Tarifa bi-horária fica-se pelos 5,05% das adesões e a simples domina com 94,88%
Durante anos, a tarifa bi-horária foi apresentada às famílias portuguesas como o passo seguinte de quem queria pagar menos pela eletricidade. A promessa era clara: passar a lavar roupa e a loiça à noite, aproveitar o preço mais baixo do período de vazio e ver a fatura descer. O mercado respondeu a essa promessa e a resposta é inequívoca. Entre quem mudou de contrato, 94,88% escolheu tarifa simples, com um preço único por kWh ao longo de todo o dia. A bi-horária ficou-se pelos 5,05% e a tri-horária praticamente desapareceu, com 0,08%.
A leitura fácil seria atribuir o resultado a desinformação. Os números não sustentam essa leitura, e a razão é aritmética. Uma tarifa bi-horária troca um preço mais baixo em vazio por um preço mais alto em cheia, e o vazio, no ciclo diário, corresponde grosso modo ao período noturno e à madrugada. Para compensar, uma casa precisa de deslocar uma fração substancial do consumo para esse período. Não bastam a máquina de lavar e o programa noturno da loiça: é preciso que a parte do consumo que ocorre em horário de ponta, quando toda a gente cozinha, ilumina e liga o ar condicionado, seja pequena o suficiente para não anular o desconto.
Na prática, isso acontece num conjunto restrito de perfis. Casas com veículo elétrico carregado durante a noite, casas com termoacumulador programado, casas com bomba de calor ou aquecimento elétrico noturno, e casas com padrões de ocupação invulgares, em que ninguém está durante o dia. Fora destes casos, o consumo doméstico português é fortemente concentrado ao fim do dia, e é precisamente aí que a bi-horária penaliza.
Há ainda um fator que raramente entra nas simulações e que explica parte da desilusão de quem experimentou. A adesão a uma tarifa bi-horária exige, por regra, telecontagem ativa e implica um período de adaptação em que o consumo é estimado. Enquanto isso não estabiliza, a comparação com a fatura anterior é enganadora, e muitos consumidores tiram conclusões precipitadas nos dois sentidos. A avaliação séria de uma tarifa bi-horária exige olhar para o consumo real repartido por período, não para o total.
O dado mais interessante desta distribuição não é a supremacia da tarifa simples: é a estabilidade dessa supremacia. O peso das opções horárias mantém-se praticamente inalterado ao longo dos meses, num período em que quase tudo o resto no mercado de energia se moveu, incluindo a repartição entre eletricidade isolada e contratos duais e a diferença de preço entre comercializadoras. É um sinal de que os consumidores portugueses já resolveram esta questão e passaram a concentrar a atenção onde ela hoje rende mais, que é a escolha de comercializador e de preço, e não a arquitetura horária do tarifário.
A conclusão prática, para a maioria das casas, é que a poupança não está em mudar hábitos para acomodar uma tarifa. Está em comparar o preço da eletricidade entre fornecedores e em ajustar a potência contratada ao que a casa realmente precisa. São duas decisões que não exigem alterar rotinas, que se tomam uma vez e que produzem efeito no mês seguinte, ao contrário da disciplina noturna que a bi-horária pressupõe e que poucas famílias conseguem manter durante um ano inteiro.
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