Investidores estrangeiros retiram 1,7 mil milhões de euros da Bolsa brasileira em agosto
O fluxo de investidores estrangeiros, que levou a Bolsa brasileira a rondar os 200 mil pontos e ajudou o dólar a chegar aos níveis mais baixos desde 2024 no primeiro semestre, voltou a recuar em agosto, em meio às incertezas provocadas pela guerra no Irão.
Segundo dados da B3, o saldo dos investidores internacionais está negativo em 7,2 mil milhões de reais (1,20 mil milhões de euros) este mês. No acumulado de 2026, o saldo mantém-se positivo em 33,8 mil milhões de reais (5,65 mil milhões de euros).
Agosto, por enquanto, surge como o segundo pior mês do ano em termos de saldo, atrás apenas de maio. Nesse mês, o saldo de entrada e saída de investidores estrangeiros também foi afetado pela persistência do conflito, e o resultado foi negativo em 13,3 mil milhões de reais (2,22 mil milhões de euros).
O movimento do fluxo estrangeiro é contrário ao observado no início do ano. Em janeiro, o volume de recursos estrangeiros que entrou na Bolsa foi de 26,5 mil milhões de reais (4,43 mil milhões de euros) — valor semelhante ao registado em todo o ano de 2025.
Parte do entusiasmo era motivada pela expectativa de que a Selic recuaria para a faixa dos 12%. A descida da taxa de juro básica aumentava o apetite por ativos do mercado acionista local face à renda fixa. Agora, a projeção é de apenas mais uma redução de 0,25 pontos percentuais na taxa, levando-a para 13,75%.
A Bolsa era também beneficiada pela narrativa predominante de diversificação das carteiras globais. Em meio às instabilidades causadas pela política externa, comercial e económica de Donald Trump nos Estados Unidos, os investidores globais estavam a apostar em mercados menos expostos às incertezas e com elevado potencial de retorno.
“O Brasil beneficiou diretamente deste movimento por combinar preços relativamente descontados, elevada liquidez e uma composição de empresas bastante diversificada, especialmente nos setores financeiro, das matérias-primas e da energia”, diz Heitor de Nicola, especialista em renda variável da AVIN.
A guerra no Irão inverteu o movimento. Os investidores globais passaram a puxar o travão de mão nas alocações em mercados emergentes e a procurar ativos de maior liquidez.
O índice DXY, que mede o desempenho do dólar face a um cabaz de seis moedas fortes, recuava 0,72% até ao início do conflito. Desde então, inverteu o movimento e acumula uma subida de 2,46% desde o final de fevereiro, quando ocorreram os primeiros ataques dos EUA e de Israel contra o Irão.
Com o conflito, cresce entre os analistas o receio de uma inflação persistente, o que pode levar o Copom a manter os juros em níveis elevados por mais tempo ou a fazer cortes mais espaçados. O mesmo acontece nos EUA, onde a Fed (Reserva Federal, banco central norte-americano) tem mantido a taxa entre 3,5% e 3,75% ao longo de 2026.
O mercado acionista local enfrenta também a concorrência das Bolsas norte-americanas. No acumulado de 2026, o S&P 500 valoriza 13,12%, enquanto o Nasdaq regista um avanço de 14,29%. O Ibovespa, índice de referência do mercado acionista brasileiro, regista uma subida de cerca de 4%.
“A questão da IA ajuda a puxar um pouco o fluxo para a Bolsa norte-americana. Nós não temos nada de inteligência artificial no Brasil. Com o mercado mais otimista quanto a esse tema, o fluxo das empresas de maior valor do Brasil acaba por se perder para empresas com teses de crescimento, como a IA”, diz Gabriel Mota, especialista em renda variável da Manchester Investimentos.
O risco eleitoral brasileiro também passou a pesar entre os analistas. Nesta terça-feira (dia 11), o banco JPMorgan reduziu a recomendação para as ações brasileiras de “overweight” (acima da média) para “neutra”.
O banco referiu a volatilidade associada às eleições no Brasil. Segundo a instituição, em períodos eleitorais, a Bolsa brasileira tende a apresentar um desempenho inferior.
Alexandre Siqueira, analista CNPI do Grupo Fractal, afirma que, à medida que as eleições se aproximam, aumenta a incerteza não só sobre quem assumirá o cargo, mas, sobretudo, sobre a existência de um plano sólido para enfrentar o problema fiscal do país.
Luan Aral, especialista em dólar da Genial Investimentos, também vê pressão vinda do cenário político. “Os analistas olham para este cenário e entendem que podemos ter uma deterioração fiscal cada vez maior, tendo em conta que o governo atual tem gasto sem o objetivo de cortar na própria carne.”
Segundo uma sondagem Datafolha do final de julho, o presidente Lula (PT) tem 48% das intenções de voto na segunda volta da disputa presidencial contra Flávio Bolsonaro (PL), que regista 43%.
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