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Mais saúde, menos sapatos. O que as exportações portuguesas têm mudado

Mais saúde, menos sapatos. O que as exportações portuguesas têm mudado

Os automóveis, várias maquinarias e os combustíveis continuam a dominar as exportações de bens nacionais, e o top 10, quando somado, mantém sensivelmente o mesmo peso face ao total (55%). Só que, ao longo da última década, nem tudo ficou na mesma, com algumas das alterações a sinalizarem uma transformação progressiva, mas profunda, para segmentos com maior valor acrescentado.
O Jornal Económico (JE) analisou as 98 subcategorias que o Instituto Nacional de Estatística (INE) utiliza para dividir as exportações, comparando dois triénios separados por uma década: a média anual entre 2023 e 2025 face a 2014-2016 (que corresponde, grosso modo, ao pós-Troika, tendo em conta que o resgate financeiro do país terminou em maio de 2014).
Ao longo desta década, as exportações de bens cresceram 59%, segundo as contas do JE, mas 27 tipologias de produtos tiveram uma subida para mais do dobro, incluindo quatro das mais relevantes (exportações que, em média, ficaram acima de mil milhões de euros em cada um dos últimos três anos).
Remédios e velocidade
O maior destaque de subida no top 20 vai para os produtos farmacêuticos (sobretudo medicamentos), em que 48% das vendas são dirigidas para a Alemanha e 25% para os Estados Unidos. Entre estes dois triénios, as exportações subiram de uma média de 911 milhões para 3,6 mil milhões, ou seja, quatro vezes mais (297%), galgando 10 posições no ranking, de 15.º para 5.º lugar. E se a análise se centrar apenas em 2025, já atingiu mesmo a quarta posição (com 4,8 mil milhões de euros) depois de ultrapassar os combustíveis (num contexto anterior à guerra do Irão, de preços mais baixos).
No entanto, este não é caso único. Com desempenho semelhante estiveram os instrumentos de medição, controlo e precisão (nome usado pelo JE para resumir uma longa subcategoria que junta indicadores de velocidade para carros, instrumentos para medicina ou artigos ortopédicos, por exemplo): cresceu 249,4% para 2,2 mil milhões de euros, dando um salto de 11 lugares, de 21.º para 10º.

As exportações de produtos farmacêuticos subiram 297% entre os triénios 2014-2016 e 2023-2025, enquanto os instrumentos de medição, controlo e precisão tiveram um aumento de 249%. Estas duas subcategorias estão agora no top 10.

Os indicadores de velocidade para carros valem cerca de metade desta subcategoria (1,1 mil milhões de euros, dos quais 556 milhões para a Alemanha). Portugal é o segundo maior exportador deste tipo de equipamentos (cerca de 15% do respetivo comércio mundial), muito perto do México, de acordo com o Observatório da Complexidade Económica (OEC, na sigla inglesa), que se baseia em dados da ONU.
O valor exportado em indicadores de velocidade para carros multiplicou por nove neste período (+816%), considerando que teve, em média, apenas 134 milhões entre 2014 e 2016. A escalada foi constante entre 2013 e 2024, com os grandes saltos a verificarem-se entre 2017 e 2019. A primeira quebra só surgiu no ano passado.
Estas foram as duas subcategorias de produtos que entraram no top 10 face ao período pós-Troika. Entre os seus protagonistas estão duas empresas alemãs: a Pfizer Ireland Pharmaceuticals (maior exportador germânico no ano passado) e a Bosh Car Multimedia, também um dos maiores exportadores em Portugal.
Merecem ainda referência as gorduras e óleos (sobretudo azeite) — subiram de 25.º para 14.º lugar no ranking dos últimos três anos, triplicando o valor (196,6%) para 1,7 mil milhões de euros — e as frutas, que escalaram 10 lugares, para 18.º. A subida foi de 129,8%, para 1,1 mil milhões de euros.
Entre as 98 subcategorias, há aumentos percentuais ainda mais expressivos neste período, mas com um valor mais baixo. Por exemplo: “Outras fibras têxteis vegetais; fios de papel e tecidos de fios de papel” cresceram 800%, embora não tenham ultrapassado os 36 milhões de euros.
Dar a corda aos sapatos
Em sentido contrário, duas subcategorias de vestuário perdem peso no ranking das exportações: a roupa de malha (em média, 2,2 mil milhões de euros nos últimos três anos) e a dos restantes tecidos (mil milhões). No primeiro caso, caiu de 5.º para 11.º lugar, após um crescimento tímido de 14,8% neste período (se analisarmos 2025 de forma isolada, está em 10º). Já o vestuário de outros tecidos caiu da 14.ª para a 20.ª posição (depois de ter subido apenas 4,9% entre os dois triénios).
Mais grave é, porém, o caso do calçado, que exportou uma média de 1,8 mil milhões de euros entre 2023 e 2025. Tal como o vestuário de malha, caiu cinco lugares e saiu do top 10 desde o pós-troika (neste caso, para 12.º), mas houve também uma quebra das exportações: menos 5,1% desde 2014-2016.
Entre todas estas subcategorias do INE, apenas seis tiveram quedas percentuais. E o calçado é o único a cair no top 50.

Manuel Caldeira Cabral, antigo ministro da economia e especialista em comércio internacional, aponta como principais desafios à indústria do calçado “a concorrência de países asiáticos” e, no caso específico dos sapatos clássicos, “alterações estruturais na procura”.
Também Rafael Campos Pereira, vice-presidente da CIP, sublinha que “o têxtil e o calçado são setores que continuam a ser muito importantes e que, por fatores que não têm a ver com os seus méritos, têm sofrido um pouco mais”. As duas indústrias “estão a fazer percursos muito interessantes de revitalização e de reestruturação interna”, adaptando-se às novas tendências, acrescenta o também vice-presidente executivo da AIMMAP (associação que representa empresas de metalurgia e metalomecânica).
Mais valor acrescentado
“Em contracorrente”, num contexto de “crescimento mundial mais lento”, as exportações nacionais “deram um salto importante”, e ainda mais “em setores sofisticados”, considera Caldeira Cabral. Por outro lado, há indústrias tradicionais que “não estão em expansão”. Já Rafael Campos Pereira nota que tem havido “uma maior aposta em produtos de maior valor acrescentado”.
O responsável está confiante em relação à metalurgia e metalomecânica, setor que acaba por ter um peso determinante nas três principais subcategorias das exportações, através dos automóveis e da maquinaria. “Representávamos um terço das exportações da indústria transformadora e eu diria que a percentagem já é agora mais significativa”, porque “está a crescer cerca de 10% este ano”, revela ao Jornal Económico.

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