Portugal é dos melhores países para viver, mas um dos piores para trabalhar
Portugal continua a afirmar-se como um dos destinos mais atrativos para expatriados, ocupando o 8.º lugar entre 31 países avaliados no estudo Expat Insider 2026, da InterNations. Mas por detrás da boa classificação esconde-se um paradoxo: enquanto o país conquista quem procura qualidade de vida e um local para viver após a reforma, continua a ser um dos destinos menos apelativos para desenvolver uma carreira profissional.
O contraste é evidente nos resultados. Portugal ocupa o 4.º lugar no Índice de Finanças Pessoais, o 7.º na Facilidade de Integração e o 11.º em Qualidade de Vida, mas cai para o 29.º lugar no Índice de Trabalho no Estrangeiro, figurando entre os três piores países do mundo neste indicador. Ainda assim, 78% dos expatriados afirmam estar satisfeitos com a vida em Portugal, acima da média global de 70%, e 39% dizem querer permanecer no país para sempre.
Fonte: Internations
Um país para viver, não para fazer carreira
O mercado de trabalho é, de longe, o principal ponto fraco identificado pelos expatriados.
Portugal ocupa o 29.º lugar no Índice de Trabalho no Estrangeiro e surge em último lugar (31.º) tanto na avaliação do mercado de trabalho como nas perspetivas de progressão profissional. Apenas 19% dos expatriados classificam positivamente as oportunidades profissionais disponíveis, metade da média global.
A segurança no emprego (28.º), a satisfação profissional (29.º), a flexibilidade laboral (28.º) e a remuneração (23.º) também registam classificações pouco expressivas. Cerca de 60% dos expatriados recebem até 50 mil dólares por ano, acima da média global (47%).
A única nota positiva surge no equilíbrio entre vida profissional e pessoal. Portugal ocupa a 16.ª posição, com uma semana média de trabalho de 41,4 horas, ligeiramente abaixo da média internacional de 42,2 horas.
O testemunho de um expatriado queniano residente no Porto sintetiza a perceção de muitos profissionais estrangeiros: “Não gosto da falta de oportunidades de carreira. Os salários são baixos face ao custo de vida e o mercado está saturado, sobretudo para empregos em inglês.”
O dinheiro continua a ser um dos maiores atrativos
Se trabalhar em Portugal não convence, viver no país continua a ser visto como uma boa opção.
Portugal ocupa o 4.º lugar mundial no Índice de Finanças Pessoais. 61% dos expatriados avaliam positivamente o custo de vida, bastante acima da média global de 39%, enquanto 76% consideram que o rendimento disponível é suficiente para viver confortavelmente, comparando com 71% a nível mundial.
Esta combinação ajuda a explicar porque 20% dos expatriados escolheram Portugal para se reformarem, cinco vezes mais do que a média global, e porque 41% dos residentes estrangeiros inquiridos já estão reformados, contra apenas 14% no conjunto dos países analisados.
A integração continua a ser um dos pontos fortes
Portugal mantém igualmente um desempenho sólido na integração de estrangeiros, ocupando o 7.º lugar neste indicador.
Os expatriados colocam o país em 5.º lugar na simpatia da população e em 4.º na capacidade de fazer os estrangeiros sentirem-se em casa. 76% afirmam sentir-se verdadeiramente integrados, a mesma percentagem considera os portugueses acolhedores, enquanto 73% dizem ter-se adaptado facilmente à cultura nacional.
Um expatriado norte-americano residente no Porto resume essa experiência: “Os portugueses são geralmente muito simpáticos e prestáveis. Mesmo quando estou a massacrar a língua, mostram paciência ou oferecem-se para falar em inglês.”
Segurança e qualidade de vida continuam a pesar
A qualidade de vida permanece um dos principais argumentos a favor de Portugal.
O país ocupa o 11.º lugar neste índice, destacando-se pelo 3.º lugar na qualidade do ar, 7.º no clima e 7.º na segurança pessoal. 94% dos expatriados afirmam sentir-se seguros, bastante acima da média global de 81%.
Os inquiridos valorizam ainda a oferta cultural e de lazer (10.º), as oportunidades para a prática desportiva (10.º), o custo dos transportes públicos (9.º) e a facilidade em deslocar-se a pé ou de bicicleta. 89% consideram Portugal um país seguro para a mobilidade pedonal e ciclável.
Não surpreende, por isso, que 21% tenham escolhido Portugal sobretudo pela procura de uma melhor qualidade de vida, mais do dobro da média global (9%).
A burocracia continua a ser uma dor de cabeça
Nem tudo é positivo. O estudo identifica a burocracia como uma das principais fragilidades do país.
Portugal ocupa apenas o 23.º lugar no Índice de Serviços Essenciais para Expatriados e surge em último lugar (31.º) na facilidade de relacionamento com as autoridades públicas. Apenas 20% dos expatriados consideram simples tratar de assuntos administrativos, contra uma média mundial de 38%.
Também a digitalização dos serviços públicos é alvo de críticas: apenas 45% dizem ser fácil aceder aos serviços administrativos online, quando a média internacional é de 61%.
Antes da mudança, 35% dos expatriados apontavam a burocracia como uma das principais preocupações, enquanto 40% referiam a barreira linguística. Ainda assim, 58% consideram possível viver em Portugal sem dominar a língua portuguesa, colocando o país em 11.º lugar neste indicador. A habitação, por sua vez, apresenta resultados relativamente positivos, com Portugal na 12.ª posição.
O perfil do expatriado em Portugal
O estudo traça igualmente o retrato dos estrangeiros que escolhem Portugal.
O expatriado típico residente no país tem 58,7 anos, refletindo o peso crescente dos reformados. A distribuição por género é equilibrada: 50% são homens, 49% mulheres e 0,5% identificam-se de outra forma.
As principais motivações para a mudança são a procura de uma melhor qualidade de vida (21%) e a reforma no estrangeiro (20%).
Entre os setores profissionais mais representados destacam-se as tecnologias de informação (14%), seguidas da consultoria (8%) e da saúde (8%).
Quanto ao futuro, 39% pretendem permanecer em Portugal de forma definitiva, 36% ainda não decidiram e apenas 9% planeiam sair do país nos próximos cinco anos.
Portugal continua no top 10
No ranking global, o Panamá mantém a liderança pelo terceiro ano consecutivo, seguido do México e da Tailândia. Portugal ocupa a 8.ª posição, integrando um grupo de países que se distinguem pela facilidade de integração, qualidade de vida e situação financeira dos expatriados.
No extremo oposto, a Noruega ocupa a última posição do ranking, seguida da Alemanha e da Turquia, sobretudo devido às dificuldades de integração social, ao elevado custo de vida e às fracas perspetivas profissionais.
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