Quando a fome se junta à vontade de comer
No dia 30 de julho, em poucas horas, entraram de rompante em Ceuta cerca de 70 mil pessoas. Passada mais de uma semana sobre esse sinistro acontecimento encontramo-nos em condições de efetuar uma análise mais qualificada do mesmo. São várias as perspetivas de análise possíveis, que se complementam: migratória, redes sociais, histórica. Este texto aborda apenas a perspetiva geopolítica. Curiosamente, nesse mesmo dia, a cerca de 40 km de Ceuta, o Rei Mohammed VI de Marrocos celebrava o 27.º aniversário da sua entronização.
Por ter sido tão óbvia, é inegável a colaboração dos serviços fronteiriços – que franquearam a fronteira aos «migrantes» -, assim como das autoridades policiais de Marrocos. A Guardia Civil espanhola identificou a presença de agentes dos serviços de informações marroquinos entre os «migrantes». É indesmentível a inação e a cumplicidade descarada da polícia marroquina, só possível por ter recebido ordens superiores.
Esta possibilidade foi corroborada pelo “The Telegraph” e por outros órgãos da comunicação social europeia. Não se tratou de um movimento organizado pelas máfias de tráfico humano, como argumentou o primeiro-ministro Pedro Sanchez que, por curiosidade, em nenhuma ocasião acusou Marrocos de instigar a iniciativa. A esmagadora maioria dos migrantes eram marroquinos oriundos de zonas próximas de Ceuta (Tétouan, Castillejos), embora alguns tivessem vindo de zonas mais afastadas como Rabat. Havia também alguns subsarianos, em número reduzido, esses sim migrantes vítimas das máfias. Inesperadamente, já depois do efeito político produzido, a esmagadora maioria dos “migrantes” regressou voluntariamente a Marrocos.
Convém lembrar que Marrocos reivindica Ceuta e Melilla como partes do seu território, não reconhecendo a soberania espanhola sobre os dois exclaves. O Rei e o Governo marroquino referem-se periodicamente a estas duas cidades como território a recuperar. Esta entrada de “migrantes” em território espanhol foi claramente e acima de tudo um ato com motivações políticas. Mas será que Marrocos atuou sozinho, por sua própria conta e risco, sem apoio político de ninguém? A resposta a esta interrogação deve levar em conta uma série de acontecimentos, que não podem, nem devem ser descartados.
A 15 de julho de 2026, a Câmara dos Representantes do Congresso norte-americano aprovou o H.R. 8595 (National Security, Department of State, and Related Programs Appropriations Act, 2027). No relatório do Comité de Apropriações da Câmara que acompanha o projeto de lei é dito que o comité «nota que as cidades de Ceuta e Melilla administradas por Espanha estão localizadas em território marroquino e continuam a ser objeto da reivindicação de longa data de Marrocos», acrescentando que apoia os esforços do Secretário de Estado para incentivar o diálogo diplomático entre Marrocos e Espanha sobre o «futuro estatuto» de Ceuta e Melilla. Embora não autorize nem dê luz verde a qualquer transferência de território, o texto sugere clara e inequivocamente o alinhamento de Washington com a posição de Rabat sobre Ceuta e Melilla.
Já em plena crise, o Secretário de Estado Marco Rubio reiterou publicamente ser Marrocos o mais antigo aliado dos EUA, e poucos minutos após as primeiras imagens do acontecimento na internet, Ted Cruz postava no “X” sobre o tema chamando-lhe “loucura total” e “suicídio civilizacional”. “A Esquerda odeia o Ocidente e está a trabalhar ativamente para o destruir para sempre” e outras niceties.
Também no “X”, o conhecido neocon Michael Rubin e fervoroso adepto da invasão do Iraque veio dizer, que os “EUA e Israel deviam impor sanções a Espanha se utilizar qualquer equipamento de defesa policial americano ou israelita contra os marroquinos inocentes na Ceuta ocupada”. Rubin instigou Marrocos a marchar sobre Ceuta e Melilla e replicar a Marcha Verde de 1975, quando o Rei Hassan II mobilizou civis desarmados para o Saara Ocidental. Segundo ele, Espanha tem de ser pressionada para descolonizar e entregar as cidades de Ceuta e Melilla a Marrocos.
As declarações de Rubin estão prenhes de atrevimento, sobretudo para quem se arvora de especialista em assuntos do Médio Oriente. Não encontrei nenhuma tomada de posição de Rubin sobre a brutalidade com que o ICE tratou os migrantes que assolaram a fronteira norte-americana; ou sobre a devolução de terras ocupadas/roubadas aos povos autóctones. Rubin podia começar pelo seu país e terminar em Israel. E claro está, Ceuta não é um território ocupado.
Por sua vez, Trump tem sido tremendamente hostil a Sanchez devido à recusa deste em aumentar os gastos com a defesa. Trump chamou à Espanha, repetidas vezes, «sócio terrível» e «causa perdida». Na Cimeira da NATO, em Ancara (julho de 2026), Trump vociferou chamando à Espanha «um péssimo parceiro na NATO. Não participam. Não pagam. Não quero ter nada a ver com Espanha.» e ordenou ao Secretário do Tesouro que cortasse todo o comércio com Espanha, incluindo visitas.
As acrimónias eram e são frequentes. Quando o Governo espanhol proibiu o uso das bases de Rota e de Morón e o sobrevoo do espaço aéreo espanhol por aeronaves norte-americanas que participassem nos ataques ao Irão, Trump respondeu: «A Espanha tem-se portado de uma forma terrível… Vamos cortar todas as relações comerciais com Espanha», afirmando ainda que «Podemos [EUA] utilizar a base se quisermos… Ninguém nos vai dizer para não o fazermos».
Em sinal contrário, as relações de Marrocos com os EUA e Israel têm-se aprofundado. Marrocos é um país parceiro da NATO através do Diálogo para o Mediterrâneo e participou em várias missões lideradas pela NATO, nos Balcãs e na Líbia, para além de ser um dos principais aliados dos EUA, desde 2004. Marrocos disponibilizou-se para um enviar um contingente militar e policial para Gaza, de modo a que Trump pudesse cumprir a promessa de manter Gaza sob tutela árabe, o que na prática se traduz em ajudar Israel a manter e a reforçar o controlo sobre Gaza.
Marrocos é o aliado árabe mais próximo de Israel. No dia 10 de dezembro 2020, foi anunciada a normalização das relações entre Rabat e Telavive, no âmbito dos Acordos de Abraão, como contrapartida pelo reconhecimento norte-americano do Saara Ocidental como parte integrante de Marrocos. Uns meses mais tarde, em 24 de novembro de 2021, Marrocos e Israel assinaram um Memorando de Entendimento de cooperação no âmbito da defesa, o qual incluía a partilha de informações, tendo sido o primeiro acordo formal desse tipo entre Israel e um país árabe.
Em linha com estes comentários, o jornal israelita Ynet veio dizer que Israel se devia colocar ao lado de Marrocos. Telavive só teria a beneficiar se Ceuta e Melilla estiverem sob a soberania de Marrocos, sugerindo que Israel devia usar a sua influência sobre Trump para apoiar as pretensões territoriais marroquinas. No mesmo jornal, o analista marroquino Amine Ayoub afirmou que o agravamento das relações entre a Espanha e os EUA tinha aberto «uma verdadeira brecha na armadura estratégica da Espanha no que diz respeito a Ceuta e Melilla». Como tal, «o parceiro mais importante de Marrocos» encontrava-se «numa posição única para avançar… por essa brecha». Também o embaixador de Israel na ONU Danny Danon criticou Espanha pela forma como geriu a crise e apoiou a posição de Marrocos relativamente aos dois enclaves.
O “assalto” a Ceuta não foi um movimento inorgânico, existem provas mais do que suficientes que indicam ter-se tratado de um movimento organizado. Seria ingénuo atribuir a culpa às redes sociais, que não atuam sozinhas. Apesar de existir um catalisador específico da crise – o acordo assinado pela Espanha e a Argélia sobre o novo contrato de gás natural que conecta a Argélia diretamente a Espanha, dispensando a passagem pelo território marroquino e o pagamento da respetiva tarifa de transporte – será difícil não ver neste movimento uma jogada política do Governo marroquino para “entalar” o Governo espanhol, sancionada por Trump e com o apoio de Israel.
Parece evidente que os interesses de Marrocos se cruzaram com os dos EUA e de Israel disponibilizando-se Rabat para funcionar como um proxy. Washington não perdoa a quem se cruza no seu caminho. A história está cheia de casos, que acabam sempre da mesma maneira: com o afastamento dos dirigentes incómodos através do recurso a golpes de Estado (em desuso), operações de mudança de regime (revoluções coloridas), ou mais recentemente ao higiénico lawfare.
A “invasão” de Ceuta de 30 de julho foi uma punição por Sanchez ter tido a coragem de se opor a Trump: na condenação do genocídio dos palestinianos em Gaza, em não se mostrar disponível para gastar 5% do PIB em defesa, e em condenar a intervenção israelo-americana no Irão. Os dirigentes que se “atravessam” na política externa norte-americana e que não estejam alinhados com os seus propósitos estratégicos têm sido, mais tarde ou mais cedo, alvo de tentativas para os depor.
A história está cheia de casos. José Sócrates está a pagar amargamente a aleivosia de ter acreditado que podia ter uma política externa autónoma quando decidiu estreitar relações com Chávez, um inimigo visceral dos EUA, que Washington queria desalojar do poder, indo contra as tentativas de isolamento internacional da Venezuela e de a tornar num Estado pária. Isto, apesar de em matéria de corrupção, haver nessa altura e ainda existir, em Portugal, muito por onde começar. Situações intocáveis imensamente mais graves daquelas de que o antigo primeiro-ministro é acusado. O objetivo de comprometer irremediavelmente o seu futuro político foi conseguido.
Embora Marrocos tenha um interesse particular em causar embaraço a Sanchez tudo indica que Rabat foi devidamente industriada. Se não o podemos afirmar por falta de provas concludentes, também não podemos excluir a possibilidade de se tratar de uma ação com o conhecimento prévio e apoio de Israel e dos EUA, com dois objetivos distintos: (1) no curto prazo, causar embaraço e desgastar o Governo de Sanchez, criando condições para a sua queda, fazendo-o pagar pelas críticas feitas a Israel e aos EUA; (2) no longo prazo, criar condições para que Ceuta passe para a soberania de Marrocos.
Com Ceuta sob controlo do bem-comportado e obediente Marrocos, Washington podia garantir o controlo do acesso ao Mar Mediterrâneo evitando a repetição de sobressaltos como aconteceu nos estreitos de Ormuz e Bab el-Mandeb, controlados por atores (percebidos como) hostis aos seus interesses. É necessário para Washington e Telavive inviabilizarem qualquer possibilidade de uma das margens do estreito de Gibraltar ser controlada por alguém que já negou o sobrevoo do seu espaço aéreo a aeronaves militares norte-americanas que se dirigiam para ações de combate.
Falamos da razão pela qual Israel e Estados Unidos ambicionam o controlo de ambas as margens do estreito de Gibraltar, privando a Espanha da soberania de Ceuta. Com os problemas nos estreitos de Ormuz e de Bab El Mandeb aumenta a importância do estreito de Gibraltar, tornando-se crucial ter a garantia de que nunca se perderá o seu controlo e que não venha a colocar-se a possibilidade do pagamento de uma portagem a quem o cruzar.
Há um terceiro objetivo atingido, talvez não intencional e provavelmente não incluído no cálculo estratégico dos promotores da iniciativa: evidenciar a fragilidade da UE causada pela ausência de solidariedade entre os seus Estados-membros, chegando mesmo 22 deles a assinar uma carta (iniciativa promovida pela Itália e Dinamarca) culpando a Espanha pela invasão dos “migrantes” e não Marrocos, mostrando a sua prontidão para introduzirem o controlo das suas fronteira com Espanha.
A situação assume contornos sórdidos, uma vez que Ceuta, apesar de fazer parte do espaço Schengen, está sujeita a um regime especial. Viajar de Ceuta para a Espanha continental requer um apertado controlo documental da identidade. Consequentemente, quem entrar irregularmente em Ceuta tem vedado o acesso ilimitado ao território da União Europeia e à liberdade de circulação no espaço Schengen. Falamos da mesma União que paga a Ancara para conter no seu território milhões de pessoas deslocadas.
Alguns países como a Itália e Dinamarca, aproveitaram a oportunidade para mostrar serviço e serem readmitidos no “regaço acolhedor” de Trump. O presidente norte-americano não perdeu tempo e fez um post no seu Truth Social com uma imagem sua sorridente a olhar a Gronelândia de cima para baixo e a dizer “Olá Gronelândia”. Trump estará radiante com a reação de Copenhaga e da sua diligente e oportunista primeira-ministra aos acontecimentos em Ceuta. Perante um ataque oriundo do exterior dirigido a um país da União, várias chancelarias optaram por se alinharem com o atacante. Palavras para quê?
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