inimigo’ serve também propósitos internos: com os EUA de Trump ninguém brinca.
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