Portugal precisa de acelerar o armazenamento de energia
Portugal deu um passo importante ao apresentar uma nova estratégia para o armazenamento de eletricidade. Num sistema energético cada vez mais assente em fontes renováveis, as baterias deixaram de ser uma tecnologia complementar para passarem a ocupar um lugar central na segurança, na eficiência e na competitividade energética do país.
Os dados ajudam a perceber a urgência. Em 2025, Portugal registou 12 GWh de energia renovável não aproveitada por falta de capacidade de absorção do sistema. Até meados de junho de 2026, esse valor já tinha atingido 89 GWh. Isto significa que estamos a produzir energia limpa que, em determinados momentos, não conseguimos utilizar. Será o armazenamento que permite guardar essa energia e disponibilizá-la quando o consumo aumenta ou quando a produção renovável diminui.
A meta de atingir 3 GW de capacidade em baterias até 2030 e 4,5 GW até 2040 confirma que Portugal reconhece o armazenamento como uma infraestrutura crítica. O lançamento do leilão para atribuir 750 MVA de capacidade a projetos de armazenamento autónomo, atualmente em consulta pública, é também um sinal claro de que o país pretende acelerar o investimento nesta área. Todavia, esperava-se que este leilão correspondesse também ao lançamento do mercado de capacidade, sem o qual estamos não só a atrasarmo-nos mais em relação a Espanha e ao resto da Europa, como estamos a limitar enormemente o leque de interessados na participação no leilão.
Mas o impacto das baterias vai muito além de armazenar energia. Para as empresas, permitem reduzir a exposição à volatilidade dos preços, aproveitar melhor a produção solar, diminuir picos de consumo e reforçar a autonomia energética. Para o sistema elétrico, ajudam a reduzir o desperdício de renováveis, a limitar o recurso à produção a gás, a assegurar maior estabilidade da rede com menores os custos. Na verdade, os ERC (Encargos de Regulação Imputados ao Consumo) têm aumentado dramaticamente nos últimos anos — de pouco mais de 1 €/MWh em 2021 para valores já acima dos 20 €/MWh em 2026 — e é certo que continuem a subir no curto prazo, à medida que a penetração renovável e os novos requisitos técnicos de estabilidade da rede exigem cada vez mais serviços de regulação. Mas, tal como sucedeu no Reino Unido, espera-se que as baterias desempenhem um papel decisivo a médio prazo na contenção desta tendência. Se Portugal seguir uma trajetória semelhante, o mesmo armazenamento que hoje beneficia de um mercado de serviços de sistema em forte expansão poderá, dentro de poucos anos, ser também o principal fator de alívio dos custos que atualmente pesam sobre todos os consumidores.
A gestão inteligente destes ativos amplia ainda mais o seu valor. Saber quando carregar, quando utilizar a energia armazenada e em que mercados participar permite aumentar o retorno do investimento, preservar a vida útil dos equipamentos e combinar diferentes fontes de receita. A própria estratégia identifica a arbitragem de preços, os serviços de sistema e os mecanismos de capacidade como pilares da valorização económica do armazenamento.
Portugal precisa, por isso, de mais baterias, de processos de licenciamento mais rápidos e de regras que permitam remunerar adequadamente os serviços prestados. A transição energética não depende apenas de produzir mais energia renovável. Depende também da capacidade de a armazenar, gerir e disponibilizar no momento certo. É essa flexibilidade que permitirá transformar transição energética em competitividade real.
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