A carregar agora

Dietas saudáveis ​​e sustentáveis ​​podem remodelar a agricultura global. Mas são mais caras

Dietas saudáveis ​​e sustentáveis ​​podem remodelar a agricultura global. Mas são mais caras

Menos carne, mais plantas: a revolução alimentar que promete salvar o planeta — e abalar a agricultura. Uma mudança global para dietas mais saudáveis e sustentáveis pode transformar profundamente o sistema alimentar, reduzir emissões e salvar milhões de vidas — mas terá também custos significativos para a agricultura tal como a conhecemos hoje. A conclusão é de um novo estudo publicado na revista Nature, que traça um cenário ambicioso de transição até 2050.
Se as recomendações internacionais para dietas equilibradas forem adotadas à escala global — com menor consumo de carne e maior aposta em frutas, legumes e leguminosas — a utilização de terras agrícolas poderá cair até 6% nas próximas décadas. Ao mesmo tempo, o valor económico da produção pecuária deverá encolher 42%, o equivalente a 630 mil milhões de dólares (cerca de 580 mil milhões de euros) face a 2020.
O impacto mais expressivo recai sobre os ruminantes — bovinos, ovinos e caprinos — cuja produção poderá perder cerca de 70% do valor, traduzindo-se numa redução de 400 milhões de animais a nível global. Em contrapartida, a produção vegetal deverá crescer 57%, impulsionada por uma procura crescente de alimentos de base vegetal, o que representa um aumento de 890 mil milhões de dólares (cerca de 820 mil milhões de euros).
Para os investigadores da London School of Hygiene & Tropical Medicine (LSHTM) e da Universidade de Cornell, esta transformação representa uma oportunidade histórica, mas também um desafio estrutural. “Os benefícios para a saúde e para o ambiente são enormes, mas implicam mudanças profundas na agricultura e na vida de milhões de produtores”, sublinha Matt Gibson, autor principal do estudo.
Entre esses benefícios está a possibilidade de evitar até 15 milhões de mortes prematuras por ano, associadas a dietas pouco saudáveis, bem como uma redução de 85% nas emissões líquidas de CO₂ ligadas à utilização de solos agrícolas. Números que reforçam a urgência de uma transição, num contexto em que os custos ocultos dos sistemas alimentares atuais são estimados entre 10 e 20 biliões de dólares (cerca de nove a 18 biliões de euros) anuais.
Mas o caminho está longe de ser linear. A análise revela fortes assimetrias regionais. Nos Estados Unidos, o valor global da produção agrícola poderá cair 21% (76 mil milhões de dólares; cerca de 70 mil milhões de euros), com uma quebra acentuada na pecuária (-73%, 116 mil milhões de dólares; cerca de 107 mil milhões de euros), parcialmente compensada por um aumento na produção vegetal (20%, 40 mil milhões de dólares; cerca de 37 mil milhões de euros). Já na Índia, o cenário é inverso: o valor agrícola total deverá crescer 46% (198 mil milhões de dólares; cerca de 182 mil milhões de euros), impulsionado sobretudo pelas culturas (65%, 208 mil milhões de dólares; cerca de 191 mil milhões de euros).
Na Europa, o impacto seria particularmente significativo: uma redução global de 35% no valor da produção agrícola (190 mil milhões de dólares; cerca de 175 mil milhões de euros), fortemente marcada pelo colapso da pecuária (-66%, 168 mil milhões de dólares; cerca de 155 mil milhões de euros). Um retrato que antecipa tensões económicas e sociais num setor que continua a ser central em várias economias.
Os autores sublinham que estas projeções partem de um pressuposto exigente: uma mudança generalizada nos hábitos alimentares, sem custos para os consumidores. Na prática, fatores como o preço dos alimentos, a acessibilidade e os hábitos culturais poderão dificultar essa transição.
Ainda assim, a mensagem é clara. “Não podemos usar estes resultados como desculpa para a inação”, alerta Gibson. Para o investigador, cabe aos governos liderar o processo, enfrentando interesses instalados e criando políticas que apoiem agricultores e consumidores na adaptação.
A transformação dos sistemas alimentares não será um evento súbito em 2050, mas um processo que começa agora. E, como sublinham os investigadores, as decisões tomadas hoje irão determinar se esta transição será não apenas sustentável, mas também justa.

Share this content:

Publicar comentário