Resíduos de medicamentos: quando a sustentabilidade começa na confiança
Há temas em que o sucesso não depende apenas de uma boa lei, de uma campanha de comunicação bem direccionada ou de um investimento público necessário. Depende, sobretudo, da capacidade de mobilização e de fazer pessoas e organizações trabalharem em conjunto. A gestão dos resíduos de medicamentos é um desses exemplos.
Todos os anos, milhões de embalagens de medicamentos entram nas casas dos portugueses. Quando deixam de ser necessárias ou ultrapassaram o prazo de validade, cada embalagem representa uma escolha simples, mas decisiva: que destino lhes devo dar? Colocá-las no lixo indiferenciado ou num ecoponto, despejar os restos através da canalização ou entregá-las num ponto de recolha VALORMED? Essa decisão individual tem consequências colectivas.
Medicamentos descartados de forma inadequada podem contaminar solos e recursos hídricos, afectar ecossistemas e criar riscos para a saúde pública. Em contrapartida, quando são correctamente devolvidos, transformam-se num exemplo concreto de economia circular aplicada à saúde.
Os números conhecidos agora pela VALORMED são reveladores. Em 2025 foram recolhidas quase 1.400 toneladas de medicamentos fora de uso e respectivas embalagens, mais 3,5% do que no ano anterior, que os portugueses entregaram nas farmácias comunitárias e dos locais de venda de medicamentos não sujeitos a receita médica.
Isto demonstra que a proximidade continua a ser um dos maiores activos das políticas ambientais e, muito mais do que locais de dispensa de medicamentos, são espaços de confiança, de aconselhamento e de contacto diário com os cidadãos que conquistaram uma posição única na comunidade e hoje desempenham também um papel essencial enquanto agentes ambientais.
É precisamente esta confiança que explica porque quase metade dos portugueses afirma já devolver os medicamentos fora de uso através da rede VALORMED. Mas este sistema funciona porque existe uma verdadeira cadeia de responsabilidade.
A indústria farmacêutica investe no ecodesenho das embalagens para as tornar mais amigas do ambiente e financia o sistema através da responsabilidade alargada do produtor. A distribuição farmacêutica assegura uma logística inversa altamente eficiente, aproveitando os circuitos existentes para recolher resíduos sem necessidade de deslocações adicionais. As farmácias e lojas de saúde/parafarmácias aderentes disponibilizam milhares de pontos de retoma espalhados por todo o território. Os cidadãos fazem a escolha correcta e as entidades públicas criam o enquadramento legal que permite a todos cumprir o seu papel. É esta visão integrada que faz a diferença.
Mas há, ainda, um parceiro que pode assumir um papel muito mais relevante: as autarquias. Os municípios são hoje protagonistas das políticas de resíduos urbanos, da educação ambiental e da proximidade com as populações. Integrar de forma mais consistente a temática dos resíduos de medicamentos nas estratégias municipais de sustentabilidade permitiria aumentar significativamente a literacia ambiental, reforçar campanhas locais e envolver escolas, juntas de freguesia, centros comunitários e instituições sociais.
A sustentabilidade não conhece fronteiras administrativas. Quando uma câmara municipal promove correctamente a separação de resíduos domésticos, quando uma escola ensina os mais novos a devolver medicamentos fora de uso ou quando é explicado a um utente porque não deve deitar medicamentos no lixo, todos estão a contribuir para o mesmo objectivo.
Mais do que campanhas isoladas, importa construir uma verdadeira cultura de responsabilidade partilhada.
Também os profissionais de saúde têm aqui uma oportunidade importante. Médicos, farmacêuticos, enfermeiros e restantes profissionais podem transformar um simples momento de contacto com o doente numa acção de educação ambiental. Bastam poucos segundos para recordar que os medicamentos de origem doméstica que já não são necessários devem ser depositados num contentor VALORMED.
Porque proteger a saúde não termina quando termina um tratamento. Os dados da VALORMED mostram igualmente outro aspecto relevante: reduziram-se em mais de 50% os resíduos indevidamente colocados nos contentores do sistema. Isto significa que a literacia ambiental está efectivamente a crescer. Quando existe informação clara, acessibilidade e confiança, os cidadãos respondem.
É talvez esta a principal lição. Os grandes desafios ambientais raramente se resolvem apenas com mais regulamentação. Resolvem-se através de modelos colaborativos, onde cada interveniente conhece o seu papel e percebe que faz parte de uma solução maior.
Num tempo em que tantas vezes se discute sustentabilidade de forma abstracta, a gestão dos resíduos de medicamentos mostra-nos que existem exemplos concretos de sucesso. Uma embalagem devolvida pode parecer um gesto pequeno, mas quando quase 1.400 toneladas resultam da soma desses pequenos gestos, percebemos que a sustentabilidade não se avalia apenas na quantidade total recolhida. Mede-se na capacidade de uma sociedade construir confiança, criar parcerias e assumir que proteger simultaneamente a saúde das pessoas e o ambiente é uma responsabilidade verdadeiramente colectiva.
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