‘Love or hate’, a complexa relação de Hollywood com a IA
Em junho de 2026, a Amazon tomou uma decisão inesperada. A empresa anunciou então que não iria lançar “Artificial”, filme realizado por Luca Guadagnino, apesar de já ter investido 40 milhões de dólares (34,5 milhões de euros) naquele que seria um dos seus filmes mais destacados.
O mais recente filme do autor de “Call Me By Your Name” é um biopic protagonizado por Andrew Garfield no papel de Sam Altman, chefe da OpenAI, que gira em torno do seu controverso despedimento e recontratação em 2023. O lançamento estava previsto para o início de 2027, mas a Amazon MGM Studios suspendeu todas as filmagens quando a rodagem já estava na fase final. Porquê? Não houve qualquer explicação. A empresa apenas emitiu uma declaração: o filme “ganharia mais em ser lançado por outro estúdio”.
O que pensar desta súbita decisão quando, uns meses antes, a Amazon investira 50 mil milhões de dólares (43,2 mil milhões de euros) na OpenAI, ficando com uma participação de cerca de cinco por cento na empresa que criou o ChatGPT? Segundo os espetadores presentes nas sessões pré-estreia, o filme não retrata Sam Altman de uma forma simpática. Quem sai bem na fotografia é Ilya Sutskever, membro da administração da OpenAI envolvido no afastamento de Altman.
As dúvidas ficaram no ar. Será que a Amazon decidiu abandonar o filme para não pôr em risco a sua relação com a OpenAI? “Artificial” acabou por ser comprado pela distribuidora Neon e tem lançamento previsto ainda este ano. O realizador, apanhado de surpresa, manifestou a sua preocupação relativamente ao poder das grandes tecnológicas. A revista norte-americana “The Hollywood Reporter” cita Luca Guadagnino, dizendo que este receia a “ascensão de uma pequena oligarquia que detém um controlo verdadeiramente radical” na indústria do entretenimento.
Durante anos, Hollywood preocupou-se com o facto de a inteligência artificial (IA) poder estar a infiltrar-se nos estúdios sob a forma de ferramentas automatizadas, o que poderia levar à substituição de trabalhadores em diversas áreas da indústria. Agora, a questão é outra. À medida que os estúdios de cinema se envolvem financeiramente com empresas tecnológicas, surge um novo risco. As empresas tecnológicas passam a ter a última palavra nos filmes que avançam e nos que ficam pelo caminho. Na prática, isto quer dizer que são elas que decidem que filmes os espetadores vão ver.
Razão para fazer soar o alarme? A relação de ‘love or hate’ – amar ou odiar – entre Hollywood e a IA terá sucumbido ao canto da sereia, pois o cinema não pode desligar-se totalmente das evoluções tecnológicas. O negócio também vive disso. De surpreender o público pela via tecnológica.
Quem sabe se não terá sido essa a razão pela qual, no final de junho, Hollywood e IA encetaram uma nova dança? No entanto, desta vez o ‘par’ não foi um gigante tecnológico, mas sim o estúdio de cinema A24, que esteve por trás de filmes como “Marty Supreme” (2025), “Moonlight – Sob a luz do luar” (2016) e “Tudo em Todo o Lado Ao Mesmo Tempo” (2022), que venceu o Óscar de melhor filme.
O que estava em causa? Um acordo de 75 milhões de dólares (64,8 milhões de euros) com o braço de IA da Google, DeepMind, destinado a desenvolver novas tecnologias de realização de filmes com IA. Na altura, foi dito que a Google não teria acesso à biblioteca da A24 para treinar os seus modelos de inteligência artificial. Será mesmo assim ou estaremos no campo das públicas virtudes, vícios privados?
O binómio amar ou odiar poderá ter dado lugar a uma relação de dependência. Consciente. Exemplos? A Lionsgate expandiu recentemente a sua parceria com a empresa de IA Runway para produzir vídeos treinados com a produção do estúdio. A Netflix comprou a startup de IA InterPositive, de Ben Affleck, para desenvolver ferramentas de realização de filmes com IA. E a Disney fechou um acordo de mil milhões de dólares, em dezembro de 2025, para licenciar as suas personagens à OpenAI, mas este acabou por cair por terra três meses depois.
Há quem questione se, com as big tech cada vez mais envolvidas na indústria cinematográfica, filmes como “Steve Jobs” (2025), dirigido por Danny Boyle – que mediam o pulso às perigosas ambições dos líderes dessas empresas – passariam hoje no crivo.
Não sabemos. Mas também não há resposta para o cancelamento de filmes sobre os senhores das big tech, como aquele que o cineasta Darren Aronofsky ia fazer sobre Elon Musk, a partir da biografia de 2023 de Walter Isaacson. Ou ainda o biopic sobre Peter Thiel, o big boss da Palantir Technologies, que Ben Affleck e Matt Damon iam levar ao grande ecrã, inspirado no livro “Conspiracy: Peter Thiel, Hulk Hogan, Gawker, and the Anatomy of Intrigue”, de Ryan Holiday, lançado em 2018. Já “The Social Reckoning” (O Outro Lado das Redes), com realização e argumento de Aaron Sorkin – sucessor de “A rede social”, de 2010, realizado por David Fincher – mantém a estreia mundial incialmente prevista para o mês de outubro.
Hollywood não mudou na sua essência, sempre foi um negócio. E se a IA pode trazer novas ferramentas aos cineastas, dificilmente o seu interesse irá esmorecer. Tecnologia e cinema sempre dançaram o tango. O que muda agora é que quem cria essas ferramentas também quer ter uma palavra a dizer sobre os filmes que os estúdios pretendem fazer. E decidir sobre os que acabarão, de facto, por chegar ao público.
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